-Eu não sou eu.
A doutora olhou para José, o carteiro. Um rapaz jovem, calado, feioso.
– Quer dizer, sou eu. Mas não sou eu. O rosto está lá no espelho. Mas não é exatamente o meu rosto.
– José, você usa drogas?
– Não, doutora. Nem bebo álcool.
– Ontem você era você.
– Como posso explicar? O mundo parece diferente. Este uniforme, por exemplo, é meu uniforme, mas não é meu uniforme. O meu tem uma letra J bordada por dentro da gola.
– É uma camisa nova.
– Tinha três camisas no guarda-roupa e todas elas sem o J.
– O que disse a Anita?
– Anita?
– Sua esposa.
– Sou solteiro.
– Não havia outra pessoa em sua casa hoje?
– Não.
– José….?
– A cozinha estava uma bagunça. Ontem à noite eu deixei tudo arrumadinho. Será que virei sonâmbulo, doutora?
– José, olhe esta foto – a doutora virou a tela do computador para ele. Uma série de fotos de uma festa de confraternização de fim de ano. – Quem são essas pessoas?
– A senhora, eu, Arnaldo e Anita.
– Quem é Anita?
– A namorada do Arnaldo.
– Como eles se conheceram?
– Nós três estudamos juntos. Entramos no mesmo concurso no Correios. Amigos de infância.
– Anita não é sua esposa?
– Não, sou solteiro.
– Notou alguma outra coisa diferente?
– Tudo. O prédio. As pessoas. A senhora tinha reflexos nos cabelos. Ontem sua pele estava bronzeada. O rapaz da recepção ontem estava dirigindo uma caminhão de entregas. Eu conversei com ele assim que entrei e sabe o que ele me disse? Ele afirmou que nem tem carta de motorista.
– O que você acha disso tudo?
– Eu enlouqueci? Diga que não, doutora.
– Não. Talvez alguma coisa aí no seu cérebro esteja perturbada…vamos fazer uns testes. Levante-se.
Trinta minutos depois, José saiu, com a devida dispensa médica, para ir ao laboratório e à clinica de imagens, com os horários já agendados pela própria doutora.
Na tarde seguinte, José retornou com os exames.
– Doutora do céu, ajude-me!
– Vamos olhar os exames, José.
Ela apoderou-se dos envelopes e foi colocando as lâminas no negatoscópio.
– São justamente os exames, doutora. A Anita me entregou na hora do almoço e garante que eu ontem passei o dia atrás deles. Eu ontem, pelo que me lembro, trabalhei o dia inteiro.
– Anita? Quem é Anita?
– Minha esposa.
– Você é casado, José?
– Doutora, a senhora conheceu minha esposa na festa de fim de ano, lembra-se? Ela trabalha em outra unidade.
– O que você fez ontem?
– O mesmo de sempre.
– José…?
– Dormi mal, doutora. Tive um pesadelo. Um pesadelo longo, confuso, minha memória está atrapalhada.
– Não há nada de errado com nenhum dos exames. Fale-me desses pesadelos.
– Eu acordei solteiro. O apartamento todo arrumadinho e limpo. Minhas camisas tinham um J bordado na gola, por dentro, aqui na parte de trás. Nenhum sinal da Anita. Quando cheguei ao trabalho, o Jorge que está aí hoje na recepção estava abrindo a porta de uma perua de entrega, vestido de motorista. Meu chefe veio com uma conversa esquisita para cima de mim.
– Que conversa?
– Que eu havia solicitado transferência para Sorocaba porque minha noiva é de lá. Eu sou casado, doutora! Quando eu disse isso para ele, ele insistiu que eu viesse falar com a senhora.
– Por que?
– Porque eu disse que eu era casado.
– Você esteve aqui ontem.
– Não, não estive.
– Não esteve?
– Quer dizer, estive. Mas não era a senhora quem me atendeu. Eu não fiz exame nenhum.
– Quem atendeu você?
– Ah, doutora, que pesadelo! A médica parecia a senhora, mas a senhora está pálida e seus cabelos estão todos da mesma cor. Não dava para mudar tanto de um dia para outro, dá?
– Como acabou seu sonho, José?
– No final da tarde eu fui procurar Arnaldo.
– Aquele seu amigo de infância.
– Aquele patife, isso sim. Ele estava beijando a Anita.
– Vocês brigaram?
– Bem, eu entrei correndo no bar, direto para cima dele, quando um sujeito entrou pela porta ao lado e foi na mesma direção que eu. Nós esbarramos um no outro. Foi horrível, doutora.
– Você se machucou muito?
– Que nada, doutora! Foi um esbarrãozinho de nada. O sujeito se virou para mim, eu me virei para o sujeito. Eu estava olhando para mim mesmo. Quer dizer, não era eu.
– Afinal, era você ou não era você?
– Aí é que está, era eu mas não era eu. Era eu, mas um tantinho diferente, entendeu?
– Não, como acabou o sonho?
– Sonho nada, pesadelo. Pelo jeito não acabou. Eu não me lembro de ter feito esses exames. E o mais esquisito eu ainda não mostrei.
– O que é?
– Este crachá que apareceu em meu bolso. Pode conferir aí no meu prontuário, meu sangue é O+, doutora. Se a Anita olhar para isso, vai ficar brava e com razão. Alguém está com uma brincadeira de mau gosto para cima de mim. Não sei quem fez isso.
A doutora olhou e leu:

José Silva
Unidade – Santos
Solteiro
Sangue A+

E a foto…
Bem, a foto era de José. A do outro José. A do José da véspera.
Agora que a doutora olhava com atenção, o outro José era ligeiramente diferente.


Sonia Regina Rocha Rodrigues (Santos, São Paulo). É escritora e médica. Autora dos livros de contos Dias de Verão (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014) e um de programação neurolinguística, O Que Você Diz a Seu Filho? (1999).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “O outro, por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s