Pelo andar da carruagem é um apanhado de clássicos contos e fábulas, escritos para adolescentes em um linguagem moderna encorpada de erudita, e temperado em um humor irreverente.
De conteúdo pseudo-psicanalista, a obra tem a pretensão de desvelar o subentendido que faz das fábulas clássicas, obras atemporais e socialmente conhecidas. Apresenta como pano de fundo dados popularizados da idade média e renascentista: religião, inquisição, nobreza, ascensão da burguesia e iluminismo, culminando na revolução francesa.
A princesa de cabelos vermelhos (adivinha quem?) apresenta traços psicológicos imanentes: oscila entre a superfície e o fundo do mar, o que lhe caracteriza certo nível de bipolaridade. Zangado, o anão, expressa um caráter questionador nato. Termina como peça da revolução. O espelho mágico equivale àquele mundo virtual que bem conhecemos nos dias de hoje, embora não perca a função à qual se designa o artefato: o de refletir a imagem de quem o olha. Quem é a madrasta que ‘substitui’ a doce mãe da infância? E o dragão, o que ou quem é ele? E se o sapo estiver enfeitiçado sem a possibilidade de revelar-se um príncipe encantado? E se a Fera fizer jus à sua fama?
Um texto clichê a quem queira rir e se identificar.


Trecho do Capítulo: No castelo de caras e bocas

Cindy e Princy viajaram para um compromisso no ‘Castelo de Caras e Bocas’, onde estaria reunida toda sorte de gente da high society: rainhas loucas, reis perversos e pervertidos, escritores e pintores dos costumes da época, guerreiros, bobos da corte, conselheiros reais e um cardeal.

A viagem foi longa, e ventava muito. Cindy chegou à ilha descabelada. Na entrada, haviam retratistas de personalidades. Um deles traçou rapidamente a pessoa da princesa. Ao dia seguinte, ela era imagem pública e, portanto, fonte de inspiração estética às mulheres presentes, que se descabelavam, literalmente, para seguir a ‘nova moda’. Eis o lado divertido de ser famosa. Mas diversão não era a causa da viagem, mas sim, o exercício da diplomacia. O evento, ainda que glamoroso, tinha por objetivo formar alianças, evitar guerras e gerar conflitos. Afinal, onde poucos defenderem interesses próprios, haverá sempre muitos prejudicados. E o contrário também.

No último baile da temporada, Princy presenteou a esposa com uma joia de família: o anel herdado da tataravó, uma dentre tantas rainhas loucas. O anel ficou largo no anelar de Cindy, mas encaixou-se perfeitamente no dedo indicador. Embora vislumbrante, a joia era pesada. Talvez o fosse pela carga histórica que trazia consigo. Por quantas mãos teria passado a mesma gema que, agora, ornava seu dedo? E que relevância teria isso, agora? A mente de Cindy borbulhava. Expor-se a tantos desconhecidos em um momento que deveria ser privado, íntimo e particular, queimava sua face. No fundo, algo menos racional a incomodava. Afinal, o que representava aquela joia em formato circular e considerável peso? Um vínculo definitivo entre ela e a família de Princy. Aparentemente, nada novo. Simbolicamente, o momento de decidir entre passado e presente, julgar e perdoar, viver como espectadora ou jogar-se no emaranhado da vida, entre gentes, erros, paixões, lutas, misérias e, sobretudo, amor. Receber o abraço anelar e abraçar a vida. Sim, Cindy acabava de receber um xeque-mate. E, sendo seu objetivo mover-se como rainha do próprio tabuleiro, teria que mexer algumas peças do jogo.

No último baile da temporada, Princy presenteou a esposa com uma joia de família: o anel herdado da tataravó, uma dentre tantas rainhas loucas. O anel ficou largo no anelar de Cindy, mas encaixou-se perfeitamente no dedo indicador. Embora vislumbrante, a joia era pesada. Talvez o fosse pela carga histórica que trazia consigo. Por quantas mãos teria passado a mesma gema que, agora, ornava seu dedo? E que relevância teria isso, agora? A mente de Cindy borbulhava. Expor-se a tantos desconhecidos em um momento que deveria ser privado, íntimo e particular, queimava sua face. No fundo, algo menos racional a incomodava. Afinal, o que representava aquela joia em formato circular e considerável peso? Um vínculo definitivo entre ela e a família de Princy. Aparentemente, nada novo. Simbolicamente, o momento de decidir entre passado e presente, julgar e perdoar, viver como espectadora ou jogar-se no emaranhado da vida, entre gentes, erros, paixões, lutas, misérias e, sobretudo, amor. Receber o abraço anelar e abraçar a vida. Sim, Cindy acabava de receber um xeque-mate. E, sendo seu objetivo mover-se como rainha do próprio tabuleiro, teria que mexer algumas peças do jogo.

Leia na íntegra o livro Pelo andar da carruagem, de Emanuela Rodrigues no Wattpad.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Sobre sapos, sapatos, príncipes e artefatos, por Emanuela Rodrigues

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