Há uns doze anos, quando Brad e Ray estavam explorando o espaço, encontraram um planeta muito parecido com o nosso. Muitas florestas, diversos rios, animais maravilhosos. Diziam até que, assim como a Terra, o planeta era formando por cerca de 70% água.
Seria um ótimo lugar para descer e fazer contanto, pensou Ray. Brad foi meio contrário. Tinha medo dos nativos; sabe-se lá que tipo de pensamento tinham sobre nós terráqueos, isto é, se eles já sabiam que somos terráqueos ou o que é a Terra.
Mas Ray, sempre em busca de aventuras, resolveu descer. A dupla procurou algum lugar com espaço para pouso. O espaço aéreo não parecia ter nenhum tipo de nave. Somente ao se aproximarem, puderam ver que os nativos usavam uma espécie de carro voador, semelhante aos nossos aviões atuais.
Finalmente viram uma espécie de estacionamento com espaço suficiente para pararem a nave. Ao pousarem, perceberam que a população no chão se movimentava.
Brad se preparou para lutar, mas Ray acreditava que eles não fariam nada demais, e estava certo. Os habitantes do planeta só olhavam para a nave com certa surpresa e curiosidade.
Os dois terráqueos desceram e olharam bem os nativos. Eram também parecidos com os humanos; suas narinas e orelhas um pouco maiores e, de resto, havia espécies de peles em maior quantidade. Existiam alguns habitantes cor-de-rosa, laranjas, azuis, verdes; mas nenhum nas cores da variedade terrestre. As roupas eram também coloridas e pareciam diferentes para machos e fêmeas.
Ray tentou fazer contato com uma fêmea azul que surpreendentemente sabia o inglês, o idioma dos dois rapazes, é claro.
Ela informou que o planeta chamava-se Céffio, e que o ideal seria procurar o grande líder que vivia na capital do planeta. A fêmea céoffia chamou um grupo, que parecia uniformizado, e esse grupo fez contato com a capital, para aonde guiaram os terráqueos em seus carros voadores. Brad achou que o veículo era bem demorado, mas nada comentou.
A capital era bonita, as pessoas andavam apressadas embaixo dos veículos. Havia muitos prédios com letreiros – numa escrita própria – o que indicava prédios públicos. Havia também alguns monumentos que pareciam não ter sentido algum.
O prédio do governo era claramente um prédio do governo. Não combinava com nada a sua volta; era enorme, parecia ter custado muito mais do que os outros, e era brilhante. Muito brilhante.
Logo se descobriu o nome do lugar: Palácio Brilhante (traduzido para a nossa língua). Ali, Brad e Ray foram levados ao encontro do governador, de nome Gewwerk.
O líder era um pouco mais alto que os outros, tinha uma pele verde que combinava com os cabelos, também verdes, em tom mais escuro. Vestia-se, ao contrário da população, com uma só cor: branco. Parecia ser mais velho do que todos os habitantes vistos até então. Ele se antecipou e simpaticamente se apresentou:
– Eu sou Gewwerk, governador de Céffio. Como vão vocês? De onde vocês vêm? Como podemos ajudá-los?
Brad, empolgado com a boa recepção, estendeu a mão para cumprimentar o líder céffio, mas este lhe estendeu o nariz e lhe deu uma boa cafungada no cangote. Ray não conteve o riso. Os céffios presentes não compreenderam.
Percebendo a gafe, Gewwerk pediu desculpa, informando que não conhecia os costumes dos dois visitantes, mas que pretendia conhecer, e sabia ser esse o desejo de toda a população do planeta.
Ray percebeu a excelente oportunidade de conhecer um novo mundo, enquanto Brad pensava como receberiam glórias ao voltar.
Assim, o governador organizou uma turnê para os dois, que deveriam conhecer várias regiões do planeta, essencialmente universidades, a fim de ensinar sobre a Terra e, quem sabe, aprender sobre Céffio.
E assim, pelo menos, Brad ficou contente, pois, a cada parada, ele era recebido com as glórias que esperava de seu planeta.
Mas, em nenhum momento procuravam aprender nada sobre os céffios, sempre falavam de seu povo. De seu incrível conhecimento bélico e tecnológico. Os céffios ficavam fascinados ao ouvir aquelas palavras e imaginar aquele mundo longínquo do qual nunca ouviram falar antes.
Mais ou menos na décima parada, os dois cosmonautas foram recepcionados por um curioso ancião que era o reitor da Universidade de Klugh, uma das melhores do planeta, segundo diziam.
Repararam logo a face que expressava sabedoria, e que, tal como o governador Gewwerk, o reitor se vestia de branco. Sua cor, contudo, era azul. Brad achou que ele tinha narinas maiores do que as dos outros.
Simpático como todos os céffios, o reitor se apresentou. Chamava-se Griip e deu-lhes a famosa – e agora costumeira – fungada nos pescoços dos dois rapazes.
Queria apresentar-lhes tudo na Universidade, da qual parecia ter muito orgulho. Trabalhava ali desde muito jovem, e esperava alguém para desenvolver um projeto de união interplanetária. Estava deveras empolgado.
Resolveu então mostrar a parte da instituição, da que mais se orgulhava; uma criação sua, muito antiga, para guardar toda a sabedoria produzida pela população: a Sheei.
A Sheei nada mais era do que uma sala cheia de papéis escritos e encadernados, guardados em estantes. Havia também algumas mesas, onde os céffios liam e cheiravam esses encadernados.
– Existe uma Sheei em cada Universidade do planeta, mas foi uma invenção minha. Antes disso, o conhecimento ficava espalhado por aí. Agora, é só virmos aqui e consultar o que queremos da produção de outros, ou registro de velhos tempos – afirmou Griip, excitadíssimo.
Brad deu uma enorme risada. Ray conteve o riso e disse que isso também existia na terra, e se chamava biblioteca.
– Na terra, nem lemos mais em papel. Nossas Sheeis não têm mais muita função. Usamos uma coisa chamada tablet.
Com o coração cheio de carinho que Ray tinha pelos céffios, tratou de contar como funcionava o tablet, os laptops e tudo que pudesse ser usado para ler sem utilizar papel. Insistiu, inclusive, que era um ganho para a questão ecológica, uma vez que a produção de folhas não seria mais necessária.
Tudo isso fascinara Griip.
Reuniu-se então na capital um grupo para modernização das Sheei. Griip, Gewwerk, Brand e Ray se envolveram no projeto. Uniram-se a eles dois cientistas que tentavam observar como aquela tecnologia supermoderna poderia ser utilizada por tão rústicos seres como os céffios. Assim pensavam os próprios céffios.
Brad, sempre do contra, achou que aquilo atrapalharia seus planos de voltar para casa e, afinal, para que dar conhecimento para esses povos bárbaros?
Enfim, Ray e Brad passaram quase um ano em Céffio.
Ao fim do período, conseguiram patentear os novos equipamentos eletrônicos para guardar e produzir o conhecimento.
Gwwerk, empolgado com a nova tecnologia, ordenou a destruição de todas as antigas Sheei e a criação das novas, agora totalmente tecnológicas.
A inauguração seria na Sheei da Universidade de Klugh, onde Griip não podia conter a emoção pelos novos tempos de sabedoria que viriam.
Houve festa, discursos felizes, discursos inflamados, discursos valorizando o futuro. Houve medalhas para Ray e Brad. Abraços e, é claro, fungadas.
A população colorida entrava na nova Sheei animada e começava a mexer em seus equipamentos eletrônicos. Contudo, aos poucos, perceberam que não conseguiam compreender os textos escritos. Não que não conseguissem utilizar a tecnologia, que era facílima, mas simplesmente não conseguiam decodificar perfeitamente as mensagens.
– Será uma questão de costume? – pensou Gwwerk.
O semblante de Griip demonstrava pavor. Durante todo o processo, eles se esqueceram de algo muito importante: os céffios não liam somente com os olhos, mas também com as narinas.
O reitor, cada vez mais desesperado, chamou os companheiros de lado e disse:
– O que faremos? Todos os textos escritos foram destruídos. Sem instruções não saberemos nem como escrever de novo.
– Talvez com apoio dos terráqueos… – disse Gwwerk.
– Nossa missão foi cumprida, meus caros. Havia prometido dar-lhes tecnologia e a dei – disse Ray.
– Eu não vejo a hora de ver os meus, sinto falta da minha terra! – disse Brad.
O desespero tomou Gwwerk, mas Griip refletiu e resolveu trazer todos os anciões possíveis, aqueles que ainda tinham conhecimento de como ler e escrever, e tentariam produzir tudo de novo. Muitas coisas haviam se perdido, mas o que se há de fazer?
Ray e Brad não conseguiam entender o motivo de tanta confusão. Eles que aprendessem a ler só com os olhos, ora!
Meio ofendidos, resolveram que era hora de partir. Despediram-se dos céffios, sem muitas expressões de agradecimento. Juntaram suprimentos e partiram.
Há uns cinco anos, outra missão chegara a Céffio. Os cosmonautas foram, como de praxe, bem recebidos. Porém, havia certa pobreza no ar. Os prédios da capital já não eram tão imponentes, e o Palácio Brilhante já não brilhava mais.
Os anciões estavam lutando muito para botar as coisas em ordem, mas, devido à idade, morriam com o passar do tempo. Griip já havia falecido.
Os terráqueos prometeram voltar para ajudar. Neste ano, finalmente, foi aprovado o plano de apoio aos céffios, e partirá um grupo de cientistas com uma enorme parafernália eletrônica. Vamos ver o que eles conseguem. Eu sou um deles, e não vejo a hora de começar o trabalho!


Carol Reis (Rio de Janeiro, 1980). Professora, Doutora em Literatura Comparada, membro de equipe da Superintendência de Desenvolvimento de Pessoas da Secretaria de Estado de Educação.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

3 replies on “Brad and Ray, por Carol Reis

  1. Carol

    Amei a leitura do Conto !!!!
    Fiquei viajando a cada parágrafo e imaginando o cenário de cada um, como seria ilustrado !
    Que tal um virar um livro ?
    Parabéns !!
    Abraços
    Verônica

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