Joãozinho roubou de novo. Ele entra na Promotoria conduzido, cabisbaixo, não encara ninguém, como se admitisse a culpa. Não a culpa do crime, essa não dá para esconder: tem flagrante, tem vítima que o reconhece, tem arma apreendida. A autoria passa ao largo de seu pensamento, sim “foi ele mesmo, foi”. A culpa é outra, mais profunda, arraigada, irresistível. João se pergunta quando algum projeto vai dar certo, quando haverá futuro para ele. Ele já assumiu sua condição e está cansado de perguntas e de conselhos: “estuda, João”, “não rouba, João”, “fica em casa, João”, “deixa as más companhias, João”, “não usa droga, João”. Não, não, não. Ninguém quer realmente saber de João, ele é só um motivo para que outros se sintam normais. Quem quer saber que onde para uns há o lar, para ele a casa é o inferno? Quem quer saber que o pai batia na mãe? Que o orçamento da casa só dá para a comida de João, quando ao redor meninos têm comida, roupas, videogames, tênis, carros? Ninguém! Ninguém quer enxergar a desigualdade flagrante, gritante e absurda que faz João tremer de revolta. Sabem os homens o que é um barraco, uma rua de esgoto a céu aberto, o cheiro de podridão? “Estuda, João”. Sabem como é a escola e os professores? “Larga as más companhias” – nunca o apresentaram às “boas”. O universo conspira a seu desfavor, mas é claro, basta ter caráter, ninguém está condenado a agir “mal”. Quem diz isso a João é o Advogado, é o Promotor, é o Juiz, engravatados, cheirosos, arrumados. Berços de ouro; o seu: de lixo, de miséria, de horror. “Não justifica, claro”, dizem os teóricos do racionalismo-individual, sentados em sofás confortáveis enquanto bebem cafés – não: cappuccinos italianos. João queria tanta coisa, mas queria antes de mais nada ter tido a chance que outros tiveram, a chance de ter coisas sem ter que roubá-las. João pede ajuda, no seio de seu desespero pessoal, mas ninguém escuta: Deus só dá a quem já tem. Óbvio, ele poderia estudar onde não estudam; recusar a droga que é sua única fuga; andar com pessoas que não existem; ter caráter, diabos! Não desejar, ser como os antigos gregos, mergulhar em profunda sabedoria… Quem, nos seus quinze anos, não seria capaz de ser como Sócrates? Ninguém olhou por ele. O pai, violento, deixou o lar; a mãe é ignorante, mas querem que ela faça brotar do fundo de sua boa alma os dons de um profissional da psicologia ou da pedagogia, ela que também é fruto podre de uma sociedade injusta. “É possível, é possível!”; “Ah se fosse meu filho!”; “Uma boa surra, é o que basta!”. João está só. Bom, tem o Estado… Esse Leviatã atabalhoado não viu a desestruturação de tantos Joãos – ou se viu, nada pôde ou quis fazer. O Estado não deu a João nem a educação de que ele precisava, nem bons salários a professores, nem entusiasmo com relação ao futuro, nem ajuda, nem conselhos. O Estado fechou os olhos enquanto a família se digladiava, se destruía, enquanto João desejava ser como os outros, ter o que os outros tinham. Ninguém lhe disse: “você terá, eu ajudo, faça assim, faça assado”, ninguém falou a João de valores, nem deu exemplos. Seu exemplo é a condição que ele já aceitou. Quem se dirige a ele vive em mundos tão distantes que suas vozes não o atingem: assistentes sociais, juízes, policiais, promotores. Falam do que não conhecem. João ri e sua raiva aumenta. “Olha, quando tiver 18 anos, vai ser Papuda, vai ser dez anos, vai ser isso e aquilo outro”, como se ameaças de sofrimento pudessem transformá-lo. A vida já é puro sofrimento. E ouve isto do Estado que não viu nada acontecer, que não lhe deu qualquer expectativa de vida. O mesmo Estado que, não satisfeito em não proteger sua infância quando a família falhou, agora vem puni-lo, julgá-lo. João realmente acha que as lições de moral são dispensáveis, já que o Estado ausente é o mesmo que agora pune, mas não dá para dizer isso a um Juiz, não. Se não vai ser pior, porque as pessoas lidam muito mal com a verdade, ainda mais quando usam gravatas. Pedem para ele ser bom… João acha que é bom, de verdade. Mas às vezes a fúria lhe sobe pelo peito, o mundo o agride com toda sua injustiça, é difícil controlar. “Mas não se justifica, se não todo miserável seria bandido”. Verdade. Os que viveram nas condições de João e resistiram são os grandes desse mundo, maiores do que eu, maiores do que você, maiores do que Sócrates. Mas se pode pedir a João que seja assim? João é humano. Agora ele sai da audiência. Seu caso já era: é internação na certa. Vão mandá-lo à instituição onde João será ressocializado, onde apreenderá os valores essenciais do cidadão. É o que o Estado diz, a justificativa para restringir sua liberdade. É o ato final da tragédia. Que piada! O Estado que não ofereceu o ombro a João, que não viu que precisava de ajuda, que não o educou direito; o Estado que não teve forças para tirá-lo da miséria agora vem, com sua maquinaria pesada, estraçalhar o pobre João, vem puni-lo usando eufemismos de ressocialização. O Estado nunca o socializou; como pode “ressocializá-lo”? Tem alguma coisa muito errada com esse país.


Caio Lobo (Recife, 1979). Colunista da Philos, é formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Leitor compulsivo e romancista. Lançou recentemente o seu livro Trôpegos Visionários pela editora Kazuá.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “E agora, João?, por Caio Lobo

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