Kátia estava triste a passar roupa. Pensava na vida como que pisando em cacos de vidro, e obrigada a engolir em seco o choro de dor. Sua fome de vida estava lhe trazendo consequências desagradáveis, dolorosas. Mãe de três filhos; cada um de um relacionamento diferente; e grávida do quarto. Após várias aventuras amorosas, voltava a viver sob a hospitalidade da amiga Noêmia, que já a havia acolhido antes, na gravidez do primeiro filho, em sua casa, na rua Aguapeí, bairro Piam, em Belford Roxo. Kátia sempre fora muito afoita em tudo. Muitos homens, entre adolescentes, rapazes, e até mesmo alguns senhores casados de todas as cores, idades, pesos e alturas já haviam sentido, na pele do corpo inteiro, sua ânsia por prazer intenso em fugidas, pegações, ficadas, noitadas e orgias: entre uma batida de funk e uma roda de pagode; entre um copo de cerveja e um cálice de vinho; entre um e outro tapinha num cigarrinho de maconha. Mas, como tudo tem seu preço, quando o cuidado não faz parte da rotina de um ser-humano, ela agora está ali… sem trabalho, sem homem. Respirando o que não queria; comendo o que não queria; ouvindo o que não queria. Noêmia teve que fugir de casa aos dezessete anos, por causa da irmã mais velha, que queria rasgar seu rosto com gilete, invejosa de sua beleza. Mas conheceu um homem bom e remediado que se casou com ela, e lhe deu um nome, um lar e uma filha. Só que, em seu casamento, faltou o amor e uma pitada de paixão; e com isso Noêmia, numa bela tarde, se descobriu traída pelo marido. Revoltada, se separou, pondo-o para fora de casa. Então passou a aturar cobranças não só dos credores, já que o ex não lhe ajudava em um centavo, mas também do atual namorado que exigia uma relação mais séria; e da filha adolescente, que crescia exigindo a presença do pai dentro de casa. Tudo isso, além de criar o filho mais velho de Kátia. Kátia e Noêmia agora estavam ali, passando roupa naquela casa velha que precisa de uma reforma. Com o telhado quase caindo em suas cabeças.
Ouve-se um barulho de portão se abrindo; passos pela varanda. A porta se abre e, naquela sala quente, entra Verônica, comadre de Noêmia, acompanhada de seu jovem filho Marcelo, afilhado de Noêmia. O papo corre solto e animado até que Verônica fala da ex-cunhada Edilene. Outrora, Noêmia havia tomado conta de Miltinho, filho de Edilene, sobrinho de Verônica. – Hum! Essa aí se deu bem, minha filha! – dizia Verônica com sarcasmo e um pinguinho de inveja. com seis filhos. Cada um de um homem diferente. Botou todos na justiça, e hoje recebe pensão dos seis. Agora tá morando num casarão em Miguel Couto. A mordomia da nega é tanta que os filhos levam o café da manhã pra ela na cama. E você pensa que é café e pão com manteiga? Nada disso! É suco, frutas, queijo, presunto, geleia… tudo na bandeja. Ao ouvir aquilo, Noêmia deu um tapa no braço de Kátia que, da sala a outra, quase foi parar na cozinha. – Tá vendo Kátia? – perguntava a anfitriã numa fúria intolerante. – Tá vendo, sua fazedora de filho fracassada? Mulher que quer ser piranha tem que ser piranha esperta. Piranha burra fica é pastando pela casa dos outros, igual a você. Mulher burra tem mais é que tomar no c… pra deixar de ter o grelo no lugar do cérebro. Marcelo caiu na gargalhada, dada a teatralidade histrionicamente humilhadora do esbravejar da madrinha. Constrangida, Verônica começou a beliscar discretamente o filho para que parasse com as risadas. – Deixe-o rir, Verônica! – determinou Noêmia ao notar o embaraço da comadre. – Pode rir, Marcelo! Você está na minha casa. Ao perceber a lágrima invisível que rolava no rosto de Kátia, Marcelo cessou o riso e, sentindo-se culpado, quase despencou da gargalhada escrachadamente histérica para o choro desesperadoramente comovido. – Bom! Eu já vou – disse Verônica, levantando e puxando Marcelo pelo braço. – Foi só uma visitinha rápida.
Ao sair pelo portão, Verônica assumiu uma aura de tristeza e indignação repreensiva. – Noêmia não deveria tratar a moça dessa forma. – Disse ao filho, num monólogo inconsciente: ela se esquece de tudo que viveu. Ela se esquece de que tem uma filha mulher dentro de casa.
Verônica andava pela rua com o olhar parado; misteriosamente distante como o olhar sedutoramente longínquo de uma mulher do Oriente. Marcelo, olhando-a, parecia assistir ao filme invisível que passava diante das vistas austeramente melancólicas da mãe através de suas lembranças. De quando ela ajudou Noêmia a fugir da irmã. Nesse filme, a protagonista era a própria Verônica, e as cenas eram dolorosamente cults. Seu pai proibindo-a de continuar seus estudos, ainda menina, para ajudar a mãe a cuidar da casa e tomar conta dos irmãos menores, já que ela era a mais velha de todos. As madrugadas em claro, tendo que embalar o sono dos irmãos, e tendo que esquentar o leite, já que a mãe tinha que atender aos apelos grosseiramente amorosos do pai na fabricação de mais irmãozinhos. Os gritos dos irmãos e o roncar da cama dos pais eram a trilha sonora da infância daquela mulher, somada ao medo de dormir no meio da tarefa, e ser despertada por uma surra de moer os ossos.
Na pausa para o intervalo, em frente à banca de jornal, lê na capa de revista de celebridades sobre a famosa socialite da zona sul, que acordou numa luxuosíssima cobertura em Paris, ao som de uma orquestra de violinos, na manhã seguinte à noite em que dissera ao marido, um poderoso empresário, que estava grávida. Isso a remeteu a alguns anos atrás, num quartinho imundo e abafado do bairro Areia Brancos, quando o até então namorado, Joaquim, arremessou um punhado de dinheiro em sua face para que fizesse o aborto ao saber de sua gravidez; e ela, desobedecendo-o e tendo o filho, precisou abandonar o emprego de enfermeira, dois anos depois, para se dedicar integralmente ao pequeno Marcelo, mediante as ameaças de abandonar o lar, do já marido Joaquim. A capa da revista remeteu-a também à casa dos pais, de onde foi expulsa, aos bofetões, pelo pai que não queria uma filha mãe solteira dentro de casa. Ela teve de se abrigar na casa da amiga Agripina, também grávida; e que mais tarde seria a mãe de leite de Marcelo. É, se Eva soubesse que a conta que teria de pagar fosse tão alta, por ter dado o maldito fruto para Adão comer, teria ela comido a própria serpente assada!
Ao passar em frente à padaria, lembrou que tinha de comprar pão. Quando chegou ao guichê, uma voz, melancolicamente doce, chegou ao seu ouvido como o canto de um anjo: – Moça, compra uns doce pra me ajudá a dá de comer pros meus fio! É baratinho! Uma bela, mas suja, esfarrapada e maltrapilha jovem negra lhe oferecia uma caixa de bananadas. Duas crianças pequenas e um bebê ao colo choravam ensurdecedoramente de fome. Os olhos da jovem e das crianças, inchados pela violência, desamparo e desesperança eram vários punhais pontiagudos cravados no peito de Verônica.


Marcio Rufino (São João de Meriti, 1973). Escritor, poeta, ator e performer. É autor dos livros de poesia Doces Versos da paixão e Emaranhado, além do blog Emaranhado Rufiniano. Teve um de seus poemas selecionado para participar da exposição Poesia Agora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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