Não sei quem inventou esse sofisma de que fazer arte é super legal e faz bem para o coração. Não conheço nenhum terrorista que não seja ilegal ou viva em paz (artesãos às vezes chegam perto disso, mas logo atravessam a linha); e o que faz bem para o coração não prevê ansiedade, egos aflorados, cafeína (e tantas ‘inas’), maços de cigarros, dias de invernos prolongados, noites despertadas com uma caneta na mão. Afinal, mãos não dormem nunca e, na falta de papel o corpo é lousa que não vende em papelaria. O corpo é uma avenida suja que todo mundo adora deitar.
Os três piores ambientes que existem para reconhecer amigos são: bocas de fumo, cocktails de estreias ou lançamentos e reuniões de políticos. Nada que mexe com exaltação de beleza, economia, poder e estímulo à criatividade sem férias promete calmaria. Por isso mesmo Arte só vale se é ruptura, desobediência e potência, o resto é suborno rebelde.
Arte é para encontrar lirismo em rocha. Isso é trabalho de mestre de obra. Deve ser daí que vem a relação entre arte e obra – os escultores sempre me entendem com mais profundidade; gosto de artesãos e escultores, acho poetas chatos urgentes e coreógrafos pessoas ‘metidas à bestas’, com exceção dos que fazem ‘papel de arquitetos’. Já pintores são saudades do mundo imperfeito e atores só me encantam os destemidos. Haveria tanto a dizer sobre os palhaços e sei que sou um cineasta desempregado sem roteiro qualquer… Mas, sempre soube que erguer estéticas era trabalho de carpinteiro e pedreiro, bem como formigas são os bichos que melhor compreenderam a ideia de comunidade e trabalho coletivo.
Sim, bons pedreiros constroem o prelúdio de lares incríveis para que afeto tenha casa, coberta e cama. Tem alguns que conseguem bater uma laje no deserto e assistir a veia explodir​ se aproximando da artéria. É arte, ria! Nada de pular do prédio quando tudo estiver pronto e a plateia silenciar. Mas se o fizer cite Dostoiévski antes do voo. Deus é russo!


Paulo Emílio Azevêdo (Rio de Janeiro, 1975). Professor, Doutor pela PUC-Rio em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014). Seu mais recente livro, O amor não nasce em muros (2016), tem prefácio assinado pelo editor chefe da Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Mestre de obra, por Paulo Emílio Azevêdo

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