Novela das seis

Parte I
Estrangeiro (canção para amigo)

Enquanto tu me beijas,
Faz noite estrelada
no Japão.
Um Panda vê o aro lunar,
delicado mistério.

Tua pele branca,
pele de origami.
Papel amassado, dobrado no formato
de um Dragão sem fogo.

Mesmo com tanto zelo, amigo meu,
Tu quebras a porcelana mais delicada
Na esperança tola de proteção.

Enquanto tu me tocas,
Faz frio na América.
E tu dobras meu coração
e o transformas numa garça sem asas.

A quem eu pertenço?
Ao meu sortilégio sem sorte.
Coração amassado.

Tu és uma peça quebrada
tentando achar outra peça quebrada
Para formares uma peça inteira.
Vaso chinês, porcelana sagrada.

Faz noite estrelada no Japão
Dentro do escuro do meu corpo.
Frio na América,
Enquanto tu vais embora.

E tuas vigas de mármore
São vigas de papel, de tão frágeis.

Parte II
Monte de Vênus

Obrigado por tudo, querido amigo!
Pelo verão e tuas micro-ondas cintilantes
Que batem e voltam na lagoa de líquens.

E as espumas brancas, gozo de Vênus
Lembram-me tua pele branca e gozada.
Pele de mármore e pérola opaca.

Parte III
Todas as pessoas do mundo

Todas as pessoas do mundo, até mesmo as do Japão,
Correm no silêncio escuro e doce da madrugada,
E todos têm blusas floridas e cabelos longos.
Todos têm cheiro de rosas amassadas e pérolas brancas.
Todos têm orelhas com brincos de esmeraldas.
Mas nenhum deles, inclusive as do Japão, tem a ti.
Tu que encarnas o Cântico dos Cânticos,
Perguntando aos guardas da noite silenciosa
Onde eu estaria.
Mas perguntas de boca fechada,
Com a vergonha de ser silenciado.

Parte IV
Todos os amantes

Para aqueles que amam em silêncio,
feito espiões, feito dragões silenciados;
Para aqueles que amam sem pudor:
Com eles, estará sempre meu coração.

Para vocês que amam sem medo, sem receio,
Que florescem quando faz lua cheia,
E nesse desabrochar surge a esperança
Dos carnavais eternos e cheios de brilho.

Para ti, que gostas com medo:
O mundo não te perdoa, não te quer.
Deixa de medo, bota o corpo pela janela:
Vem que o mundo te espera!

Parte V ou Final
R. ou Trópico de Câncer

Motores dos carros, numa explosão controlada,
revelam tua vontade, teu despir.
Os motores guardam o calor de pequenas e grandes
explosões, controladas por uma carcaça de ferro.
São oito os tipos de motores,
Mas tu és apenas Um.
E esses motores da cidade, roncando, implorando,
Falam por ti, enquanto tu te calas e desabas.


Alexandre Manoel Fonseca (Minas Gerais, Brasil, 1993). Jornalista e mestre em Literatura brasileira.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Alexandre Manoel Fonseca

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