III Poesias

I. Teofania

A faixa plúmbea e morosa do
mar, levantada nas costas solares
de Apolo, desempoeirando
os primeiros dilúculos do ano,
frestando luzidios pelos portões
de Janus, arrastando as multidões
solavancadas de romagens,
as avenidas fartas;
[vêm do norte, do sul, desenfardando
malas e pesares sobre a mesa
da ceia, com os vinhos ainda
ebulindo a memória de algum
hálito ameno, o verão;

O coração das romãs interciso,
e o sangue repartido sobre a
rima das bocas; cessaram as mareias
em redemoinho, zurzindo as noites
como um mostrengo de algas verdes,
turbando a córnea luminosa dos faros,
turvando os espelhos;
[mergulham na preia-mar com
a cruz soçobrando, no exorcismo
dos mares, não há quem a erga,
devorada pela necrópole dos
séculos; só neste mês, duzentos,
só nesta hora, embrulhados
no sono das águas, ninguém
quererá saber, as águas de Noé;

Presbíteros prenhes de todos
os vícios no bojo viscoso,
transudam manjericão sobre
as crianças que vão plangendo
anamnéticas, João, Joana,
[qual o nome do
homem na escadaria da
capela, a esmiuçar com toda a
cólera dos incisivos famulentos
um naco salobro, furtado
aos cães; a lamber as gotas
baptismais de uma lasca de
cerveja, beatamente
como se
sorvera todo o rio Jordão,

Épide, Kýrie, épide…

II. Crux

Evira, evira, evira…

Um jardim de antenas, enramados
de postos eléctricos, mortos, um
nebrume acarvoado junto ao esqueleto
devoluto da estação militar, um
necrotáfio, oiço o rasar das asas mortais,
mais percucientes que a lâmina das
parcas, assim também
se esquartejou a morada dos
deuses, onde está a cariátide
perdida – sequestrada; de frente
o mar, preenche todos os espaços,
uma luz insolente; leva, leva, leva…
os barcos seguem, nunca param,
rumo à tapeação das ilhas, paquetes
lustrados com a moeda estrangeira,
ou os cargueiros saburrosos das
baías de fáliro, traineiras a regurgitar
cebos e moluscos –
[e banham-se ali, por entre chapas
de metal, famílias alodoadas em redes
de arrasto – o nosso barquinho
de retalhos, que é mil vezes
emendado, estamos sempre
a remendá-lo, mas tem
sempre buracos;

Perderam, até o porto emugrecido,
para os generais vacacionistas,
que resta; plainos baldos até
aos pés de uma oliveira, crescida
a golpes, – basta uma oliveira, uma
vide e um barco, para nos erguermos
de novo; os braços atravessados
como uma cruz, a que perdera
Ptolomeu, no silêncio abotoado e
absorto da noite, e encontrou
mais tarde João, com o pé empinado
sobre o meridiano; abraçados,
como uma cruz, aqueles amantes
sem nome, na aresta íngreme onde
finda o Imittos e se arredonda
a abóbada, e se derrubam os
murados, e se inventam,
nas cavidades misteriosas dos
olhos, novos os céus-
novas estrelas

inventemos

III. Spinalonga

Retinam as sinetas, retinam –
uma debandada, terá chegado o
circo, das tendas sáfaras e infecundas,
do golfo de Elounda, como se recortada
das cissuras subterrâneas do mar, é
uma cratera, uma marcha de crateras
humanas – vêm aí os, os enfermos,
estigmas em todas as vogais – e depois
deixaram de vir, habitantes de um satélite
morfético e forâneo, uma acidalia
planitia
, a terra erodida pelo sal, como um
braseiro de escamas; as escamas,
dos gomos do pessegueiro, não passará
os rigores deste inverno, e no entanto –
corria por aqui um rio, um rorejar de mil
lágrimas, queriam irrigar os caroços das
buganvílias; as crateras, as crateras argilosas
dos rostos, anidavam calotas de tristeza,
não dará flores esta primavera, mas amámos
e no outono, os frutos, caíram redondos,
sumosos;

Retinam as sinetas, retinam,
desde o largo de Creta, os barcos
arrepiados fazem a acostagem
desde as águas, sem pisar o soalho
quente, vão bordeando remotamente as
centenas – milhares, de cavernames,
que se amassam em precipício nas
enseadas, cravando as órbitas nos
curiosos do horror, uma ilha – uma
jaula orbicular, as órbitas cavadas, mas

com círios lá dentro, a alumiar
os estereoscópios improvisados, os
cinemas; nas azoteias abandonadas
dos muçulmanos, escutam-se modinhas
de barbeiro, riem-se esponsais das
janelas gretadas, as úlceras não nos
abocanham o brio, ainda somos
homens, o brio dos sudários brancos,
drapejando ao sol, ensaboados;
e uma capela exígua caiada de
pequenas fés, um ponto sobre
uma acidalia
planitia

 

e há crianças de rostos luminosos,
salubres como a água do mar, vivem
morrem, ninguém

as toca


Helena Barbagelata (Lisboa, Portugal, 1991). É licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Desenvolveu estudos de investigação em Língua, Pensamento e Cultura Helénica na Universidade Nacional e Capodistriana de Atenas. Colabora como autora e ilustradora em diversas publicações, destacando-se: Revista Subversa – Literatura Luso-Brasileira, Diversos Afins – Entre Caminhos e Palavras, e Mallarmargens – Poesia e Arte Contemporânea. Participa em antologias no espaço latino e tem sido agraciada em vários concursos internacionais. É curadora de Literatura lusófona e de artes visuais da Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Helena Barbagelata

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