Tinha muito que fazer naquele dia, mas pesava-lhe a cabeça. Possuía ainda um daqueles relógios digitais com alarme, e lembrava-se bem dele, ali, sobre o criado-mudo, ao lado esquerdo da casa, seu espaço. Abriu os olhos e agradou-lhe, de forma despercebida, ver que ali estava o tal relógio, bem como lhe ocorria na lembrança; mas, naquele momento, indicando as cinco e meia da manhã daquela terça-feira. Sabia bem que lhe restavam mais trinta minutos para dormir e descansar, mas o tormento de não ter à memória a lembrança do que tinha por fazer lhe incomodava. “Talvez a Sabrina, minha filha, possa me refrescar as ideias”. Mas não! Tereza era a sua filha. Ou melhor, talvez ambas fossem. Deixou-se a si mesmo assim, na confusão. E dormiu. Mas o alarme do relógio, diferente dele, lembrava-se de sua programação: despertou às seis, com grandes números reluzentes em alto e bom som, indicando na parte inferior de seu display a data, 23 de dezembro de 2014. Teve novamente aquela sensação de alegria perante o relógio, sem se recordar que há tão pouco já a tivera naquela manhã. Desativou o alarme, que incomodava na continuidade de seus bipes. Foi ao banho e ali se demorou. Sua idade lhe permitia essa morosidade sem dever explicações. E esse dia, tão curto, assim foi. Foi-se assim. Relógio e banho. Nada. Nada mais.
Tinha muito que fazer naquele dia, 24 de dezembro de 2014, quarta-feira. Precisava comprar os presentes para sua filha, Sabrina, e para seu neto, Juninho. Arrependia-se sempre por deixar essas coisas para a última hora, mas era assim que o Natal ganhava certa graça, com a correria e a incerteza de encontrar algo que agradasse cada membro da família. Família, então, pequena, bem sabia. Eram ele, a filha, o neto e o genro, Arthur. Sim, tinha também de comprar algo de bom gosto para o genro, bom rapaz! Era atencioso, paciente e trabalhador. A filha fora bem encaminhada, e isso lhe trazia boas sensações de paternidade cumprida. Foi à pequena cozinha, café já à mesa, 7:15: – Bom dia, minha filha!
– Oi, pai. Bom dia! Demorou no banho hoje, hein!?
– Ah, a água tava muito boa… e preciso estar bem desperto hoje. Vou ao shopping…
– Papai, eu já disse que não precisa comprar presentes! Todo ano você gasta muito dinheiro com isso. Não precisa! Vamos só fazer uma ceia bem gostosa hoje, depois assistimos ao filme que o Arthurzinho me pediu para alugar e…
– Filha, falando nele… posso levar o Juninho comigo? Este ano ele já pode escolher o presente!
– Papai!!!
– Ah, minha filha… na minha idade já não há muito que nos agrade. Mas a satisfação de agradar a quem amamos conforta…
– Ô, pai… tudo bem!… mas para de falar essas coisas, não quero chorar!…
O pai bem sabia que Sabrina ficava emotiva nessas datas. Caía-lhe com muito peso a saudade da mãe, morta há cinco anos. Instalara-se no peito daquela senhora a tristeza, e disso morreu. É difícil compreender o cérebro de gente idosa – são muito carregados. o que lhes dizer das almas?
Cansou-se do silêncio saudoso à mesa. O senhor de cabeça rala, então, gritou: – Juninho, meu neto! Coloque o seu boné, pois você vai comigo ao shopping! Cof! Este ano vou deixar você escolher seu presente. – virou-se para a filha – Vou aguardá-lo na portaria, peça que não se demore! Um beijo, filha. Nos vemos à tarde!
Beijou o rosto da filha e saiu. Juninho logo desceu. Afinal, era ele o motorista.
A ceia foi linda! Apenas as etiquetas nos presentes entregues pelo ancião é que eram estranhas, mas ele sempre fora divertido.
Tocaram os sinos, todos agradeceram pelo banquete, Jesus na manjedoura chorou e depois sorriu. Arthur, o genro, ébrio de cidra, cantava junto ao filho, também bêbado, todos os cânticos natalinos. Juninho, por sinal, havia ganhado um boné novo do avô. Na sala do apartamento, ficaram todos os quatro, e ali dormiram. Papai Noel, confuso que é, não lhes trouxe presentes, mas sim o passado.

Acordou assustado, com o lençol encharcado de urina. Aos berros, chamou pela mãe, já preparado para as broncas pelo incidente: – Mãããeee!!! Manhêêê!!! – gritava à espera de dona Hermínia, que viria com aquela cara amassada de sono, abriria com rapidez a porta do quarto e diria com a voz maternal rouca: “O que houve, meu filho?”.
Estranhou-lhe a moça que entrou aflita, logo pousando as mãos em seu rosto e dizendo: – Calma, papai!… calma!… foi um pesadelo. Ssshhh
Um rapaz, de seus vinte e poucos anos, e desenhos nos braços, ajudou-lhe no banho. Era cuidadoso e paciente. Talvez fosse seu pai, José. Mas o rosto não se familiarizava com a memória. Fosse o que fosse, sentiu por ele gratidão. Aquele mês de fevereiro vinha sendo confuso. O rapaz o encaminhou novamente à cama, cujos lençóis já haviam sido trocados e cujo colchão já havia sido virado pela boa moça. O rapaz o deitou na cama. Os dois se encararam por alguns segundos. A comoção nos olhos do jovem comoviam aquele senhor, mas ele não entendia tudo aquilo. O gentil e jovem homem tinha os olhos marejados, e quando uma lágrima fez-se por escorrer em seu rosto, secou-as com as costas das mãos e beijou a testa daquele senhor, dizendo:
– Volte a dormir, vovô! Foi só um susto. A caminha já está arrumada… já está tudo bem.
Sentimentos estranhos… emoções complexas. Doía-lhe o peito e a cabeça. Era mesmo melhor o sono!

Acordou bem disposto naquele dia. O relógio ao lado da cama lhe agradava. Era-lhe familiar! Marcava: 1º de maio de 2015. Ora, feriado nacional! Queria logo ir à cozinha, pois tinha muito a contar sobre o que sabia da história por detrás do dia do trabalho. Juninho, seu neto de dez anos – sabia ele -, adorava ouvir a sua sabedoria. A mãe do pequeno, sua filha Tereza, é que lhe parecia triste nos últimos dias. Mas o velho homem sabia também que ela logo se animaria. Afinal, ir à praia é um ótimo antidepressivo! Saíram de Sorocaba perto das nove da manhã, rumo ao Guarujá – lindo lugar, mas também perigoso! Estrada carregada, carros nunca antes vistos. Quatro horas de viagem. A sua sorte era que seu genro, Rodrigo, era muito responsável ao volante. Já na praia, não é que quase se afoga o senhorzinho?

Despertou às quatro da madrugada. Sabia disso, pois um relógio estranho ao lado esquerdo da cama lhe dizia. A escuridão da madrugada lhe trouxe a lembrança da morte da filha caçula, o que o atormentou e entristeceu. Pobre casal, ela e o marido – tão jovens! Triste acidente de carro no feriado de 1º de maio do ano de 2001. Terça-feira. Estavam retornando de Santa Catarina. Viagem de casal. Choque com outro carro cujo motorista estava bêbado. Detalhes… Saudoso, ao escuro dizia: “Que saudades de você, Tereza, minha filha!… Que Deus tenha reservado um bom lugar para você e seu marido, pobre Rodrigo!… ah, que dor me dói!!!”. Aos prantos, fez uma oração. E dormiu. Única noite realmente fria do mês de junho daquele ano.

Sábado. O mês era agosto. Tinha coisas por fazer, mas não se lembrava ao certo. As pernas também não obedeciam bem. Os braços preguiçosos. Mas sentia-se jovem. Algo, no entanto, lhe pesava na cabeça, um mal não tão comum aos jovens. Era como se a moral de sua própria história fosse amoral. Mas era jovem!… Iria à Capital com o Grupo Escolar. Sim, era isso! Dona Hermínia certamente havia preparado um lanchinho de pão e sardinha para ele e para os irmãos levarem na excursão a São Paulo dos trens de ferro. É tão bom sentir-se filho!

Dia dos pais. Era pobre e não podia dar presentes ao pai, José. Mas o bom José se agradava com os abraços dos sete filhos, quatro fortes meninos e três lindas princesas. Ele e os irmãos, portanto, dariam um forte abraço coletivo no pai. Mas aquele relógio reluzente dizia que eram ainda 2:15 da madrugada. Tudo muito estranho, mas o sono é sempre maior. “Já sei, escreverei uma carta para o papai” – pensou. “Sim, uma carta! E embaixo vou assinar: com todo o amor do mundo, para o melhor pai do universo, assinado…”, …, mas havia se esquecido do próprio nome. Dormiu. Ao menos, o ato de dormir não nos cobra lembranças. Compensam-lhes os sonhos.
Tantos esquecimentos!…
Dia dos pais, oito de agosto de 2015. Tinha muito que fazer naquele dia. E alguns presentes a ganhar de sua família. O relógio, que não tem memória, mas se lembra, despertou às seis. Porém o homem, idoso e já tão criança, de tantas lembranças que lhe pulsavam na mente, naquele dia, esqueceu-se de acordar.


David Edson de Camargo Junior (Votorantim, 1989). Professor e poeta publicado em diversas antologias e vencedor de prêmios literários da região de Sorocaba, São Paulo.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “O conto de um nostálgico, por David Junior

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