O costado; rocha preta e um tanto cinza em certas partes. O mar começa manso, liso e sólido; se aproxima, as ondas se erguem – prontas, sovam a face da pedra. A água sobe, os mariscos abrem as conchas e devoram qualquer coisa ínfima que flutua, ou vive, nas ondas.
Gosto do salgado da ostra, do marisco… Bando de berbigões, siris e peixes – os sabores do mar e do verão. Chega um barquinho, mais para canoa; lança a rede e a puxa. Volta carregado para a areia, é tarde para pescas; sol alto no céu – poucas nuvens; vapores esparsos.
As gaivotas observam abaixo, curiosas e esfomeadas, plainando nos ares quentes. Escolhemos, entre os frutos dos pescadores, o mais vivo e bonito; os frutos valentes e de olhos envidraçados – tarde, passando o sol e o dia, acompanham a cerveja e a gula dum tempo de moleza, de preguiça.
À beira da água, lambendo a praia, os calcanhares cavam – os dedos, as mãos das crianças. Conchinhas em montículos; colares imaginários, brincos… Apito! Bebida, sorvete gelado.
Ciciam; murmúrios… As pessoas, no lugar de onde vem o zumbido, levantam os corpos vermelhos, dourados; “Água, água”. Alguém se afoga, tombado pelas gostosas ondas; morte e sepultamento num mausoléu de mar quente de verão – que seja eterno!
Imperatriz; coroada nas praias de luz cegante e areias douradas – biquíni mínimo, mínimas gorduras. A coroa; óculos de sol. Cetro; garrafa de cerveja.
Porém, no horizonte, o sol – fraco, insustentável no topo do céu. Sol de inverno, baixo – roupas de frio; incômodas, pulguentas, emboloradas. Odores de naftalina.
Uma mulher perfumada – à naftalina.
Bota aos joelhos e, dentro, a meia, a calça e a ceroula – ridículo.
“Ceroula…” – mal iniciado o dia; suja. Suada dentro das roupas pesadas. Pés e pernas lambuçadas de suor.
Pior do que a sujeira; o frio.
“Verão, praia, calor, minha pele de papel torrando igual torresminho; vermelha… insolação” – queria a insolação, como a um príncipe na infância.

*

Horinha – sonhasse mais, perdia o ritmo e o horário.
Secretária… – carinha enjoada, bico vermelho “Falei que não usasse esse batom; impróprio demais…”, irritada. “Falta uma boa pi–”
– Elevador; demorado, né? Coisa velha…
– Ai… tenho medo de ficar presa. Qualquer dia subo pelas escadas!
Irritada – “Não comigo”; reclamando do elevador…
– Nosso chefe?
Revirou os olhos; entediada. Segunda-feira daquela rotina. Segunda e sexta; insuportável, atrasado, a que horas desce?
Apontou para cima – “Batom; e essas olheiras? Unhas roídas; ansiosa…”
– Não desceu? – resposta; balançado de cabeça.
Trancado numa sala de cima; na de reuniões, talvez no arquivo.
– Hoje não vou buscar; que fique por lá até Deus quiser… e você, sujeita, nem se mexa pra subir.
–Nem pensei nisso… elevador? Me livre!

*

Pensava; “Que há, será, naquelas salas do alto, para querer estar nelas sozinho?”
Abri as janelas; o ar gelado invadiu. Sônia gritou – uma praga –, mas resolvi; melhor esse ar do que a naftalina, o bolor e mofo de roupa guardada duas estações.
“No décimo andar, nessas épocas, o vento que entra corta o rosto, resseca os lábios. A água congela nas células e a pele enruga; abaixo, zanzando na praça, as formigas encapotadas devem sofrer…”
– A janela; fecha, pelo amor de Deus! Meu café, na xícara, esfria antes de beber!
Sônia esbravejou. Atendi; fechei a janela. Ela agradeceu cessando os bater de dentes; trouxe-me um café – meio frio.
– Viu? Fiz agora…
– Frio… que será que ele faz lá, Sônia?
Andava arrastando os pés, pesando a toneladas; curvava as costas, rumo aos sapatos; espremia os olhos, ora secos, ora lagrimejantes. Atravessa os “petit-pavé”; múmia de trinta, quarenta anos. “Escora no relógio da praça; mão espalmada na pedra. Hora de almoço e um amigo acena, próximo, convidando para uma “charla” na porta da livraria – baixa a cabeça, respira, segue rumo oposto. Direção às árvores e às fontes verdolengas, senta-se num banco, come um pastel; afasta-se. Vou, também, oposta – foge, não me quer; almoço e, num quanto qualquer de praça, com um chocolate evaporando calores, observo a estação triste.”
– Talvez, à tarde, melhore e apareça…
– Espera um tempinho; trinta minutos, uma hora. Leva um chocolate e uma fatia de bolo…
– Claro; comprei daquele que ele mais gosta…
“Uma praça quadrada e comprida; como é alto! Como as pessoas são pequenas de cima; o bonde, nos trilhos, sem barulho de ferro, bamboleando silencioso; distribuindo formiguinhas encapotadas.”
Sônia saiu; senti falta. Procurei-a na antessala e na copa; subira. Pedacinhos de chocolate picado na pia; migalhas de bolo e duas fatias, gorduchas, faltantes.
Afundara nos papéis – nas tabelas, nos cálculos e nas jurisprudências. Expirava uma canção, inventada na infância; ia afundando no caso, nas possibilidades, e abstraindo-me na realidade distante do cliente do patrão – celulósica, quase impalpável, além das letras e dos argumentos de defesa e de acusação.
– Triste isso que canta; não tem uma de alegria?
“Ecos do coração…”
– A que horas ele desce, Sônia?
– Meia, uma hora, talvez. Insisti; “Coma, não seja ingrato”! Da confeitaria que gosta; o café do jeito e da origem que gosta…
…Comeu forçado; ausente a gula. Estava vidrado; olhava através da vidraça, não abriu as abas da janela, mas atentava ao que acontece lá embaixo – perguntou se comi, também, um pedacinho;
– Não; sem vontade.
Sônia entrecerrou as pálpebras, deixou cair bobo os braços.
– Também; foge-me o apetite. É contágio?
– Troque sabores e confeitaria; talvez cresça desejo.
– Melhor; está melhor… Logo desce – assentou-se à sua mesa; breve, trouxe para si xícara e fatia. Admirava, apenas; nem nos pensamentos os tocava.

*

Chegaram e partiram, aos pares, ou solitários; clientes, advogados, contadores, contínuos. Espécies diversas de gentes. Estranhavam, às vezes, a ausência do Doutor; perguntavam e, muitas vezes, não se satisfaziam. Mas, minha letra, por procuração, valia tal como se fosse a dele – uns rabiscos e carimbos e encaminhava-os à rua.
O último, um aprendiz doutros escritórios, trouxe consigo uma encomenda – pedi que a mim entregasse e, a ele, para sua dispensa e garantia, assinaria o recibo. Disse-me “Não! ordenaram que entregasse em mãos”; era uma hora antes da metade do dia. Cedi-lhe a poltrona; “À vontade; se quer, espere” – talvez o conhecesse, algo me diz, sussurrando nos ouvidos. Penso tê-lo visto na casa de alguém; do próprio chefe do nosso escritório, encarregado nas obrigações do jardim, sob as ordens da esposa. Penso nele, podando arbustos, rastelando gramas.
O pacote; algo, recordação daquelas flores – a esposa, desquitada, envia uma lembrança; amarga a ela, às vezes doce a ele. Ou azeda a ambos. Perguntaria de qual dia, na casa, o conhecia; dormia, então. Sônia saíra; xícara e fatia intocadas. Saía, também, e vi que dormia inclinado, troncho, na poltrona.
– Volta depois –safanão para acordar –; sai almoçar, é meio-dia.
–Não! Mandaram ficar até entregar.

*

Tenho me alimentado de pouco; saladas espetadas com a ponta do garfo, roladas de borda a borda do prato. O apetite não abre – aperto as unhas das mãos; amarelão de anemia.
A vontade de comer fugia desde aqueles dias; mas, trouxe dois pratos. Sobrepostos, enrolados num pano, o calor que emanava umedecia o pano e o cheiro fazia salivar as bocas – não a minha.
– Sônia? – mesa vazia; não havia retornado.
À poltrona, estirado, fechado na mudez de quem descansa; dorme sossegado abraçado à encomenda que não pode entregar, exceto ao destinatário.
Rodopiei os pratos, segurando-os no nó do pano; despertá-lo com os odores de alhos e cebolas, salsinhas e manjericões – dormia e só. Ao menos roncar; não se mexia, nem se movia, que seja, para babar.
“Dorme assim, tão pesado; a fome não vexa” – e subi, tomando o elevador.
Passando pelas fileiras de arquivos e caixas, me identifiquei:
– A hora, ou meia, já passou; o endereço do escritório mudou? Veio cá pra esse andar? – estava à janela; luzes apagadas.
As sequências de estantes, caixas de arquivos do chão ao teto, impediam a luz natural – da janela o único faixo luminosidade, atravessando a crosta de pó dos vidros. E um odor, diferente do conteúdo dos meus pratos; sujeira. Suor, sebo; faltava-lhe um banho.
A mim, incrédulo, encarou. Havia um olhar de quem constatava que algo, longe de ser humano, diante de si se materializava. Senti que nele crescia algo, pálido; arrepios.
– Trouxe algo de comer; é hora de almoçar. Não vai descer?
– Que bom! Deixe aqui do lado! –juntou duas, três caixas de papelão que fez de mesinha–. Desço logo. O que é que me trouxe? – ao lado, noutra mesinha, a fatia da manhã, machucada por uma garfada mal dada; doutro ao lado, outra fatia, mofada; e outra, mal garfada.
– É… um pouco de tudo – ajoelhou e, diante das caixas, empenhou-se em abrir os pratos.
– Desça, já! Quero descansar. Afinal, é hora de almoço – as cebolas, os alhos; às baratas. Só uma garfada de enganar.
–Meia hora, ou uma? – confirmou, balançando a cabeça.

*

– Ele desce, dona? – vozinha fina; afinava.
Ouvi desde detrás da minha escrivaninha. Sônia balbuciava algo entre não e nunca e coçava os olhos; narigão úmido, escorrendo.
Chegava, abria as portas, esquentava a água para o café e descia comprar os desjejuns; primeira e última no escritório. Quando chegava, o patrão, Sônia exibia salas impecáveis; fartos pães, bolos e tortas – peito inflado, os seios se avolumavam, orgulhosos; “Bom dia, doutor, bem-vindo”! Desde duas horas antes, bom, o dia de Sônia começara.
A Dona, às vezes, aparecia – normal; após as nove. Pedia um favor, via o marido enfurnado detrás da escrivaninha; rubricava, assinava, peticionava. “Táxi, Sônia, por favor”! antes de sair, oferecia-lhe licor, taça de vinho, um bíter se precisasse de digestivo. Na surdina, imperceptível, invadia o escritório e acariciava os cabelos do marido; imperceptível, tudo.
As garrafas esvaziaram. Repostas; desapareceram – desistimos das garrafas. A Dona visitava, com menos frequência. Os táxis deixaram de nos visitar; esqueceram-nos – nem as buzinadinhas: “Oi, entra! pode deixar que essa corrida é pela amizade!” Desconheço, hoje, os taxistas da cidade.
“O Doutor, não sei, acho que está chegando antes de mim”; disse-me, certa vez. Sônia, concluiu depois que ele, talvez, sequer teria deixado o escritório. Tornou-se visita nas salas; no nosso andar.
– São quase dezoito –mostrei-lhe o meu relógio de pulso, presente de cinco anos de empresa–; acho que hoje não desce.
Suspirou; perdia a voz aos poucos. Antes, menino de voz grossa e formal; fingida. Agora; mais como um menino.
–Volto amanhã…
–Pode deixar o pacote, não vamos espiar; diga à dona Marcela – dei fé; beijei duas vezes os indicadores cruzados. Concordou; gostaria de deixar.
Partiu; fui à janela ver se podia identificá-lo no formigueiro da praça quando saísse do edifício – paravam; as formigas apontavam para a nossa face de janelas e continham as perninhas nervosas.
Silvado agudo, como das bombas nos filmes, e o baque que repercutiu e atraiu as formigas, curiosas; caíra sobre a banca de jornais. Vermelho; escorria do teto esmagado à calçada. Frio mais cortante que nunca. Longe; vinha a sirena a silvar também.


Fábio Maciel Pinto (Curitiba, 1984). É um quase escritor. O resto é desimportante.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “Pássaro de verão, por Fábio Maciel Pinto

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