Era noite, e não apenas isso. A lua tornava noite a noite. Seu vestido branco dava ao mar eterno a vida e os sabores. Sem aquela lua, a noite não seria nada mais do que um pouco de pó, imperceptível, em um canto da janela. Eu estava em uma festa, pelo que me lembro… Não posso dar essa certeza, porque não encontrei nenhum aniversariante. Uma pena? Não necessariamente! Mas, voltemos à história – da minha breve memória. Estava numa festa – e que bela festa! Era um castelo em forma de casa. O tamanho da sala correspondia ao de um estádio de futebol, os lustres pareciam planetas radiantes, bolas de fogo que esquentavam o ambiente e os meus olhos, tamanho era o calor emanado de seus corações. O mais engraçado é que eu não queria estar no meio da agitação. Logo quando cheguei, deparei-me com uma vontade avassaladora de seguir, como um vento cortante, no meio de todos, ao ter sido acertado em cheio por imensos quadros, encontrados no interior do vasto corredor que me inundava com a sua profundidade. Eis que fui. E, de repente, todos aqueles colares de pérolas, todos aqueles vestidos verdejantes, todos aqueles cachos, todos aqueles bigodes e todos aqueles charutos nada mais eram do que cores. As vozes nada mais eram do que um silêncio, e as belezas das faces mais afrutadas se tornaram enfeites de segundo plano. Onde é que parei? Ah, voltei! Enfim, fui sendo sugado. Cada quadro derramava sobre mim uma cachoeira transbordante, e assim fui descendo para o interior do “castelo”. Sim, aquilo que, a princípio, assemelhava-se a um castelo em termos de tamanho, no que diz respeito à modernidade, em seus interiores, assemelhava-se mais a uma mansão clássica. Era, na realidade ou em meu sonho, um castelo: ou talvez tenha se transformado – e foi o que agora eu posso afirmar com certeza o que aconteceu depois. Mas antes aconteceram outras coisas, e como não consigo guardar segredo, já resolvi contar um pouco do que aconteceu agora. Então, a questão é que, depois de ter descido todos aqueles degraus de pedra, sentei-me numa cadeira dourada, e veio uma pessoa ao meu encontro. Era uma dama generosa. Queria saber o que eu estava fazendo ali. Tive uma impressão estranha. Parecia que já a conhecia de algum lugar, e não estou dizendo isso por acontecer em muitas historinhas. Quem já não sentiu isso, que atire a primeira pedra… O fato é: eu sentia que ela queria me ajudar por algum motivo, e talvez eu esteja confundindo sensações e sentimentos. Estava então eu, ela e os monstruosos – porque eram gigantes – e magnificamente belos quadros.
O que ela me disse mesmo? Uhmm… Lembrei! Primeiro me perguntou o que estava fazendo ali. Disse que era por causa dos quadros, e que estava me sentido muito bem. Foi então que todo aquele cenário clássico definitivamente transformou-se num cenário medieval. Os quadros transformaram-se em pedras, os lustres sumiram. Antes eu estava no térreo e, do nada, fui parar no segundo andar do castelo, não sei se foi por causa do medo que me arrebatou ao escutar um cavaleiro, ou algo do gênero, dirigir a palavra a mim. E, quando olhei pra ele, percebi que era realmente comigo. Ele não falava minha língua, mas eu entendi a sua mensagem, não faço a mínima ideia como. Aliás, segundo diz uma teoria, existe uma linguagem da alma – ou então, pode ser mesmo a reação ao seu berro e a sua expressão que dizia: “É ele, o traidor, vamos pegá-lo!”. Foi assim que aquela sensação de que a moça queria me ajudar se profetizou. Se ela não me tirasse dali, certamente eu iria virar um frango assado ou picado. Só sei que ela me levou rapidamente para um esconderijo, e se foi. Todos lá fora gritavam, me procuravam feito tubarões, com fome por devorar-me. Depois de algumas horas, eles desistiram e sumiram, acredito. O cansaço da madrugada chegou, e acabei pegando no sono. Quando acordei, vi que havia duas pequenas janelas na parede. Levantei-me e fui diretamente ver o que eu iria ver. Então… O que é que vi? Prédios… Prédios dos tempos de hoje. O que posso concluir? Que, ou todo o tempo medieval havia ido embora, ou que estava entre a modernidade ou pós-modernidade ou, ou, ou, alguma coisa atual… E a época medieval. O que achei mais estranho é que havia pessoas protestando em suas sacadas. Estavam com faixas brancas. Parece que o protesto era porque todos os porteiros do mundo haviam entrado em greve. Era isso mesmo! Estava com vergonha de falar, devido à tamanha absurdidade, mas é a mais pura verdade! Deu a entender que o mundo inteiro protestava contra isso. Dormi de novo. Quando acordei, havia passado mais um dia, e já era tarde. Fui à janela de novo: e o que vi, o que vi? Uma sala de aula, à distância de um metro mais ou menos… Havia lá um professor que tinha me dado aulas tempos atrás e, por conta do meu grande interesse por suas aulas, fiquei – alegremente – tentando pescar suas palavras, bailando de tal forma, com uma profunda intensidade poética, dificultando a captura das esculturas. Nunca havia ouvido nada parecido, era como se fosse uma nova linguagem. Mas deu pra sentir o quanto o assunto era surpreendente. Porém, minha alegria durou pouco… O professor me viu, e olhou com uma cara do tipo: “não era para você estar escutando isso, você está invadindo um terreno proibido, e não lhe diz respeito!” E então ele fechou a janela… E dessa viagem despertei, não de um sonho sonhando lá, mas do sonho sonhado sonhando daqui.


Bharros de Oliveira (São Paulo, 1988). Poeta.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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