A manhã ensolarada era um grande convite a um feliz passeio. Os raios de sol, esparramados pelo céu azul e limpo, proporcionavam um calor carinhoso. Os ruídos matinais não incomodavam tanto como nos dias anteriores. Todos os aromas juntos tinham um cheiro macio de pão quente e café fresco. O dia parecia uma nova proposta, aliás, uma promessa de que tudo seria diferente. A diferença tocava suave a superfície que envolvia todas as coisas, rasgando de leve a capa surrada e opaca. O tempo escorria por dias iguais, dias que esperavam ardentemente a diferença, ainda que não-muda, mas tremendamente silenciosa. O grito estridente das buzinas misturava-se ao ritmo, aparentemente ensaiado, dos passos dos pedestres. Esses sons aconteciam de modo a simular uma canção urbana meio seca, um pouco dura e quase harmônica.
O sol estava firme, seus raios eram braços delicadamente estendidos, prontos a abraçar o asfalto duro.
Ela respirava com calma, sorvendo o ar em pequenos goles, sentindo o gosto amargo que saía dos carburadores quentes.
Os olhinhos brilhantes piscavam atentos a tudo, imersos no nada. Captavam as pernas, indo e vindo, em uma onda chata e enjoativa. Via a distância escondida ao longe, pelo azul do horizonte. Talvez seu horizonte fosse mais baixo. A língua estava levemente umedecida, tremendo suavemente, fazendo cócegas no céu da boca. Céu fundo, céu mole. Era uma existência tão simples.
Em dias como aquele, olhar para o chão era uma heresia. Bonito mesmo era o céu. Ela estava parada, face voltada para cima, olhos imóveis. Respiração tão despreocupada que apenas se ocupava com o olhar. Fazia dias que ela não se sentia daquele modo. Normalmente sua rotina era agitada, repleta de planos cumpridos pela metade, interrompidos, trocados por outros. Interromper seus planos não era proposital, mas era rotineiro. As circunstâncias da sua existência faziam com que ela substituísse a todos, um a um. Acontecia o mesmo com seus sonhos. Ficavam velhos e precisavam ser renovados. Talvez ela não fosse paciente. A espera parecia a longa ânsia pelo nunca. Esperar que os sonhos se concretizassem não estava em seus planos, ela só queria desejá-los tanto, até que ficassem velhos e precisassem ser substituídos. Era assim que se sentia viva: desejando.
Ela era feliz, estranhamente feliz, em uma vida tão anônima e com momentos tão difíceis. Quando pensava na solidão, ela sabia que seria feliz, por isso não se desesperava e nem se agitava com a possibilidade de continuar assim. Era uma solidão acompanhada, afinal estava sempre em multidão.
Em um dia tão simples, comum e agradável, mais uma vez a mudança inevitável chegou. Estava parada, no meio do asfalto e não pôde se livrar dos pneus pesados e brutos, que esmagaram seus ossos. De repente, todos os planos, sonhos e alegria daquela manhã estavam estendidos em um frágil corpo de pomba agonizando no asfalto. O bico se abria e fechava, ensaiando um grito impossível de se realizar, pois ela já não tinha forças. Era agora uma massa de carne, sangue e ossos quebrados debatendo-se no asfalto. As outras apenas bateram asas e saíram do chão. Por algum motivo torpe, ela continuou, e agora sentia o nada se aproximar.
Através de seus frágeis olhos percebia o carro seguindo incólume. O asfalto era quente. Tudo ao redor era indiferente ao adeus que ela construía ao seu redor. Suas últimas visões, suas últimas sensações, tudo resumido a um diminuto momento. As asas brancas com manchas amarronzadas jamais alçariam voo novamente, sequer se moviam. Não havia mais domínio algum sobre elas. Os longos passeios, de telhado em telhado, sob o calor carinhoso dos raios solares, acabaram, e ela era ainda tão jovem, tão feliz, tão pronta para a vida.


Rândyna da Cunha (Brasília, 1983). Graduada em Letras e Direito pela Universidade Católica de Brasília. Colunista na página “A Soma de Todos os Afetos”. Tem contos publicados em revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Frágil corpo de pomba, por Rândyna da Cunha

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