Resistência

Te amar é meu ato de resistência
Quando todo dia ao seu lado é um ato de revolução
Quando só de te abraçar na rua já nos obrigam a ouvir sermão
Quando vêm esses machos sem vivência
Querendo arrumar conversa,
Meu bem, me livra dessa tua carência!
Eles tiram foto da gente, mas não batem de frente
Se fazem de macho, dizem que nos fazem mulher
Mas, quando se vai ver, nem de mulher gostam, eu acho
Vangloriam tanto os ôme, batem na filha, na mulher
Mas na hora que tão cara a cara é que a porrada come
São covardes, quando alguém do seu porte pede um debate:
Falam manso, nem levantam a mão.
E é nessas horas que a gente vê quem é machão
É nessas horas que eles abaixam a cabeça pros ôme
Papai e mamãe tão lá pra não deixar morrer de fome
Pra não passar a noite na prisão
Chamam de modismo, vitimismo, sapatão
Acham que ofendem? Eu não quero apanhar por moda
Não fui obrigada a sair de casa porque queria ser popular
Ter que arrumar emprego cedo, ter que trabalhar e me sustentar
Não quis viver diariamente numa intensa pressão
Enquanto meu pai me bate, minha mãe me estende a mão
Fazendo pose de quem me ajuda, aí ela me afronta, me chantageia
Faz tudo por mim, quer me ver feliz, mas que eu não ouse
“Imagina filha minha sapatão,
se agarrando com as menina no busão
os vizinho tudo comentando
a família se afastando
dizendo que eu criei mal
dei liberdade demais
devia ter falado mais de pau”.
Saio na rua e sou chamada de vítima
quando um cara me vê com a minha namorada
e vem me passar a mão “vai fazer o q? correr?”
Ou quando a gente tá num bar, num restaurante,
Num cinema, lanchonete, num stand
“dá pra vocês não fazerem isso aqui?”
“mas vocês precisam ficar dando a mão?”
Os traumas de ser atingida pela hipocrisia da população
Que a gente tem que sentar no fundo do restaurante
Pra não ser reconhecida
Que nosso amor tem que ser secreto, sem pinta
Porque na primeira deixa é uma capa de revista
É uma confusão
Os pais dela chegando falando baixo “vai pro carro”
Ela soltando dolorosamente a minha mão
E depois aparecendo cheia de dor,
Sem palavras pra descrever
Em silêncio, nem sei o que fazer
Somente espero, abraço fraco, seguro sua mão
E hoje a gente luta todo dia
Uma luta confundida com rebeldia
Uma luta taxada de teimosia
Será que vale essa situação?
Vale, porque enquanto a gente luta pela gente
A gente luta por toda uma nação
Que busca a mesma felicidade
Que tem o mesmo medo de apanhar pela cidade
Que, quando olham feio, solta a mão
Finge que é amiga, dá o braço
Parece festa junina, um cansaço
Que moda nenhuma pode obrigar
Que preconceito nenhum sabe descrever
Só a revolução faz a gente sentir
E só o nosso amor nos permite sobreviver.


Hozana Bidart (Rio de Janeiro, 1997). Encontra na poesia uma forma de desconstrução: da LGBTfobia, do machismo, do racismo, de preconceitos sociais e culturais e, acima de tudo, luta pela sua ideologia de que a poesia nasceu para ser acessível a todos, como uma espécie de voz e alento, sem perder uma delicadeza poética única.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Hozana Bidart

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