Aquele era o dia perfeito para ela reagir, já que tantas vezes não havia tido tino para outros assuntos que não fossem relacionados à casa. Agora estava diante de uma oportunidade, ia receber visita. Logo ela que sofria tanto porque era sozinha, não sabia o que fazer de si e da sua solidão, imaginava-se ganhando uma amiga. Talvez futura cúmplice. Como se é quando se tem amigos? Nunca o soube. O que a gente faz após o chá? Jogam-se cartas, assiste-se a um filme ou joga-se um inocente dominó? A resposta era um fiapo de tecido preto na roupa preta. O exercício de lavar pratarias e deixá-las como espelhos d’água dava ao metal outra luz que não a iluminava nessa hora, era um brilho que não respondia a nada, apenas a confundia como a opacidade da pergunta. Ela era fanática anfitriã, dessas que fazem o próprio sabão e trazem os panos da cozinha asseados como roupa de baixo. A casa imitava direitinho o jeito dela e a expurgação dos antigos palácios. Era organizada como uma sinfônica. Os móveis negros e obedientes ficavam tão serenos enfileirados na sala que mais pareciam tocar o chão polido com perícia, na ponta dos pés. O único quarto trazia uma tela abstrata enorme, que ela mesma pintara num de seus rompantes de artista. A cama arrumada esperava pela hora da rendição de seu corpo miúdo. Os objetos da cabeceira ignoravam a soberba dos frascos de perfumes que se mantinham apáticos em cima da cômoda. A cozinha denunciava sem culpa sua solidão. Tão reduzida, escondia-se entre dois cômodos. Como um abismo entre duas montanhas. Talvez a visitasse mesmo só na hora da grande fome. Estendia-se um corredor cheio de fotografias ao longo de suas paredes e, no final, encontrava-se uma espécie de altar, onde se via o Cristo mutilado e outros santos cujos milagres se podia duvidar, pois eram de médio porte, ficando quase todos sumidos diante da grandeza da cruz do Salvador. Tão logo a visita entrou, a anfitriã perdeu a voz.
O fato de a visita ter comparecido a chocara, estava sendo engolida pela ansiedade de não saber o que vinha primeiro. O beijo de boas-vindas, o chá ou o jogo. Passeou pelas três possibilidades desordenadas, embaraçando-se um pouco. O beijo agora ou depois não faz muita diferença, pensou, também não posso beijá-la a todo instante. Se a convido para tomar um chá agora, ela pode recusar dizendo que acabou de tomar um no caminho. O jogo também não, pode soar como imposição. Não quero fazer papel de chata. Sentaram-se, entreolhando-se um pouco, como se no calor da expectativa uma delas fosse arranjar coragem para se adiantar numa palavra ou num gesto. A anfitriã enguiçara, seus olhos perderam o foco, procuravam vestígios, ela estava colhendo cada resíduo da sombra da outra para poder enfim se restabelecer e voltar de novo a ser uma pessoa. Em vão, cada tentativa era um passo na enchente, que começou a transbordar, alagando o sorriso da convidada. A água invadindo o palácio, ela inundada até o meio das pernas, e a outra esperando. A enxurrada trazia à tona a sujeira que ela não conseguia sugar com seu olho-aspirador. Estava se afogando no próprio vício de querer ser limpa. Era inverno, e a mulher em meio ao dilúvio, tentando separar o que podia salvar. O destino todo ultrapassando o limite, derramando água suja no futuro da outra. O futuro era o baque, as mãos tateando a resposta, o rosto comprimido à espera do tapa, a porta aberta e, a essa altura, a água não era mais sinal de pureza. Pouco a pouco, se foi estabelecendo a ordem, a tarde voltava com esforço a seu início, a rua descoberta retomava seu ritmo, o vento dava uma trégua. Na casa, somente o silêncio… Era o gênese… A outra chance da anfitriã. A convidada, refugiada na sala, parecia rir-se toda ao folhear uma revista, enquanto a dona da casa, entre a montanha e o abismo, riscava o fósforo, certa de que serviria o café.


Ester Chaves (Brasília, 1979). Escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho deste ano, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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