Sentei-me no muro do mirante do Jacintinho e fiquei vendo os prédios da cidade baixa enquanto fumava um hollywood. Ao meu redor, casais transavam, maconheiros fumavam, bêbados bebiam. De não longe dali, era possível ouvir o batuque do terreiro da Mãe Selma servindo de fundo musical naquela noite de sexta-feira treze. Olhei o celular, passava das três da madrugada, não tinha ligação perdida ou mensagem recebida. Mesmo cercado por casais de namorados, drogados e bêbados, eu me sentia sozinho. Pensei em pedir um táxi e voltar pra casa, mas, após contar os trocados que havia no bolso, me desfiz da ideia e resolvi esperar o primeiro ônibus do dia. O céu estava limpo, sem nuvens, lua e estrelas. Por ser tão tarde, quero acreditar que todas dormiam.
As horas passavam sem pressa e eu fumava um cigarro após o outro. Em certo momento, enquanto acendia mais um cigarro, lembrei claramente da sua voz me dizendo que eu morreria cinza se não parasse. Não era uma cor ruim para um morto. O mirante não esvaziava, os casais se multiplicavam, os maconheiros se acumulavam em círculos, os bêbados saíam e, em seguida, voltavam com mais bebidas. O Jacintinho era naquela noite o que o Jaraguá, com seus prédios históricos e boêmios cults, tentava ser. Eu estava frustrado, aquele era o meu tipo de cenário. Eu amava aquele caos organizado, amava aquela gente que transava encostada nos muros, amava os maconheiros que sorriam de tudo, amava os bêbados que ouviam o batuque pra Iemanjá e cantavam Amado Batista, eu amava a vista dos prédios com pequenos pontos acesos, amava aquela vida, mas, naquela noite, naquela fatídica noite, eu amava bem mais a ideia de me atirar mirante abaixo. Quase cinco horas da manhã, e a carteira de hollywood estava vazia. Catei nos bolsos algum cigarro ou ponta de cigarro e não encontrei nada. Agora estava olhando o chão, procurando, entre os pés e calcinhas abaixadas, um cigarro que me distraísse os pensamentos. Nada! Parei, respirei fundo, me recompus, e concluí que deveria parar de fumar, deveria cuidar mais da saúde, deveria preservar uma cor alegre para quando morresse. Enquanto pensava isso, uma mão se estendeu na minha frente, segurando um charuto. Pai Antônio, vestindo branco e cheirando à cachaça, me salvava dos pensamentos mais caretas que tive nos últimos anos. Agora, fumando um charuto do santo, estava finalmente em paz com meus pensamentos. O ônibus apareceu exatamente quando o charuto acabara. Subi os degraus do ônibus me despedindo do Pai, do mirante, dos casais cansados, dos maconheiros felizes, dos bêbados tristes, de uma parte minha e sua, de uma parte nossa que, em outros tempos, transava nos muros olhando os pequenos pontos acesos na cidade baixa.


Francisco Carvalho (Maceió, 1988). Escritor, contista e poeta; é professor de História nas horas vagas.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Pequenos pontos acesos, por Francisco Carvalho

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