Já era meio dia quando Aquiles resolveu ir ao banco. Como era meado de mês, com certeza, não iria encontrá-lo cheio. Ao andar até o centro de Belford Roxo, a pé, sentia que o tempo era de um nublado opressor. O sol era um espectro agonizante por trás das cortinas de nuvens com suas nervuras negras e cinzas. Havia chovido dias antes, mas parecia que a chuva aumentava ainda mais o calor. Ao chegar ao caixa-eletrônico, sacou tudo que tinha: dez reais. Daria para caminhar até o bairro de Areia Branca onde morava, e comprar uma quentinha de cinco reais para almoçar – e ainda sobraria. A mãe havia morrido fazia quatro anos; o pai contraíra novas núpcias fazia dois; a irmã havia se casado fazia um e meio. Ficou então ele sozinho naquela casa de dois andares. Não, a solidão não lhe doía, pelo menos por enquanto, pois tinha a companhia de seus livros, de seus cds, de seus sonhos e da angústia de quem já passara dos quarenta e ainda não se dera conta disso. Foi quando, de repente, se viu diante de uma galeria onde havia uma charmosa bombonière. Lembrou de quando assistira ao filme “A Fantástica Fábrica de Chocolates” na televisão e sentira falta do tempo em que acreditava em Universos Paralelos; do tempo em que esses Universos eram apenas doces; ou melhor, de quando achava que só o doce era interessante. Do tempo em que não havia descoberto que o salgado e o azedo podiam ser muito instigantes. Ou melhor, sentiu saudade do tempo em que ainda não havia descoberto o instigante que era o tempo da inocência. Já dentro da bombonière, observou os vários sabores, quando deparou com um que o surpreendeu: goiaba com café. Ao lê-lo na embalagem, a primeira imagem que veio à mente de Aquiles foi a da goiabeira do quintal da casa de sua avó paterna; como gostava de subir nela com os primos e coleguinhas de infância! Gostava mais das goiabas brancas. Comia-as com casca, caroço e tudo. Lembrou-se do dó que sentira ao ver a goiabeira ser arrancada para construírem a meia-água que iriam alugar, e ser vendida após a morte da avó. Achou tudo muito esquisito. Como poderia haver essa mistura? Tanto a goiaba quanto o café lhe acolhiam bem nas lembranças de infância. O café era o primeiro cheiro que sentia; tirado do fogo do fogão; quentinho, direto para o coador de pano, antes de ir para escola. Sua mãe sempre o servia forte. Preto e forte. Comprou apenas um bombom. E, apesar de não conseguir encontrar nenhuma conexão gustativa pela sinapse dos sentidos e da memória que lhe causasse uma sensação de prazer ou de asco, desembrulhou e mordeu o bombom. Ao mordê-lo, a primeira sensação que teve, de ter uma floresta negra preenchendo sua boca e seu estômago, deu-lhe a impressão de que nunca sentiria fome na vida. Logo depois, o sabor frio da calda de goiaba com café e sua simplicidade dúbia o transportou como uma máquina do tempo comestível para dentro de si mesmo. Era incrível como o estranho sabor do recheio do bombom lhe despertava lembranças marcantes, intensas, dolorosas, surpreendentes. Viu a primeira imagem que o excitou na vida quando tinha doze anos. Era a de uma capa de revista erótica, exposta em uma banca de jornal: um jovem beijava uma bunda branca, lisa, tenra, macia. Saiu apertando o passo pela Rua Benjamin Pinto Dias. Mordeu novamente o bombom e, desta vez, a floresta negra veio seguida da dificuldade de se entender o mundo na infância. Era negro, gordinho e desajeitado. Os pais, com muito sacrifício, matricularam-no numa escola particular. O pai era um bancário; a mãe, uma ex-enfermeira que abdicara da profissão para cuidar melhor dele. Na escola, os meninos brancos maiores, duas turmas mais adiantados achincalhavam-no, e, quando ele finalmente reagia, o inspetor que até então assistia a tudo imóvel, fazia questão de botá-lo de castigo em pé durante horas embaixo do sol quente. O bombom lhe descia seco na garganta e a calda de goiaba com café descia-lhe fria e indiferente entre os dentes até a gengiva. Estava atravessando a rua da padaria quando deu a terceira mordida. Lembrou-se dos treze anos; de sua mãe espancando-o com o salto fino do tamanco, abrindo-lhe um enorme galo na testa, gritando enlouquecida que se ele fosse veado o mataria e depois se mataria. Lembrou-se da primeira vez que se masturbou na vida pensando no galã da novela das oito. A quarta mordida lhe trouxe a primeira cantada que recebeu do vizinho solteirão aos 18 anos e, apesar do desejo ser recíproco, a fuga na certeza de que aquele desejo era passageiro e logo ele seria um homem “normal” como qualquer outro. A quarta mordida veio com a primeira transa, na última fileira da poltrona de um ônibus de excursão, com um colega de trabalho, na volta de um passeio de sábado, nas montanhas, e a sensação de a ficha estar caindo e não ter mais para aonde correr. Já estava no centro de Areia Branca, quando deu a penúltima mordida e se lembrou de quando falou de sua intimidade com sua mãe depois de tantas cobranças e interrogações. De um caindo chorando para um lado e o outro caindo chorando para o outro. Nesse momento, o sol se abria e, com ele, a chuva caía; e Aquiles, diante da pensão, pegava a sacola de quentinha. Quando chegou à esquina de sua casa, olhou para o horizonte, e um enorme arco-íris se exibia imponente por trás da escola que ficava no outro lado da rua; com a chuva metralhando seus óculos. Foi quando deu com o derradeiro pedaço de bombom à boca: e com ele veio a lembrança de quando se entregou finalmente ao vizinho solteirão vinte anos depois da primeira cantada, e do momento em que faziam amor enquanto ele sussurrava em seu ouvido o quanto o desejava desde quando era menino. O ar agora estava fresco, e Aquiles, já na calçada de casa, lambia o que restava do bombom na embalagem. Jogou-a na poça d’água e olhou para trás, vendo o papel do bombom de goiaba com café navegando rumo ao bueiro; como um barquinho que levava em sua embarcação todas aquelas lembranças para o precipício. Quando abriu a porta da sala, admirou a sujeira e a bagunça; e falou para si mesmo com a sacola de quentinha na mão: – Hoje essa casa não escapa de uma boa faxina!


Marcio Rufino (São João de Meriti, 1973). É ator, escritor, performer e educador. Autor dos livros de poesia Doces Versos da Paixão e Emaranhado, além do blog Emaranhado Rufiniano. Já participou de alguns movimentos literários e um de seus poemas foi selecionado para participar da exposição Poesia Agora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Aquiles e o estranho bombom, por Marcio Rufino

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