Por séculos e séculos, cinco animais domesticáveis se mantêm no topo do pensamento, da afetividade e nos provérbios. A Bíblia contribuiu com o Bezerro de Ouro, em forma de idolatria. O fabulista Esopo, no século 7 a.C, criou a Galinha dos Ovos de Ouro. Tempos depois, século 2 d.C, o argelino Lúcio Apuleio escreveu a sátira O Asno de Ouro.
Faz de conta que o gato engoliu a grande estátua dourada do pássaro lendário e japonês Karura, a versão Garuda da lenda hindu. O cão comeu dois pomos de ouro da mitologia grega e usa um terceiro como coroa. Em nota à imprensa, mitos gregos informaram que os pomos roubados são banhados a ouro. Bijus. Disseram ainda que o lendário Grifo, que botava ovos de ouro em ninho de ouro, não faz parte dessa historinha de vaidades. Com cabeça e asas de águia em um corpo de leão, Grifo repudia esses cinco domesticáveis.
Muitos animais têm repudiado uma pesquisa jornalística com 2.200 provérbios e expressões populares com citação animal. Abrangendo mais de 50 países, entre os 130 bichos registrados apenas cinco respondem por 45% do total de termos. É muito! Os equinos – cavalo, égua, burro, mula, asno – estão em 300 frases; 15% desse acervo linguístico. É uma afronta a 50 animais que aparecem em uma só frase. A girafa nem aparece.
Em 2º lugar, com 170 frases feitas, bovinos alegam fraude na pesquisa. Há séculos eles fazem muuuu pelo mundo. No início de 1700, quando a população brasileira tinha 300 mil pessoas, três milhões de cabeças de gado já pastavam pelo País, conforme pesquisa do historiador José Augusto Pádua, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ.
O sociólogo Gilberto Freyre registrou que o boi e o cavalo fazem parte da formação do imaginário do folclore brasileiro. Dom Pedro II criou o primeiro selo postal do Brasil, que é o segundo selo do mundo: O Olho de Boi. Depois vieram o Olho de Cabra e o colorido Olho Gato.
Irritado na 3ª posição, cães exigem ditos populares em regiões geladas, onde eles puxam trenó, são caçadores, vigias, bicho de estimação e se tornam alimento dos nativos, se faltar comida. De olho no 2º lugar, o engolidor de bijuterias de pomos critica a ausência do boi no conto Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm. Nessa alegoria política, o burro representa os trabalhadores rurais; a galinha é uma alusão à classe operária; o cachorro fugiu dos militares; a gata busca a liberdade artística.
Por falar em artista, gatos esnobam a participação do cão e do cavalo nas pinturas Os quatro estágios da Crueldade, de , em 1751. A quinta crueldade seria gatos lançados na fogueira, como as bruxas. “Ainda bem que o tio Charles Perraut escreveu o Gato de Botas, em 1697”, disse o galo, que foi interrompido pelo galo, orgulhoso de ser o terceiro mascote no futebol brasileiro, atrás do leão.
“E eu? E eu? E eu???”, ruge o leão, um dos destaques no Livro das Bestas, da Idade Média. Como ele foi parar na 13º posição dessa pesquisa? O primeiro selvagem, o lobo, aparece em 8ª lugar, à frente do Porco (5º) e Ovelha (6º). A Cobra, em 9º, se distanciou do 1º lugar entre, entre 60 animais mais presentes na astrologia e tarô. Fica ainda distante se a pesquisa considerar duas categorias genéricas, em que as espécies não são citadas. São os pássaros e peixes, abaixo da pontuação do gato.
Essa preferência quase mundial pelos equídeos, bovinos, cães, galinhas e gatos torna cada um deles uma mina de ouro para os humanos. No poema Provérbios do Inferno, o autor inglês William Blake critica os domesticáveis, o pensamento cristão, sugere uma Nova Bíblia ou a Anti-Bíblia. No Inferno, os selvagens estão posicionados acima dos domesticáveis, com a justificativa: “Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.”


Sílvio Reis (Minas Gerais, Brasil). É graduado em Jornalismo há 30 anos, com atuação diversificada na área. Atualmente escreve para alguns veículos de comunicação e no blog www.vitorioregio.com

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

2 replies on “Cavalos da educação, tigres da ira, por Sílvio Reis

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