Aff! Estou esperando há dias. Não! Meses. Deixe-me ver! Fomos comprados em novembro, agora é março… Aff! Muito tempo! O homem achou uma ideia ótima: “um quebra-cabeça do Taj Mahal”. Ok. Mas com 3000 peças? O idiota achou mesmo que ele, a mulher e o melequento do filho iam conseguir montar o Taj Mahal em pouco tempo? Enquanto estávamos na caixa, estava tudo uma bagunça, um por cima do outro, mas era divertido, éramos um bolão de peças. A primeira coisa que o imbecil fez foi nos separar por cores – ele disse ao filho que seria mais fácil assim. O garoto, claro, não estava nem um pouco interessado. Gordinho, está sempre comendo algo e vem pegar na gente com aquelas mãos sujas. Argh! sempre ficamos manchados e sujos. A mulher vem, reclama, dá uma esfregada e nos limpa. Depois suspira com cara de “pra que essa coisa?”. Mas o homem gosta. Empolga-se quando tenta nos unir. Se bem que, cada dia que passa, ele tenta menos. Antigamente, chegava do trabalho, corria pra mesa onde estamos acampados e ficava horas, separando, juntando. Agora, vem com menos frequência, e mais nos fins de semana. Também desistiu de ficar chamando o melequento (ainda bem), que sempre aparecia com cara de enjoo. Eu sou uma peça do prédio, sou branca acinzentada. Posso ser de qualquer lugar do monumento. Bom, pelo menos sei que não sou do jardim ou do lago. Essas já estão bem adiantadas na montagem. Mas o prédio, admito, é difícil mesmo. Eu, por exemplo, tenho cinco pontas ordinárias, quase como se eu fosse um ser humano, cabeça, braços e pernas. Gosto de pensar assim. Mas posso ficar de lado, de cabeça para baixo. Eu não tenho certeza. Não me lembro do dia em que nasci/me recortaram na fábrica. Estou aqui, junto a outras peças semelhantes. É bem verdade que, de vez em quando, o dono mexe em mim. Já tentou me encaixar na esquerda, já tentou me encaixar na direita, e nada! Na incapacidade do meu dono em me encaixar, às vezes, sou jogada de lado. Um dia, o melequento tentou me cortar para ver se eu me encaixava, mas o pai não deixou e disse que aquilo era fraude. O menino não sabia o que era fraude. Além disso, quando a gente encaixa alguma coisa por meio de fraude, as outras peças não encaixam também. A não ser que cortassem as outras também, mas ainda assim, alguma coisa ia acabar ficando torta. Acho que das três mil peças, já estão no lugar, dividias em três blocos, umas setecentas. Mas o idiota mor não desiste. Ainda bem, porque esse é meu trabalho!

Estamos em maio, faz um mês que ninguém chega perto da gente. Estou achando que vamos ser todos unidos na caixa de novo. Isso é uma coisa boa.

Felicidade de peça dura pouco. Hoje meu dono voltou a mexer na gente. Cara fechada e decidida. Tenho de reconhecer, estava fazendo um bom trabalho, encaixando um pedaço enorme, dois dos três blocos que havia feito. Acho que dessa vez eu entro. Não entrei. O melequento voltou e perguntou “ainda nisso?”, o pai não respondeu.

Bom, agora já tem quase um ano que estou aqui. Faltam poucas peças, mas ninguém vem aqui com frequência. Hoje ouvi que são férias do homem e ele pretende ficar aqui conosco.

O homem passou dias aqui conosco. Manipulou-me para todos os lados, mas é como se eu não quisesse me encaixar. Todas as peças foram se encaixando. Fui ficando cada vez mais tensa. Acreditei que era uma das peças de cima. Fiquei feliz. Ele também acreditou. Forçava-me em qualquer espaço, mas não dava. Voltava para as outras e elas iam uma a uma entrando em seu lugar. Eu não, eu resistia. Não por que quisesse. Não. Eu queria me encaixar. Queria ficar com minhas irmãs, novamente, juntas, ainda que não emboladas, organizadas em nossos lugares. Porém, cada vez o tempo passava, e ele não encontrava lugar para mim. Foi então que, no fim das férias, ele conseguiu montar tudo. E eu? Bom, eu era uma peça que sobrou. Talvez nem fosse parte do Taj Mahal. O idiota olhou pra mim, riu. Mostrou a família. O melequento me pegou e balbuciou alguma coisa que eu não entendi, até porque ele estava com um chiclete na boca. O homem pensava em emoldurar o quebra-cabeça, enquanto a mulher não conseguia ver espaço para aquilo, era melhor desmontar e guardar na caixa. Por um momento tive a esperança de voltar para caixa com os meus. Mas não foi o que aconteceu. Minhas irmãs foram mesmo reencaixotadas, enquanto eu fui cortada em pedaços pelo melequento. Em seguida, jogada fora. Bem feito para mim por nunca me encaixar.


Caroline Reis (Rio de Janeiro, 1980). Graduada, mestre e doutora em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi professora do ensino básico e superior durante todo o novo século. Atualmente é membro da Superintendência de Desenvolvimento de Pessoas da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Taj Mahal, por Caroline Reis

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