Estou encharcada, tenho água batendo nos joelhos, não tenho idade pra falar de morte. Agora já me falam dela cheios de carinho, voz mansa, talvez ternura. E só me permitem senti-la próxima, premeditá-la, aceitá-la como convém.
A morte abstrata tanto faz; seus olhos, distantes como olhos de Deus. Só a morte real me interessa. Creio nela, sinto sua vertigem, eu que tanto derrubei minha baba sobre sua imagem e tanto confrontei minha voz com o seu som. Quis que nos tornássemos íntimas, que tirássemos enfim a roupa mentida da felicidade; quis o seu nu, corpo no corpo, palavra na palavra. Então: corpo, vida, verbo e nada.
Tanto pulsei distante na palavra, impasse ao desejo profano de ser cada vez menos. Começava com o dedo em seu relevo mínimo sobre o papel, digital de algum fantasma, voz de alguma voz que já não era minha, criatura desmentindo o Criador. Tanto acreditei existir que protelei. Agora não mais a morte abstrata, coisa comum a todos e a ninguém. Morte.
Mas fui jovem e amei, prostituí minha tristeza no amor. Conversávamos muito, tocávamo-nos, e o mais próximo que chegamos de nos compreender (àquilo que meu delírio acreditou ser a compreensão) foi orelha de uma encostada na da outra, jeito que encontramos, depois de um tempo, pra fazer nosso interior reverberar. Amávamo-nos com os dias contados, sabendo do tempo que destrói para se conservar.
Fui jovem: firmei-me na volúpia de ideais móveis, um pouco como o moço que mora na rua, entra em uma galeria, caminha por ela, resvalando as mãos na parede, e assim o mundo é um pouco mais seu. Cumprimenta desconhecidos, forja familiaridade, diz que ama com desdém. Cada um é só, de um jeito próprio. Sinto falta do ideal, do resvalar de mãos sobre a parede que não é minha.
O quanto de minha tristeza, prostituída no amor, mas sobrevivente, banalizada no mundo, traída no riso, com ares de morta, contudo viva; o quanto dela me foi vedado, espasmo secreto? Não ter chegado às mais amplas dimensões da tristeza, desse marco zero e única coisa palpável, foi o meu medo.
Vou em direção à morte, satisfeita por ter tido nas lágrimas quentes minha única febre e, nessa palavra, que emiti cada vez mais silenciosamente, meu único remédio. Está certo que estive sóbria, mas não o fui. Ter escrito tantos poemas, verso sob verso, num falso comedimento… A esta altura, os dias espremidos dura e indiferentemente contra os molares, vejo: vida é assunto de mastigação, verso único, abatedouro contínuo e sem pontuação.
Escolhi o suicídio a dedo e, aos 62 anos, o bastante para que já não o questionem demais, para que em torno dele não floresça o espetáculo. Ida extraordinária, ida corriqueira, não pede o mau gosto da poeta que ainda houvesse em mim, devota das palavras de melhor safra. Já não me cabe discurso; balbucio.
Corte que não vaza, ritual mudo, dança estática do giro completo. Meu suicídio fora de hora assusta e confunde; não se passa dos 30 impunemente. Mas prometo morrer baixinho.


Victória Monteiro (Arujá, 1996). Um pouco de Clarice, Hilda Hilst, Ana C. e muito de mim.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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