Acordou com um desejo. Ou melhor, o desejo a acordara. Queria sentir cheiro de tinta fresca, sujar as mãos e colocar de novo aquele velho avental. Achava incrível como depois de tantas voltas, a vida parecia não evoluir, permanecia no mesmo lugar como um cavalo teimoso. Estava decidida, voltaria ao ateliê de arte. Agora, teria diante de si as telas abstratas, os quadros inacabados… O mundo todo colorido fazia sentido. Sentido que se resolvia apenas no detalhe, talvez na escolha do matiz. Com os olhos bem abertos, percebia o quanto de seus sonhos tinha sido abandonado por causa de outra prioridade — o casamento. Ao ver-se sozinha, sentada à mesa de jantar, com aquela quantidade de talheres chiques, sentiu uma dor pontiaguda ferroar o peito. As cadeiras denunciavam o excesso de ausência. Talvez tivesse sido um pouco feliz ali naquele lugar. Experimentado uma alegriazinha morna, mas alegria. Ou, talvez tivesse se enganado, confundido resignação com felicidade, o que não seria novidade alguma; tantas vezes havia se embaraçado com os sentimentos, tentado decifrar o que era o que. Afinal de contas, o saldo da tragédia não havia sido tão ruim. Ficara com a posse de uma bela casa, espaçosa e confortável e mais dois terrenos no litoral da cidade. Mas isso não lhe dava orgulho, pois nunca fora mulher de luxos exorbitantes. Vivia bem com o que o seu dinheiro podia pagar, e isso era tudo. Nos últimos dias, repousara em seu peito um sentimento de culpa, carregava certa frustração consigo mesma, uma inadequação à vida, um descontrole… acordava com uma sensação de náusea, respirava fundo, e aquilo só aumentava, e já começava a incomodar. Aos trinta e cinco anos sentia-se revigorada, e até gabava-se de nunca ter sido acometida por séria enfermidade. Às vezes aparecia uma dor de cabeça, mas nada que a deixasse em estado de alerta. Pensando nisso, deitou-se de lado na cama e examinou os seios com cautela. Estavam doloridos, o que anunciava a guerra mensal dos hormônios. Época em que se sentia mais vulnerável, chorava mais e irritava-se com facilidade. Recordou-se dos tempos em que vivia com o ex-marido… “Como o homem conseguiu torná-la invisível durante tanto tempo?” Um pedido dele, e as coisas aconteciam. Um olhar mais sério, e ela se curvava. Só faltava dizer “Eis-me aqui, meu senhor!”. Afinal, ela vivia para servi-lo. E o servia bem, com todas as honras da casa. Durante três anos, deixara de viver. Acomodara-se em seu limbo nadificante. Abandonara o ateliê de arte com lágrimas nos olhos. Trocaria as telas pelas panelas, as tintas, pelo óleo de cozinha. E o que receberia em troca? Ah, isso o tempo diria… Ao chegar do trabalho, o marido acomodava-se num canto do sofá como um gato em dia de chuva. Sequer tirava as meias e a beijava sem desejo. Às vezes, acenava para ela na cozinha como quem se despede de um conhecido na rua. E era só. Depois, adormecia no sofá e lá ficava até o corpo sentir vontade de sexo. Quando isso acontecia, ele a procurava no meio da noite, cheio de um vocabulário sujo e palavras constrangedoras. “Que tragédia”. Disse baixinho, como se alguém pudesse ouvi-la. “Como eu pude?!” A mulher avaliava-se seriamente, assim, averiguando de longe, não imaginava que fora capaz de tanta covardia. Cada acontecimento deixara nela a marca de uma irresponsabilidade, e era a pior das irresponsabilidades — a que se tem consigo mesma. Abandonara-se durante três anos à sorte de um estranho. O homem que avaliava se um edifício cairia ou não no centro da cidade não poderia suportar o peso de um casamento, e obviamente, não suportou… ele calculara mal e ali estava o desmoronamento, a ruína. Uma lágrima densa escorreu ligeiramente na face da mulher. “Como eu pude me anular tanto?” “Deus! Como eu pude?” A pergunta se chacoalhava na mente. Mas por que a culpa agora? Nove meses já havia passado desde o rompimento, certamente o homem nem se lembrava mais dela. A separação ocorrera de modo cordial, entre idas e vindas do cartório, reuniões com advogados, até o último adeus no portão. Passou a mão ligeiramente sobre a face quente, como se o gesto fosse capaz de apagar os pensamentos. Limpou a lágrima que escorria sorrateira, sentiu-se tão pequena, tão frágil, tão só. No fundo, suspeitava que alguma coisa não era de fato o que parecia ser. Sabia que as coisas não aconteciam em vão. Tudo se explicava por intermédio de um princípio absoluto. Seria um princípio ou um acordo misterioso? Firmado entre quem? Que partes? Por hora não sabia responder. Tudo que tinha era perguntas sem respostas e, quando começava com as perguntas bestas, o dia parecia se expandir em larga escala — um enorme lençol aberto sobre a origem dos séculos. Sentia-se impelida a mudar o resultado de sua vida. Queria alterar o estado das coisas. “E vivendo se altera alguma coisa?”. Ou as coisas serão sempre como são. Ou a gente é que muda? As perguntas multiplicavam-se. Principalmente nas noites em que o sono não era forte o suficiente para derrubá-la. Então, o que estaria acontecendo? Pensativa, apoiou o braço na mesa e sorveu o último gole do café, levantando o queixo a ponto de observar as manchas lodosas no teto. Quem a visse assim, imaginaria a cena de um animal uivando para a lua. Retornou a si apertando a xícara com força entre os dedos; ao cogitar a possibilidade de se ferir, abandonou o objeto na pia e espreguiçou-se. Dirigiu-se até a janela e abriu-a lentamente, como se estivesse rasgando as cortinas do mundo. Ficou ali, parada, olhando a rua deserta por algum tempo; o céu se expandia como uma tela fresca, azul, azul… Às vezes ela pensava que a vida poderia dispor de um “botão de alarme”, e que nesses estados específicos de “calamidade profunda” poderia ser agraciada com alguma ajuda sobrenatural, um mecanismo infalível que tivesse o poder de mudar o rumo das coisas; mas, no fundo, ela sabia que sobrenatural era viver num mundo em que tudo é instável e não se pode descobrir quem se é de fato e com que propósito se vive. Isto sim era confuso. Sofre-se por quê? A troco de quê? Partia do princípio de que era uma boa pessoa e não desejava mal a ninguém. E quem disse que isso extinguia futuras desgraças? A grande fortuna, a grande ruína… o coração. O órgão misterioso costumava pregar peças, apadrinhar pequenas tragédias. Quando se enganou a respeito do amor não fez julgamentos prévios e não culpou ninguém pelas consequências do trágico desfecho. Não sabia se a queixa adiantaria alguma coisa. Fora lá no fundo e encontrara forças para um perdão silencioso; as mágoas o tempo levaria… e se não levasse, ficariam ali, quietas, como restos de embarcações que lentamente se desintegram no fundo do mar. Pensava… “O mar é grande, mas meu coração é maior ainda”. Ali naquele grande coração também havia o espaço das telas brancas; e foi pensando nisso que voltou ao quarto, despiu-se, jogando as peças de roupa no carpete, caminhou lentamente até o banheiro, abriu a ducha e sentiu a água cair sobre o seu corpo num jato relaxante. A mulher brincava com os jorros d’água, desfrutando de uma felicidade quase infantil; redimia-se de si mesma, juntando as gotículas que caíam nas mãos como pequenos cristais translúcidos. Ali ela poderia ver o presente e o passado juntos, dispostos numa fruição intermitente. A vida se perfazia em cada gotícula; “os cristais”, como ela os designara, expurgariam o fundo do mar se fosse preciso. Foi aí que tivera a grande ideia; encheu a banheira até que o volume de água inundasse o chão; munida de folhas coloridas, construiu inúmeros barcos de papel, que foram lançados nas águas movimentadas; de tamanhos e cores distintas, os barquinhos dançavam no “mar” exposto à frente dela. “O mar é grande, mas meu coração é maior ainda”. Lembrou-se dos conselhos maternos, “Quem é pequeno, minha filha, vê o mundo pequeno. Expanda o seu olhar e será sempre maior do que já é”. O olhar… era isso. O olhar era o grande trunfo. Basta olhar as coisas por um novo ângulo, uma mirada diferente, e elas se modificam. A coisa deixa de ser somente coisa. Lembrou-se do “dialeto manoelês”. “As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis”. “Será que sou uma pessoa razoável? ”. A mulher se analisava de perto como quem olha a boca de um abismo. “Uma pessoa razoável é uma pessoa óbvia”. “Será que eu sou óbvia?” “Eu sou o meu nome ou sou o que as pessoas veem?” Se as coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis, preciso me coisificar para entender a essência delas sem aplicar o meu lado humano. Analisando por esse prisma, posso perder totalmente o meu interesse pela antropologia e começar as incursões pelo terreno metafísico das coisas. A mulher mergulhava no delírio provocado pelas perguntas bestas, tinha nas mãos a transparência dos cristais; e o espanto causado pelos objetos já não era só o espanto da primeira impressão, era mais que isso. As coisas ao redor transformavam-se cada vez que ela olhava. Treinar o olhar era entrar na superfície das coisas com a ferramenta do desvelamento. Velar e desvelar eram o seu ofício primeiro. No fundo, ela sentia inveja das coisas. As coisas eram. Independentemente do que acontecia, estavam ali provando a resistência de coisa, a durabilidade e características que explicavam a sua utilização. Todas as coisas tinham um propósito, até aquelas mais insignificantes serviam para ser “inutensílio”. E ela, servia para ser o quê? Estava certa de que, um dia não estaria mais no mundo, e essa pergunta era a que mais doía. Por quê? Se um dia acabaria morta, sabe-se lá como, para que viveria sonhando com viagens ao redor do mundo e visitas ao Museu do Louvre? Todas as telas abstratas causavam nela um desconserto, tudo que ela não era estava ali exposto. Era uma afronta, um disparate… Ela era enfim alguma coisa indecifrável, e se arrependia de ser… Talvez fosse o esboço de uma curva de tinta no meio de uma confusão de cores quentes. Um lugar ao contrário rumando para o infinito, uma mancha solta na tela branca. A mulher só queria ser.… mesmo quando desistia… ela só queria desempenhar o seu papel de gente enquanto ainda pudesse olhar as coisas sem ter de virar o rosto indignada. As coisas eram, e ela um dia passaria. Sequer deixaria herdeiros. De que adiantaria deixar legatários que certamente viveriam sob a tutela da mesma dor? A dor de ser. Levantou-se, calmamente, parecia sofrer com o peso das perguntas que despencaram como uma enxurrada sobre a mente aflita. Enrolou-se na toalha e caminhou na direção do quarto. Não quis olhar o movimento dos barcos. Queria despedir-se das imagens deles na água, sem encará-los; sabia que ali estava mais uma armadilha das coisas. “Eu queria desenvolver uma máquina de ser. Eu estou sendo absolutamente sincera quando digo que o espanto causado pelas coisas me ultrapassa e me dispersa, a ponto de eu perder a noção que tenho de mim”. Se todas as perguntas que ela tinha feito até ali não a deixara ilhada e completamente perdida de si, enfim chegaria o dia em que ela teria de se olhar no espelho e receber de volta tudo que ela era. “Uma máquina de ser talvez eliminasse tudo que tenho de mim; ficariam apenas as ligeiras impressões do que já fui um dia. Estou em pleno processo de mudança, sempre alcançando o devir, dia após dia; já não sou quem eu era; o ontem ficou para trás como um dia perdido no tempo. Para os outros, eu sou apenas a ideia do meu nome; só que é uma ideia que já vem preenchida por tudo que atribuem a mim e imaginam que sou. O que pode ser um equívoco. Para mim, eu sou apenas uma hipótese, uma equação que dá zero, uma curva que não se completa; não chego a me alcançar totalmente pelo meu discurso; sou rala demais para me significar apenas com meia dúzia de palavras e o que tenho de profundo é tão pouco, que é quase inatingível”. Sentada na cama, deixava o pensamento viajar livremente; a rotina dos dias pesados não lhe permitia a graça de um momento como esse. Tudo que ela tinha era obrigações. A vida tinha hora marcada, e ela sequer dispunha de tempo para planejar outras atividades que não estivessem relacionadas ao trabalho. Instantes em que ela poderia chegar mais perto e ver as coisas por dentro eram raros. Assim, a vida parecia valer a pena. Pensava agora nas telas, que deixara inacabadas. Sorriu, ao lembrar-se de uma frase que lera no outro dia estampada no painel luminoso: “A arte é uma revolta contra o destino”.


Ester Chaves (Brasília, 1979). Escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poéticos e musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “A máquina de ser, por Ester Chaves

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