Aquela manhã começou de maneira particularmente estranha. Parecia que o frigorífico não era o mesmo local onde Carlos trabalhava há vinte anos, a empacotar cortes congelados de aves. Duas décadas e centenas de milhares, talvez um milhão ou mais, de bandejas de coxas, fígados, moelas, peitos etc., que abasteciam a mesa de carnívoros e onívoros de todas as partes do mundo. Há cerca de dez anos a empresa começou a exportar para os cinco continentes.
Os colegas lhe pareciam outras pessoas, mesmo aqueles mais antigos, que começaram ali junto com ele. As máquinas, quase todas de última geração tecnológica, adquiridas após a reestruturação da planta produtiva, ocorrida meses atrás, não se assemelhavam em nada àquelas que deixara no dia anterior, quando foi para casa, ao final do expediente. Sentia-se, ele próprio, diferente, tanto do ponto vista mental quanto físico. As ideias simples e corriqueiras, que martelavam seu pensamento durante o expediente, que podia se estender a dez horas, nos dias em que fazia horas extras, foram substituídas por outras, que nunca haviam ocupado anteriormente sua cabeça de operário. Ao invés de imaginar a cerveja e o futebol do final de semana, perdia-se em especulações do tipo: como sua existência era vazia, dedicada, metade dela, a embrulhar vísceras de frango, apenas para sobreviver, jogar futebol e tomar cerveja aos finais de semana. Nunca se preocupara antes com esses termos da vida. O corpo, por sua vez, notadamente a perna esquerda, lhe proporcionava sensações também inusitadas. Tentava alongar o membro inferior direito ou o pressionava contra o piso para trazê-lo de volta à consciência de comandado, mas ele continuava a julgar que tinha vida própria e independência. Apesar disso, não sentia dor. Quando registrou o ponto eletrônico e saiu da fábrica, às 17:30 h, aquela rua, pela qual caminhava durante vinte minutos até em casa, não era a mesma rua, embora nada tivesse mudado, nem os prédios, nem os ambulantes, nem os veículos que naquele horário se repetiam dia após dia, final de expediente após final de expediente. Andou na trajetória e velocidade costumeiras, de volta ao lar, e quando entrou pela sala não sentiu vontade de beijar a mulher, como fazia todos os dias, há vinte anos. Sentou-se à mesa da cozinha, uma velha mesa de madeira rústica que também se transformara a seu olhar, estendeu a mão até a geladeira, pegou uma cerveja e começou a beber. A mulher estranhou a súbita mudança de hábito e quis saber a razão de seu comportamento taciturno.
– O que houve, meu bem? Perguntou, gentilmente, enquanto acariciava os cabelos já ralos e brancos do marido, aos quarenta anos.
– Nada importante. Sinto-me um pouco diferente hoje, só isso.
– Está tudo bem no frigorífico?
– Sim, foi um dia tranquilo, normal como todos os outros. É apenas uma sensação estranha de que as coisas mudaram. A fábrica, a rua, meus companheiros, eu mesmo, você.
– Vá descansar um pouco, meu amor. Talvez sejam apenas o cansaço e a preocupação diante das demissões que ocorreram nos últimos tempos.
Deu na mulher o beijo postergado e foi para o quarto. A cerveja ficou pela metade sobre a mesa. Aquela cerveja, a propósito, não era a mesma que ele bebia nos fins de semana, há mais de vinte anos. Parecia, hoje, ter um certo gosto metálico. Por volta das 20:00 h a mulher de Carlos decidiu acordá-lo para um banho e o jantar, mas não obteve sucesso. O marido dormia profundamente e após algumas tentativas ela resolveu abandoná-lo ao inusitado cansaço que o dominava. Ele acordou, como sempre, às 06:00 h e lembrou-se de que se deitara às 18:00 h do dia anterior, sem banho ou jantar. Dirigiu-se ao banheiro e percebeu que a sensação de estranheza não apenas continuava, como se acentuara. As paredes da casa pareciam estar fluídas, as cores dançavam entre tons que nunca vira antes. Imaginou que ao tomar uma ducha recobraria a clareza das ideias e sensações, mas mesmo os pingos que lhe caíam no corpo não lhe causavam prazer como antes e esse antes era apenas a manhã de ontem. “Será que estou doente ou enlouquecendo?”, perguntou-se, em pensamento. A ideia de loucura tornava-se mais forte a cada ação corriqueira, como calçar os sapatos, tomar o café da manhã, alimentar o gato. Tudo aquilo era um mundo que parecia descolar-se de sua existência. Sentia como se seu ser estivesse a penetrar em outra dimensão ou era o mundo que se esvaía, em uma fumaça sem cor e cheiro, como se estivesse a ser apagado com uma borracha, bem na sua frente e sem sua permissão. Num gigantesco esforço, tentou recobrar a lucidez, levantou-se da mesa de café da manhã, vestiu o uniforme branco, despediu-se da mulher e saiu a caminhar para o trabalho. No percurso notou que a perna esquerda apresentava os mesmos sintomas que acometeram sua companheira um dia antes. Formigava, ameaçava passos mais largos, ensaiava um chute no ar sem o consentimento do seu senhor, mas também não doía.
As conversas no trabalho passaram a irritar Carlos. Não apreciava mais as brincadeiras dos colegas, nem mesmo dos amigos. A presença do supervisor era o que mais o incomodava e todas as vezes que este passava pela linha de produção, a acompanhar lentamente todos os operários, para verificar se o ritmo estava adequado às necessidades da planilha de controle que ostentava em seu tablet, Carlos sentia uma pulsão de esmurrá-lo, ali mesmo no meio dos miúdos e coxas de frango. Após quebrar-lhe os dentes com socos poderosos, encheria sua boca de fígado e moela congelados e o faria engolir sem mastigar, até sufocar e morrer, para deleite dos duzentos homens e mulheres que a ele se submetiam todos os dias.
Após o quinto dia do início de sua transformação, ou do mundo à sua volta, Carlos acordou de madrugada com os braços, o abdome e a cabeça a formigar e a retorcer. Seus músculos se contraíam e pulsavam de forma frenética, seu rosto se contorcia, os olhos reviravam e o estômago aparentava estar tomado por um líquido quente, embora ele não comesse ou bebesse há várias horas. Levantou-se com dificuldade e foi ao banheiro. A cabeça estava mais pesada que de costume. Ensaiou um grito quando sentiu algo apertar-lhe dentro da boca. Ao abri-la notou que os dentes mudaram de cor, era como se fossem todos restaurados com aquele amálgama metálico que os dentistas utilizam. Sua cabeça girou e ele teve que se segurar na pia para não cair. Nesse momento deu um soco na parede e quase a atravessou. Percebeu que tinha uma força descomunal. Não sentiu nenhuma dor. Quando recolheu a mão, notou um pequeno ferimento na pele. Um ferimento diferente. Não sangrava. Por baixo não havia sangue ou carne, senão um brilho metálico. Apavorou-se. Ainda conseguia apavorar-se. Rasgou sem dificuldade aquela pequena ruptura de pele e viu que sua mão não era mais carne, músculos, nervos, sangue, ossos. Era metálica. Um metal prateado, muito brilhante. Continuou a remover a pele, com angústia e crescente pavor, quase às lágrimas, se ainda existissem, e após alguns minutos havia retirado toda a sua casca e deixado a nu um novo corpo de puro metal. Restava apenas o rosto. Olhou-se no espelho e conseguiu enxergar o último brilho humano em seus olhos castanho-claros. A pele do rosto estava rompida em múltiplos rasgos, de onde brotavam a luminescência argêntea que já dominava o restante do corpo. Rompeu violentamente, com as mãos, o restante da pele da face e trouxe com ela toda a cobertura biológica da cabeça. Carlos não era mais humano. Tentou chorar ou gritar, mas as sensações de alguns minutos atrás, como o coração disparado e o pavor que sentia com aquela horrenda metamorfose, já não existiam mais. Sua consciência de homem ainda resistia, mesmo que pulverizada e restrita a certas conexões com sentimentos e pensamentos, dos quais se poderia dizer “um tanto desumanizados”. Pensava em violência, em desespero, em vingança, em morte.
Carlos, ou o que sobrara dele, ainda tinha uma missão a cumprir. Era o trabalho no frigorífico. Sem se preocupar em recolher sua couraça que jazia, exangue, no chão do banheiro, voltou para o quarto, vestiu o impoluto uniforme branco, bordado com seu nome e o dia da semana, e foi para o trabalho. Não acordou a mulher. Ele não tinha mais uma mulher ou ela não o tinha mais. Caminhou como de costume, e não obstante sua peculiar condição, os olhares dos demais transeuntes mostravam-se pouco espantados. Chegou mais rápido de que em geral o fazia, registrou o ponto eletrônico às 07:10 h, quarenta minutos antes do horário padrão, e foi para sua mesa de trabalho, empacotar, como há duas décadas se repetia, vísceras de galinha. O salão estava praticamente vazio e além dele só havia alguns funcionários do estoque e outros a concluir a limpeza. Olharam-se, sem conseguir compreender bem o que se passava com o colega. “Por que ele havia pintado o corpo com uma tinta prateada? Teria enlouquecido?”. Ele manteve-se, como sempre, mecanicamente concentrado em sua tarefa, e sua produtividade hoje com certeza superaria em muito as metas estabelecidas no tablet do supervisor. À medida que chegavam, os outros operários, já avisados, evitavam passar perto de Carlos e aguardavam o encarregado para tomar as providências necessárias. O homem-metal continuava seu trabalho sistemático, com uma qualidade jamais vista. Nenhuma das bandejas submetidas à balança tinha um grama a mais ou a menos que um quilo e eram lacradas com inusitado esmero e rapidez incomum. Produzira, em apenas meia hora, o que em geral levaria três ou quatro horas para fazer.
Quando a sirene que anunciava o início do expediente matutino tocou, exatamente à 07:50 h, todos já estavam em seus postos de trabalho, porém não conseguiam concentrar-se em razão da presença do homem que até ontem era um colega qualquer da estação ao lado e hoje aparecera como um louco pintado de tinta metálica. E trabalhava como um louco.
O supervisor entrou no salão dez minutos após e, igualmente alertado, foi direto à mesa de Carlos. Dirigiu-se rispidamente ao subordinado, como sempre fazia com todos os outros, e perguntou: – O que o senhor pensa que está fazendo, Sr. Carlos, que brincadeira é essa?
As palavras ásperas do supervisor terminaram por liquidar os últimos e tênues nexos que Carlos tinha com sua vida humana. O homem-metal que ali estava, a tentar reproduzir da mesma forma mecanicista a vida servil de seu antecessor, “Carlos, o homem”, virou-se com a faca frigorífica de fio implacável nas mãos e, com um só golpe, penetrou-a o peito do encarregado, que mal teve tempo de levar uma das mãos à região atingida, antes de morrer.
O assassino levantou com facilidade o corpo da vítima e colocou-o sobre a mesa de trabalho. Com movimentos rápidos e precisos extraiu o coração, que a faca transpassara exatamente no centro, o fígado, o baço, os rins e o pâncreas. Em seguida picou-os em pequenos pedaços, do tamanho das moelas e fígados que “Carlos, o homem”, empacotou durante metade da existência. Entre correria e gritos de desespero, os seguranças chegaram ao salão para conter e deter o matador do encarregado. Ordenaram-lhe que largasse a faca e se deitasse com as mãos na nuca, porém ele não os obedeceu. “Carlos, o homem”, após picar e empacotar as vísceras do supervisor de produção, com o mesmo capricho que dispensava aos miúdos de frango, despareceu por completo. Ali não havia mais um ser humano, senão apenas um bloco de metal em forma humanoide, animado tão somente por uma incontrolável força destrutiva, cuja finalidade era infligir, a tudo e todos, o caos e a dor. Quando ele se virou com a faca nas mãos, os três guardas já estavam de armas a postos e dispararam várias vezes contra aquela massa de metal sob o uniforme branco encharcado com o sangue do supervisor. Os projéteis não penetravam a couraça, mas por alguma potência instintiva, o homem metal rasgou e atirou fora as roupas, pulou sobre as mesas e correu em direção à parede, rompendo-a com o próprio corpo. Saiu no pátio do estacionamento e começou a correr pela rua. À medida que corria mais rápido foi se liquefazendo, a criar um rastro de líquido prateado até desparecer completamente. Os passantes viram-no se desfazer e muitos julgaram que se tratava de número de mágica, destinado a promover algum produto ou empresa. Depois que o último fio de metal de “Carlos, o homem”, quedou no passeio, todos voltaram a caminhar normalmente, como se nada fosse capaz de interromper suas trajetórias cotidianas. O líquido cromado foi aos poucos absorvido pelas solas dos sapatos e, em alguns minutos havia apenas manchas indiscerníveis de uma sujeira que logo a água da chuva ou das mangueiras de limpeza das casas e do comércio conduziria para os dutos pluviais.
No dia seguinte, a parede do salão de produção do frigorífico já estava reparada, havia um substituto para o operário que matara o supervisor, a trabalhar na mesma mesa onde este fora imolado, e um novo encarregado portava o mesmo tablet, com a mesma planilha de metas, que estampava quantos quilos de vísceras e coxas de frango deveriam ser processadas por cada um dos futuros homens-metais.


Márcio Cruzeiro (Piracanjuba, 1964). Historiador, servidor público e contista.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Carlos, o homem, por Márcio Cruzeiro

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