Observando o corpo que dança a transformar-se em corpo-tempo e em corpo-espaço, esbarro nas limitações da fotografia. O tempo e o espaço fotográficos não são capazes de conter o corpo em movimento, que se expande e contrai para além das capacidades mecânicas da câmara.
Não é possível fotografar o corpo que dança!
Para avançar faço, pois, do impossível o meu território.
Invento com a fotografia novos corpos, uma dança de partículas de prata, que se forma da desintegração dos músculos, pele e ossos dos bailarinos que observo. Os seus corpos-movimentos-orgânicos tornam-se, nas imagens, corpos-suspensos-minerais.
Deixo o meu olhar fascinar-se por estas anatomias que se assemelham a bandos de estorninhos, assumindo sucessivamente formas imprevistas – cada pássaro uma partícula, um grão de areia único, mas ligado por forças misteriosas aos outros que o rodeiam.
Demoro-me nessa imprevisibilidade, conceito novo. Por mais que descortine os movimentos dissecados, decompostos, repetidos até à inconsciência, por mais que escolha os meus fragmentos, os corpos revelados trazem sempre consigo a surpresa e a alquimia da aparição. A imaginação é ultrapassada por uma realidade aparentemente impossível.
Esta aparição nasce de um esforço, de uma procura ativa. A dança não se vê apenas com os olhos, deve sentir-se dentro do corpo. Aí, nasce o desejo de dançar, de juntar-se aos outros corpos, de fazer do nosso também um corpo impossível.
Não seria apropriado, então, que estas fotografias não se mostrassem também apenas ao olhar? Pretendo assim, que cada corpo que observa participe com mais do que com a sua visão, que tenha que ser autor da sua própria micro-dança, mais lenta ou receosa, mais firme ou assertiva, para chegar à aparição destes corpos impossíveis.
Invoco deste modo mais uma vez o tempo e o espaço para o discurso, já não da dança, já não da captura, mas ainda da comunicação e da fruição. Cada um chegará às imagens a seu tempo, cada um, intervindo no elemento mineral areia (símbolo do tempo, e assimilador da forma do espaço), descobrirá os seus próprios contornos das imagens, podendo criar, através de um jogo de esconder e revelar, novos corpos.
Com o tempo, espero que a areia faça o seu trabalho erosivo nas imagens, dissolvendo no limite estes corpos que, no momento em que foram criados, deixaram logo de existir.


Magda Fernandes (Porto, Portugal, 1981). Colunista da Philos e uma das fundadoras da Imagerie, Casa de Imagens, criada em Lisboa.

Posted by:imagerie - casa de imagens

A NON-VIRTUAL, PHOTOGRAPHIC ALTERNATIVE SOCIAL NETWORK. Ateliê de formação, dedicado à imagem fotográfica e em movimento

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