“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje”. Quase assim tem agido os pintores medievais e Peter Bruegel, para proteger uma caixa de abelhas que completou 40 anos de instalação na fachada de uma casa no sur de Minas Gerais. A história é real; com algumas pedras e loucuras.
Da Idade Média aos dias de hoje, os BBs Bosch e Bruegel chegam um dia antes de alguém apedrejar a caixa. Diferentemente da extração da pedra da loucura, lá no século XV, eles pintam os atiradores com a pedra na cabeça. De imediato, a loucura se instala nos retratados.
Conclusão: “Não atires pedras sobre as abelhas, porque não vai dar certo.” Reflexão: Se até uma pedrinha renal pode enlouquecer alguém, imagine a era Paleolítica, quando todos tinham uma pedra lascada dentro de si.
Por eu ser um jornalista foca (a vida toda em início de carreira), consegui entrevista com a abelha rainha. Ela saiu da caixa de 2,5 m de comprimento por 2 m de largura. Ficou pousada na janela de Johari da casa e me zumbiu um aviso: “Abelha dá mel, mas não quer saber de agrado.” Estava vestida de forma estranha. Parecia zangada, meio zangã. Quase perguntei: “Você é você?”
A caixa quarentona está num município batizado com o nome de uma abelha sem ferrão. Quando começou a ser arquitetada, os ancestrais paleolíticos da atual rainha invadiram a prefeitura e alteraram o amarelo mel de abelha apis, na imagem do brasão municipal. “Por que a substituição pelo amarelo tâmara?” A rainha reagiu nervosa à pergunta.
– As palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão. Eu só tenho ferrão.
Com voz dulcíssima, questionei por que nos primeiros anos de construção da caixa, as abelhas só eram mansas com os moradores da casa. Agrediam visitantes, vizinhos e quem passasse pela rua em frente. De repente, ficaram cordiais com todos. Ela me aconselhou a não mexer nesse vespeiro. E mexeu o corpo para indicar as muitas pedras da loucura dentro nela.
Sou o tipo de foca que busca mel no travesseiro da vespa. “Por que nessa caixa só é produzido o mel de tâmara, superior ao mel apis em doçura?” Antes que viessem os BBs para me apedrejarem na pintura, quis saber se ela era uma rainha ou um rei? A resposta veio sofrida e humilde: – A gente é tudo marimbondo. Entendeu?
Entendi que poucos ou quase nenhum morador local permitiu que abelhas fizessem moradia em seus imóveis. Algum prefeito, vereador ou associação cultivou plantas para atrair o inseto que dá nome à cidade? Entendi que até hoje, um dos poucos únicos que preservou polinizadores na cidade foi o proprietário da referida casa, que passou essa tradição aos seus familiares. E assim, há 40 anos é mantido um cartão postal vivo, cada vez maior.
– A nossa caixa ia ter apoio do Banco do Brasil, mas o crédito não saiu, explicou o reinha. De raiva, chamamos a concorrência: os BBs.
“Então vocês deram um minigolpe”, concluí. “Negativo”, contestou o reinha. Seria golpe se a caixa vespeira vendesse gato por lebre, ou seja, oferecesse tâmara e entregasse mel de abelha. Acontece o contrário: oferece mel de abelha, menos doce, e entrega mel de tâmara, com doçura superior.
– O que a gente faz é um antigolpe: vende gato e entrega lebre. Nós temos lábias de mel. Entendeu?


Sílvio Reis (Minas Gerais, Brasil). É graduado em Jornalismo há 30 anos, com atuação diversificada na área. Atualmente escreve para alguns veículos de comunicação e no blog http://www.vitorioregio.com

Posted by:Jorge Pereira

Jorge Pereira (Recife, 1994). Produtor cultural e agente literário baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e membro do Oi Kabum! LAB do Oi Futuro.

Uma resposta para “Minigolpe com lábias de mel, por Sílvio Reis

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s