o pai olhou para baixo, para o jornal onde lia sobre a miséria da aprovação da reforma trabalhista, em seu roupão azul puído e à direita sua caixa de remédios para diabetes e pressão e sorriu um sorriso de vitória, porque tinha salvo a filha da barbárie, tinha deixado-a a salvo simplesmente por colocar música erudita na hora do almoço, no programa de rádio que os entendedores torciam o nariz sempre que era mencionado, sua filha estava salva, ela saberia os códigos dos homens de escritórios com piso luzidio e estantes de madeira de lei, hoje um pouco modificados na estética, é verdade, mas ainda os mesmos senhores ou os filhos ou os netos dos senhores que lhe negaram leite e pão ao não honrar a dívida que tinham com o pai do pai, a filha poderia entrar nesses escritórios, ter ela mesma um escritório, ser chamada de doutora e não ter nunca que baixar os olhos e repetir “sim, senhor”, nem ter o medo, o medo que gela os ossos, o medo de estar à mercê – sim senhor, eu entendo, claro, agora não é possível/não há vagas/não é mais necessário, sim, senhor, como o senhor quiser, é claro que eu posso, mais horas sim, senhor – o pai tinha certeza, ali, velho, depois de toda uma vida tendo chefes – “o melhor patrão é o Estado” – seus olhos grandes que a filha tinha herdado, olhos de criança que ele com muito cansaço passava pelo jornal, o cansaço de uma vida chamando os outros de doutor mas a filha, a filha escaparia com certeza e pai nós não escaparemos. ninguém escapará, salvo os de sempre.


Laura Torres (Belo Horizonte, 1981). Poeta de gaveta e revisora de textos alheios.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Salvo os de sempre, por Laura Torres

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