Quem fala do que não lhe diz respeito, ouve algo que o deixará contrafeito.
– Trigésima quinta noite das Mil e Uma Noites

É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação.
– Mário de Andrade

Na Sociedade dos Cirurgiões Russos, o assassinato de dona Candinha [1]. levara o carimbo de URGENTE numa cadeia de bilhetes coloridos azul-amarelo-laranja-azul-vermelho desde o Alto Comando em Lubyanka.
Durante anos, Madame Petróvska manipulara dona Candinha para os seus fins sórdidos. Seguindo ordens, a mulher do engraxate fomentara discórdias e difundira informações até que os sintomas de demência a desqualificaram. Os aldeões, ao disputarem-se entre si numa briga de xadrez, submetiam-se ao jugo de Petróvska e seus camaradas. Impressionava a facilidade com que os patifes, alguns vesgos, outros não (portanto, não interessava em que direção as pupilas concentravam), fiavam-se em qualquer boato cuja veracidade dona Candinha ajudava a solidificar entre eles. Uma alegação de estupro, o famoso “Lisa Affair”, bastou para que o imbróglio causasse apedrejamento do estrangeiro ajoelhado sobre o seu tapete de orações.
Com o agravo da doença, Dona Candinha cometera indiscrições. Expusera as práticas absconsas do casal de espiões Africa e Hernandez em seu museu de bonecas; as vaidades de Madame Petróvska em vestir-se como diva de ópera; a cama de Proscuto onde esticaram o barítono e vários abduzidos; e, a distribuição dos pãezinhos envenenados por ergot para que o fundamentalismo religioso se disseminasse. No tocante aos venefícios, dona Candinha desvendara a cumplicidade do alcaide, interessado em preservar-se na torre suprema, acalentando o fervor popular por divindades. O mesmo ocorrendo com líderes religiosos, retumbantes com a febre do rebanho e interessados nos cofres que jorravam dízimos.
Ao constatar o vazamento das informações por dona Candinha e havendo cumprido os requisitos burocráticos, Madame Petróvska preencheu um último formulário para que o agente Sorokin apagasse a mexeriqueira. Sorokin, em jejum, escalou o subagente Seminióvy em seu lugar, sem, no entanto, notificar a mandachuva [2].

A FÁBULA DE SEMINIÓVY

É de surpreender que o sujeito lograsse exterminar moscas, papagaios, araras ou a dona Candinha. A resolução do crime em questão permanece em aberto como um leitor atento repara.
O Alto Comando de Lubyanka elegera Seminióvy, um subalterno na hierarquia dos agentes russos, para missão num país periférico num continente patafísico de detetives curiosos numa de transformá-lo em informante, nem que precisasse transmigrar para o corpo de um “beatnik”. Entretanto, um homem para desgraçar a si dispensa a mão do Diabo.
Eis que Seminióvy, ao sair para caminhada a la Walser, perde seu lenço antes de assoar o nariz (sofria de coriza). Inicia a procura pelo lenço, do qual não recordava a cor. A boina extravia-se da cabeça. Ignorando se olhava para cima ou para baixo, livra-se do capote (era um dia de calor, sem nuvens, o capote pouco importava). Nas tentativas pelos objetos perdidos, vê-se descalço das galochas. Põe-se de volta ao ponto de partida mas perde-se. “Desse jeito, não terei nada além de calos nos pés”, exclama. Senta-se sobre uma pedra, apóia a cabeça sobre o cabo do guarda-chuva e dorme. Sonha. De tanto embaralhar-se, Seminióvy perde a mulher que o ama (se ele a amara era outros quinhentos réis pois o amor exige tensão superficial e atenção mínima). Desorientado para os encontros, Seminióvy alternara a enamorada com antigas amantes, malbaratara as cartas e por fim Katya transformara-se em uma mulher de cabelo natural ruivo aniquilada apesar da fúria de cobre. Portanto, conclui-se que um tipo como Seminióvy não chegaria à choupana de barro de dona Candinha para exterminá-la.
Dados adicionais: Seminióvy não dispunha de instrumentos de corte. As instruções de Sorokin em como proceder para cometer o crime adormeceram com o agente, que jamais as resgatou do fundo da memória.

O CRIME

Escobar escondeu-se atrás da pilastra da alcova voltada para o resto da choupana. Pensava estar a sós. Esperava Rosina cuja mãezinha azucrinava os parvos dispostos a ouvi-la e, nas manhãs, prostrava-se ao pé da vizinha enferma, semi-finada, ensurdecida.
“Dona Candinha bisbilhota como se o rumo dos corpos e das coisas lhe pertencesse”, observava Escobar, o noivo-engraxate da Rosina, a menos vesga de todas elas.
O casal se conhecera no Quadrado K4 onde a rapariga vendia panos de pratos bordados com bainhas de crochê aos lustradores que os presenteavam às mulheres. Na primeira lavagem, os panos encolhiam e, doravante, as mulheres. As choupanas de barro do povoado continham uma centena de mulheres encolhidas. Nenhuma delas ousava reclamar dos panos sem propósito, temiam os maridos e a tromba da mãe de Rosina, pesada como a de São Pedro em dias de cântaros.
Durante a espera pela noiva, Escobar ouviu um empurrão na porta da choupana. Ao redor, o escuro tomava conta. O índio manteve a mão apoiada na parede como referência. A pulga pendurada em sua orelha não cessava de perguntar: quem é este homem que está no seu lugar? O corpo suava, a paciência evaporava em gotículas de suor da testa e escorria pelo rosto, pescoço, pairando no colo do peito detidas pela gola da camisa. Escobar, recorrendo a profundos traumas de infância, recriminava-se por haver confiado em uma mulher. Em breve, regressaria ao trabalho, atravessando a muralha erguida do lixo e do detritos que não tinham destino. A sua visita teria sido num esforço em vão caso Rosina não desse as caras ou estivesse de combinação com o Outro.
Antes que a raiva dominasse Escobar, cujo o cérebro se encontrava em plena produção de novas especulações, a porta abriu-se.
Dona Candinha, o seu andar manco e um clarão penetraram o ambiente. Do interior da escuridão, um homem bexiguento disparou em cima da idosa, nocauteando-a. Atingiu-a no gasganete com um bisturi, cortando pele e osso, cuidando para não romper a jugular. Em fuga, o algoz abandonou a dona em sua velha manta com retalhos de lebre e trapos. Escobar manteve-se hirto em seu canto, não se animava a perseguir assassinos. Gesticulou a mecânica da cruz em frente ao peito que arfava, preocupava-se em salvar-se. Concentrou-se na taquicardia, contou até duzentos e vinte e três e deu com Rosina cantarolando o Tango 31. Ainda estavam no dia 20 do mês. Onze dias para o fim.
“Rosina, por que demorou tanto?”
“Fui jogar pedrinhas com as crianças da rua”, respondeu a noiva, indiferente aos anseios de Escobar que encobria um cadáver. As pedras surgiam do nada, brotavam do chão e se deixavam partir e esculpir. Serviam para brincadeiras e defesa territorial. Quem as engolia, petrificava. A mão de Rosina segurava cinco pedras que resolvera trazer consigo. Apertava-as com a força dos atiradores de Gaza.
“Você esbarrou em um homem que saía daqui?”, perguntou Escobar.
“Não rocei em homem nenhum,” defendeu-se Rosina. Dias atrás, Escobar testemunhara caso de polícia, o sequestro do barítono Pietro Paolini e a forçara a acompanhá-lo numa visita à agência de detetives. Agora vinha com perguntas sobre suposto intruso. Além de engraxar para viver, será que nutria paranóias?
Escobar interrompeu o fluxo de pensamento, o trem desgovernado de Rosina:
“Minha filha, enquanto eu esperava por você atrás da pilastra, um forasteiro arrombou a porta, agachou-se como bicho e pulou em cima da senhora sua mãe. Acredito que seja o sujeito que vi no Quadrado como parte do grupo que sequestrou o barítono, o menor deles, com bafo de vodka e vomitando bolas de caviar.”
Foi então que Escobar retirou-se de sobre o corpo da idosa e permitiu que a filha a tocasse.
Rosina esvaziou a mão das cinco pedras, colocou-as de lado e sacudiu a mãe. Os gritos provocaram a aparição dos vizinhos, instalando pressa. Todos salivaram para enterrar a maldita. Detestavam a alcoviteira pelas intrigas, boatos e falsas verdades. Há muito que as faíscas de ódio chegaram à praça Alfred Jarry, onde a presença de Candinha fora interditada pelo alcaide. O mutirão descartou a necessidade de autópsia e embalou a defunta num saco de juta. Transportaram-na numa ambulância que ultrapassou semáforos roxos e qualquer obstáculo no percurso para a funerária. Atiraram o saco lacrado sobre o carpete no exterior da Casa de los Muertos.
As comemorações se deram em irresistível euforia.
Rosina permaneceu sentada no banco da cozinha. Perdera a mãe enquanto o povoado festejava. O pai dela agradeceria o livramento quando encerrasse o expediente no camarote e voltasse à casa na condição de viúvo. Escobar, por outro lado, oferecera consolo enquanto se somava ao rol de suspeitos. O casal se despediu, os corpos não havendo se encostado. A moça duvidava das versões do noivo, era vesga mas não tola, ora bolas, ora pedras! Para ela, a mãe nunca amealhara inimigos.
Na Casa de los Muertos, a enferma a quem a dona Candinha visitava pelas manhãs, largou o leito para velar o corpo da amiga que invertera as posições no tabuleiro. Fervilhando de inveja da morta, a enferma alegrou-se por se aproximar da câmara fúnebre onde encontrou Dona Candinha afogada em um ataúde fabricado para um organismo quatro vezes o seu tamanho. A doente não hesitou em encostar o rosto na face da conhecida para o beijo do adeus. Um sopro liberado pelos lábios da defunta a surpreendeu no momento em que se afastava. Arrepiou-se. “A ceifadeira evita os maus”, pensou. “Ainda chego ao inferno antes de Candinha!”, exclamou sem que ninguém a presenciasse.

A REPERCUSSÃO E UMA RECEITA CULINÁRIA

Ignorando o que se passara, Sorokin contentou-se em certificar-se da localização de dona Candinha na Casa de los Muertos, o que logo reportou à Madame Petróvska. Madame P. despontou da catacumba em trajes de Desdemona para a ceia com Garcia, Africa e Hernandez, quando o quarteto devorou coelhos assados com ameixas e se embriagou de Sancerre e licores.

RECEITA DE COELHO ASSADO COM AMEIXAS SECAS

Ingredientes:
1 coelho robusto
1 cebola branca
4 dentes de alho
Suco de um limão, ou vinagre
ramos de alecrim
azeite
sal e pimenta q.b.
1 copo de Cabernet Sauvignon
linguiças cortadas
ameixas secas

Confecção do Assado Especialíssimo:
Escalpelar o coelho para depois cortá-lo em pedaços. Tempere com sal, pimenta e suco de limão. Dourar no azeite. Retire os pedaços do coelho para um recipiente que vá ao forno. No azeite onde fritou o coelho, junte a cebola, a linguiça em rodelas e o alho picados, assim como as ameixas previamente descaroçadas e partidas ao meio. Quando a cebola estiver dourada, junte o copo de Cabernet Sauvignon e deixe cozer a cebola por mais um tempo. Deite esta mistura sobre o coelho, cubra com os ramos de alecrim e leve ao forno para assar durante um bom tempo. Sirva com arroz branco e batatinhas fritas.
⁠Hernandez puxou o fio da conversa entre os convivas, noticiando a aparição de girafas brancas no Quênia. “Girafas brancas na reserva de Hirola”, repetia ad nauseam sem controlar a língua. As impressões daqueles animais lunares com olhos negros e manchas cinzentas nas extremidades a padecerem de leucismo sem base patafísica alguma mantiveram o quarteto ínsone. Madame Petróvska recusava-se a chamar o barítono Pietro Paolini para a festa. Nos fundos da casa, ele chorava em nostalgia por seu cãozinho Zamor.

(Continua)


*O autor pede um título aos leitores.
1. Candinha, “um nome adorável”, “que quer dizer, na voz do povo, o que andam falando, os diz-ques”, Mário de Andrade. 2. Naturalmente, Sorokin enfrentaria dificuldades posteriores para justificar esta decisão individual.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Sem título, por Kátia Gerlach

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