Hoje pela manhã, quando a ociosidade se fazia aguda, sentei-me junto ao muro que me separa da rua e, com a máquina de escrever entre as pernas e uma xícara de café requentado ao lado, me coloquei a datilografar uma carta para Deus. Não que eu acredite na existência de tal divindade, mas, sendo você tão devota dEle e sendo eu tão devoto seu, entendo que não faz mal apelar por um pouco de ajuda, na esperança de que, estando eu errado sobre a não existência de um ser celestial, me faça agradável ao seu divino olhar. A verdade é que, depois de recorrer a tantos artifícios para chamar sua atenção, me vi obrigado a tentar o impensável. Nesta carta, eu não peço riqueza. Também não me interessa um lugar no paraíso. Tudo que pedi é que, escrevendo certo por linhas tortas, como dizem ser do seu costume, Ele me empurre para mais perto de você. Sei que pode parecer abuso de minha parte incomodá-lo com tal pedido, mas, como prometido, entrego minha alma ou o que restou dela se por Ele for atendido. Quanto ao coração, bem, o coração é seu, e eu vou negá-lo a Deus, se o mesmo for requerido.


Francisco Carvalho (Maceió, 1988), escritor e professor de história, graduando-se pela Universidade Federal de Alagoas.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

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