Um pequeno garoto vivia numa comunidade afastada de todo o resto do mundo, cercada por altíssimos muros de tijolo e concreto e com um imenso portão que nunca se abria. Uma igreja, uma escola, algumas casas e várias plantações e criações. Um lago – lindo, por sinal. Uma pequena civilização, escondida num pequeno pedaço de mundo. Comum a tudo o que é material é a pequenez. Sabe-se lá o tamanho do que há além do universo, se é que essa teoria de algo além é válida e se é que o universo já não baste. Mas, mesmo que miúdos e marginalizados, eram todos os habitantes felizes, dentro da felicidade que lhes fora apresentada.
Ali, um pequeno garoto vivia. Seu pai era cuidador de ovelhas. O homem gostava dessa denominação, não de outra. Tudo o que lhe remetesse a religiões entortava-lhe a alma. Santo Deus! Não que fosse ateu. Pelo contrário, tinha uma fé que os anjos invejavam. Mas não atribuamos pecados aos pobres angelicais, pois aqui esse capital toma um tom menos ofensivo, e já não sei se me faço entender… A semântica das palavras é o veneno e a vacina. Cabe-nos escolher entre a presa e a seringa. E de tanto moralismo nesta narrativa, esqueço-me do importante, mas retomo o fato. A mãe do garoto, uma doce senhora que regava a pequena horta da família. A irmã era a cópia da mãe, e ajudava nos serviços domésticos. Já o garoto não copiava a ninguém, nem a si mesmo. Até mesmo o espelho se espantava.
Todos os dias, o pequeno garoto ia até os muros que cercavam a cidadezinha e insinuava escalá-los. Não passava da metade da altura, pois a mãe lhe gritava e desaprovava toda aquela curiosidade pueril. Voltava o menino, então, aos árduos trabalhos entre o carrinho e a bicicleta. Quando o pai voltava das ovelhas, a mulher lhe contava o que fizera o menino, e o pai reforçava a reprovação ao pequeno. No fundo, o pai apenas queria manter sua autoridade e fazer-se cúmplice da mulher, pois admirava seu filho exercendo a curiosidade que ele também tinha. A irmã, ainda que mais velha, não reprovava nem aprovava. Não dizia nem desdizia. Não pensava. Apenas copiava.
Certo dia, novamente em seu ofício de persistência, o garoto começou a escalar o muro, aquele altíssimo muro, ínfimo aos olhos do infinito. A mãe logo lhe repreendeu, como sempre acontecia. Mas, dessa vez, o menino não a ouviu e continuou a escalar. A cada centímetro acima, a mãe lhe prometia um castigo a mais. Mas ele estava disposto a aguentar a pena futura. Escalava, subia, suava. Chegou ao cimo. Olhou para baixo e viu sua mãe desesperada, junto de sua irmã não pensante. Do pequeno campo das ovelhas, o pai enxergava o filho, ao longe, e ria-se feliz, mas triste por não estar sobre o muro também.
O garoto olhou para o outro lado do muro e viu a mesma altura entre ele e o chão, porém uma diferente extensão entre ele e o horizonte.


David Edson de Camargo Junior (Votorantim, 1989). Professor e escritor.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “O muro, por David Junior

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