Enquanto estudava para ser padre, um italiano de Gênova apaixonou-se pela filha de criação da família. Para evitar o amor entre os quase irmãos, os pais o mandaram para o Brasil. Morando em Minas Gerais, conheceu outra mulher, exatamente no dia em que ela buscava o vestido de noiva na loja, para se casar. Nesse encontro entre italianos, os olhos do amor à primeira vista falaram mais que as palavras. A noiva, italiana de Bolonha, se desfez do noivado e se casou com o genovês. Tiveram apenas uma filha, que depois de casada morou em Guaxupé, no Sul de Minas.
Do Líbano, o padre José Youssef Elias partiu de Baino Acar para o Brasil, em 1907. Veio com o filho Nicolau Cury, com a missão de edificar uma igreja cristã Ortodoxa em Guaxupé. Construída entre 1920 e 1930, foi a segunda do país na época. A primeira, em São Paulo.
A missão do padre José Elias foi cumprida, mesmo depois da morte do filho. A namorada de Nicolau escreveu do Líbano para informar que não poderia esperá-lo por muito tempo. Ia se casar com outro. De tristeza, o jovem parou de comer e se desgostou da vida. Morreu de amor, sem tempo de entender o significado brasileiro da palavra saudade.
A terceira história é mista de amor social e familiar. No Líbano, o padre José Elias deixou três filhos e a esposa grávida. Todos só se reencontraram 14 anos depois, em Guaxupé. Foi o tempo necessário para se estabelecer, financeiramente, e conseguir todo o dinheiro da construção da igreja.
De batina preta que cobria os pés, cabelos compridos e presos num coque, o padre viajava muito. Como resultado, a Paróquia Santo Elias abrangeu municípios do Sul de Minas, do Triângulo Mineiro, cidades paulistas e até Anápolis, em Goiás.
A dificuldade de se comunicar em português não impediu o padre José Elias de realizar batismos, rituais religiosos e muitos casamentos. Algumas festanças duravam até sete dias, com farta comida árabe, dança e alegria. Era uma forma de fortalecer a colônia sírio-libanesa na região e no País. E ainda comemorar a força dos amores imigrantes.


Sílvio Reis (Rio de Janeiro, Brasil). É graduado em Jornalismo e exerce este ofício há 30 anos. Autor de pesquisas de linguagem, que resultaram em publicação de livros, atualmente ele se dedica à pesquisa, reportagens e artigos sobre a relação “homem-animal”. Os textos são divulgados em diversos veículos de comunicação e no blog vitorioregio.com

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “A força dos amores imigrantes, por Sílvio Reis

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s