Uma das recordações que trago da infância é o vento nordeste, que chamávamos, respeitosamente, de nordestão. Nunca chegava pacificamente, sempre com violência. Vinha para nos mostrar que era mais forte, e que éramos insignificantes. Levava os guarda-sóis e as tampas das caixas de isopor que guardavam a cerveja. Levantava saias e fazia os veranistas correrem para casa. Tombava os carrinhos de venda de milho verde e desfolhava os exemplares de Zero Hora que a molecada vendia. Metia medo nos pescadores da barra do rio Tramandaí. Foi por culpa dele, em grande parte, que morreu Catimbau. Por culpa do vento nordeste e de um detalhe que lhe custou a vida.
Catimbau era um velho pescador. Ou será que minhas memórias me traem e o apresentam em minha recordação mais velho do que realmente era? Que idade teria quando faleceu? Nunca saberei. Nem seu verdadeiro nome, ao menos, sei. Tampouco conheço a origem de seu apelido. Talvez fosse apenas um homem dos seus quarenta e poucos anos brutalmente envelhecido pela vida dura e pelo vento inclemente. Em minhas lembranças de criança, vejo um senhor de cabelos sujos, encaracolados e desgrenhados. Os dentes desalinhados e amarelados pela nicotina. Vejo-o sempre rindo. Creio que nunca o vi de mau humor ou triste.
Tinha um grande coração, o Catimbau.
Possuía um senso de humor formidável. Sua visita diária ao boteco era folclórica. Religiosamente, quando voltava do mar, passava no bar de meu tio Norberto com o pretexto de esquentar o coração ou refrescar a garganta, beber para esquecer ou para recordar, comemorar ou afogar as mágoas, ou qualquer outra justificativa de seu vasto repertório para encher a cara. Vinha com o blusão de lã desfiado e uma surrada touca do Grêmio, também de lã, por onde tentavam escapar seus cabelos rebeldes. Eles, os cabelos, escapuliam por baixo da touca e se projetavam para o céu desafiando as leis da gravidade.
– Me dá uma cachaça – pedia.
– Um pente? – questionava Norberto fingindo-se de surdo. A mão em concha ao redor do ouvido. O corpo curvado.
– Não. Uma cachaça – elevava a voz o cliente.
– Ô, nega! Traz um pente pro Catimbau – gritava o dono do botequim para a esposa.
– Não, caralho! Quero uma cachaça! – o cliente, por fim, aos berros.
Todos riam, principalmente o dono do boteco enquanto servia três dedos de aguardente no copo ensebado. Bebia sua pinga e seguia pelo bairro vendendo seu pescado. Ao final da tarde, todos os dias, nosso futebol – que era disputado em um beco – sofria uma baixa. Milton, filho de Catimbau, tinha a tarefa de ensinar o pai a ler. Lá ia o guri, revoltado. “Não adianta, mãe! O pai é burro. Ele nunca aprende.” Certamente essas duras palavras ditas no passado hoje doem em seu coração. Mas ele era um bom menino. Só não tinha a sabedoria, ainda, de perceber que o pai não era burro. Era um herói.
Um dia, saiu para pescar e não voltou. O nordestão chegou muito rápido, surpreendendo até mesmo os velhos lobos do mar. A embarcação naufragou na saída da barra, onde o mar é traiçoeiro. Catimbau lutou para salvar um companheiro que se afogava. O detalhe, que lhe custou a vida, era que não sabia nadar. Nunca aprendera. A despeito disso, morreu tentando salvá-lo, pois era seu dever. Era seu destino. E o destino não liga para detalhes.


Carlos Barth (São Leopoldo, Rio Grande do Sul, 1979). É engenheiro de profissão e escreve nas horas de folga. Teve trabalhos publicados nas revistas Philos, Subjetiva e Subversa.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “Catimbau, por Carlos Barth

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