De um capítulo anterior:

Os sapatos de Pietro Paolini jogados sobre o piso haviam perdido o resplendor polido pelo engraxate; desvendados os pés, salientavam-se as calosidades, ossos novos que se feriam ao menor contato. O limpa-botas massageara as protuberâncias, aliviando o martírio de Pietro Paolini momentaneamente.  No entanto, o sequestro levara-o do camarote do engraxate para  aquele lugar ermo, de murmúrios em russo.  Uma coronada na nuca apagara o clarão.
Escalpelado, Pietro Paolini representava o sujeito amoroso sem que nunca houvesse amado.  Vulnerável, expunha a carne viva aos mais leves ferimentos.  Sob o poder dos sequestradores, Pietro Paolini permanecia com o cérebro mole e os pés em gélida nudez.  Ao abrir os olhos, pestanejaria nervosamente e confrontaria os seus malfeitores, sujeitos de cérebros doentios e inconsequentes, de pés calçados em botas e cadarços firmes, inclusive Madame Petróvska, ciente, desde a infância, da lista de crimes que cometeria.
Pietro Paolini, como um menino de pijama, riu de seu próprio medo e sentiu a urina arder a urticária entre as coxas.
“Façam-me um favor”, disse Madame Petróvska.   “Mudem as roupas dele.”  Vladmir, Boris e Sorokin, membros da Sociedade Cirúrgica Russa, assentiram providenciaram roupas brancas e limpas.

Compressão

“Os loucos são o sal da Terra, e se eles perderem a loucura, piramos todos.”

A Pigmaleã e O Barítono Galante:1  Ludmila pretendeu esculpir o homem perfeito com a mesma técnica de Noguchi para lavrar asteroides.  Sobre a cama de Procusto,2 não se faz amor.  Ah, amor, a soma do Eu+Eu, ria-se Ludmila ao acender a árvore do riso e do pranto! A armação de ferro serviu de moldura para Pietro Paolini, antes gorducho e fanfarrão.
A terceira e invisível mão de Ludmila delineou as partes do corpo que foram retraídas e as outras, alongadas, resultando em um homem mais soturno, que abaixara não apenas calças mas também a crista do galo.  Apesar do suplício infligido sobre ele pela antiga amante, Paolini ainda insistia na nostalgia pelo cãozinho Zamor.  Era teimoso.  Desta teimosia, Ludmila não o livraria pois a cama alterava a forma, humilhava o espírito até a epiderme salpicada de pelos e pintas grandes, médias e pequenas mas não apagava a culpa.  A pedido de Ludmila, um cirurgião russo fora capaz de raspar a gigantesca pinta de nascença fincada sobre a sobrancelha esquerda.    A mãe de Paolini costumava dizer que a pinta sobreviera ao beijo de um anjo vingativo; o pai amnésico sugeria que o sinal representava o ovo da avestruz perdido em um deserto de cujo nome não se lembra.
Paolini segurou as barras da cama de ferro que o moldara.  Sentia a presença de Ludmila Petróvska soprar no cativeiro onde ela o mantinha sob os cuidados de Sorokin.   Paolini tentava falar apesar da boca inchada em um sorriso horroroso.  Ouvia o balanço dos brincos de marfim da mulher a meio lume, o ruído o fazia pensar em sexo.  Rosto, onde estaria o rosto dela?  Da posição em que se encontrava, enxergava o penico e o fato de que não poderia pegá-lo.  Recobrava os seus sentidos. Os braços haviam sido retorcidos, o seu corpo inteiro doía.  As roupas limpas com as quais os camaradas o vestiram agradavam-no, cheiravam a sabão de coco.
– Ludmila, é você?
– Reconhece a minha voz?
-Latoschka,3 como iria esquecer-me?
-?
-?
-?
-?
(Não há AMOR na CAMa de PROCUSTO que se assemelhava ao leito de Sodoma.  Ludmila fantasiava o barítono a cantar árias da ópera.  Ludmila era uma mulher muito abaixo dos anjos.  Ninguém suspeitava que tivesse alma. Entretanto, gostava de óperas, não se conformava com as tramas e modificava-as a seu bel-prazer. E se Desdemona, cujos trajes vestia, houvesse sido culpada de adultério e não morresse sob Otelo?)
Estamos na cena ideal que sai da televisão, ou de um sonho e vem viver em cima de você. Giram os desejos, vestígios da carne e da consciência.
Pietro Paolini convidou Ludmila para um passeio no carrossel. Roda que roda, eram jovens e habituavam-se a uma felicidade nova.  Quando naquele momento, Pietro empurrou-a para fora do carrossel na tentativa de sentar-se sobre o cavalinho árabe negro, o mero acidente foi interpretado por Ludmila como tentativa para matá-la.  Desde que viera da Rússia para Nápoles, dedicara-se à carreira do promissor barítono, ignorara as inúmeras tentativas de Paolini para conquistar Sophia Loren e acreditara que arrancaria alguns dos espinhos dos músculos cardíacos do homem-objeto do qual se apropriava.
Abandonam a cena do carrossel e os dois corpos se encontram em um vagão asfixiante do metrô de Tóquio e o rosto de Noguchi padece como os deles amassados contra a janela do trem imóvel no interior de um túnel a quinhentos metros da superfície.  A gigantesca pinta da testa de Paolini é um tentáculo que o gruda no vidro temperado.  Os olhos sabem que os russos estão a espalhar submarinos com mísseis pelos oceanos, submarinos com pele absorvente de ecos e com sistemas de propulsão com silenciadores.  Ludmila, já naquela época, recebia informações privilegiadas.  As autoridades de Lubyanka permitiram que desfrutasse do sol napolitano descrito por Ferrante e corresse mundo desde que pertencesse à rede de agentes treinados para a rota das galochas, como também no caso de Afrika e Hernandez e se especializasse em venenos.
Noguchi nos contou que a temperatura no compartimento ultrapassava os cinquenta graus e ninguém era avestruz para suportar o mau agouro de um deserto molhado como a Islândia.  Se as portas se abrissem, iriam aventurar-se pelo subterrâneo escuro.  Só que o condutor do trem recusava-se a apertar o botão que os libertaria do confinamento e a sensação era de quem se encontrava num submarino.  Diante do avanço dos ponteiros, os passageiros começaram a despir-se e o mais louco de todos disse que manteria apenas a gravata vermelha para cobrir a barriga que não possuía enquanto era o pênis que dava a volta no pescoço.
O espetáculo de Pietro Paolini na ópera de Tóquio onde encenou Nabuco, Rei da Babilônia, foi bem recebido pela crítica e os jornais japoneses exaltavam a sua voz com unanimidade.  Não se percebeu a rouquidão que o incidente metroviário lhe causou.  Aquela fora a última viagem de Ludmila como assistente do barítono. O Alto Comando posicionou-a em algumas missões da guerra fria e, depois de alguns anos, entregou-a à guerra suja da América Latina.  Para sua sorte, Ludmila Petróvska nunca foi enviada à India central onde se sacrificam as bruxas.
Um remorso ameaçou Madame Petróvska ao largar Pietro Paolini como prisioneiro no aposento recluso da casa e não lhe servir coelho assado com ameixas.  Não é que se compadecesse do homem.   É que, no interior do oco deixado pela alma, Petróvska percebera que desejava o monstro de volta, aquele que tanto a magoara, e não um Pietro Paolini que se submetesse a uma dieta de sopas ralas de ervilhas sem reclamar, a laia de um marido cansado.  Simultaneamente, Paolini, havendo percebido que Ludmila recuara e se ausentava, começou a tremer dos pés  ao cérebro sobre os ferros frouxos da cama.  O terremoto de 1882 se repetia.

___

No canteiro da casa, Ludmila plantara duas árvores ricas em virtudes.  A primeira alcunhara de Calvino porque era a árvore do espanto conforme a folhagem despontava ou secava, riso ou pranto.  A segunda recebera o nome de Borges apesar de pequenas modificações imagéticas.  Esta árvore não continha folhagem e soltava penas de pavão.  Acontece que o azar amaldiçoa as casas com penas de pavão em seu interior, provocando a cegueira.  O movimento sísmico separou as árvores uma da outra.  Tal como a mão apressada apanha a flor, a outra toma a espada abandonada e a terceira mão cumpre a obrigação: dar o nó na garganta.  Madame Petróvska fazia muito o uso da terceira mão.  Pietro Paolini que a esperasse.


1 Em referência a Pigmaleão e Galatéia.
2Procusto, um ladrão grego, provocava o suplício de suas vítimas colocando-as em uma cama de ferro que as modelava.
3 Andorinha em russo.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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