III POEMAS
in As Naus Insonhadas

a K.
Porto de Zea

Não nos sabemos despedir, aportamos,
sempre, excogitamos batalhas, dilaceramos
o espírito, nas ocupações, nos detalhes – prisioneiros,
das minudências, prisioneiros – na popa
ou nos fundos, remeiros ou timoneiros,
aportamos,

Um espaço movediço, a aríete das pernas
dos navios, das cargas, na senda de algo,
o quê – bagagens prontas, bagagens
desfeitas, recordações
ou tralhas,

Não nos sabemos despedir, aportamos,
sempre, não vamos para aquele
mar, aquela ínsula, com côvados
exactos, presentes, vamos,
mordemos a passagem, subimos
a um outro batel, aquele
que temos escondido – nesse
porto,

O corpo é um batel, com tudo
lá dentro, um arcabouço, coisas
que ainda não são, por ser

O corpo, com tudo
lá dentro,
e
a alma
aportamos

Desnorte

…sobre todo o mar até os confins da terra e às fontes da noite
e aos desdobramentos do céu e rumo
ao antigo jardim de Phoibos.
Strb. Geo. 7.3.1.
A agulha pendulava, sem se decidir,
já não importava a tramontana, só
as peugadas que deixaras orvalhadas
sobre a granícula fina e morena da terra,
confundindo-te na estreitura matemática
de uma floresta de choupos, na soberbia
absoluta do teu corpo, que espreguiçavas
de leve para filar as estrelas; um cinturão
que coroavas sobre os meus cabelos,
deixando a cúpula negra e vazia para os
viajantes;
[só os pés magros e despidos,
preenchendo as sombras, para onde,
para além, para além do vento norte,
só o silêncio nos lábios estrigosos,
Impenetráveis,

E eu seguira-te, empapada no lençol
do teu dorso, como uma camisa de
verão; trouxeras as coordenadas
precisas, no entalhe do teu rosto
total, como um príncipe grego,
romano ou persa, com que cunharas
mil moedas de bronze, com que fizeras
tremer os formões de Agesandros;
[para onde, para além, para além
do vento norte, que aqui os rios são breves

e estanques, e tu saciaras o Eridanos com a
tintura azul-violácea dos teus olhos, a
jorrar intérminos como as lágrimas de
âmbar dos alámos;

Já se escuta o chorar das liras, o ciciar
das flautas, em todo o areal deserto e
ensopado do manto do mar; não há
madrugada, decidiste, com as leis

do teu país distante,
[para além, para além do vento
norte, há um festim de todas
as nereidas, faunos e vinhos, e tu
pausas
o tempo.

Thysia

Que vivas, que vivas, as vogais interpelam-se
em aluvião, galgam sobre um azul perfeito,
quase artificial, escorrem pela
meia-manhã, mais exalantes que as coníferas
e o ardor dos fogos invernosos; não sei se
cantam o teu nome, embora os santos e
cronos aborreçam a tua existência,
[volteia as costas às tábuas unímodas
dos ícones, não decepes o seio de Afrodite,
mas não deixes que deuses e senhores,
se repastem nunca das tuas vísceras;

Estalejam os tenares dos pinhais em
ovação, que vivas, que vivas muitos
anos, tens as cinzas dos olivedos
repousando sobre os ombros, nada
mais necessitas, aqui o lenho da
tua casa; chilreiam várias aves, ou será
a infância, a música confunde-se, canta
sempre sem propósito, canta
por cantar, mesmo sem braços,
pernas, ou párpados, como vira
regurgitadas pelas correntes do bóreas,
as crianças, capotando nas praias
sem vestimentas, sem arnez, e
com a alma inteira;

Que chegues a velho, de cabelos nivosos,
com a espuma e as pérolas brancas do mar
que o pescador te brinda, num sorriso
fissurado de todas as marés; que
espalhes por toda a parte, a luz,
como a anciã derrama na tua saca
o néctar das laranjas, sem que tu lhe
peças, sem que tu lhe ofereças,

[e os céus, e as árvores, e os pássaros e
os deuses dirão,

eis aqui
um homem sábio.


Helena Barbagelata (Lisboa, Portugal, 1991). É licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Desenvolveu estudos de investigação em Língua, Pensamento e Cultura Helénica na Universidade Nacional e Capodistriana de Atenas. Colabora como autora e ilustradora em diversas publicações, destacando-se: Revista Subversa – Literatura Luso-Brasileira, Diversos Afins – Entre Caminhos e Palavras, e Mallarmargens – Poesia e Arte Contemporânea. Participa em antologias no espaço latino e tem sido agraciada em vários concursos internacionais. É curadora de Literatura lusófona e de artes visuais da Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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