Tátil, poema fluxo

tátil

dos seus olhos surgirão as imagens azuis do mundo

meu corpo, caindo, vai cair no seu.
seu corpo não é duro, ele se dá
à maciez como fosse vento que acaricia abismo
e desfaz as bainhas dos vestidos.

meu corpo, caindo, vai cair no seu.
porque minha ruína vai ser o amor
do mistério como mistério, como deve ser,
sem ser resolvido ou desdobrado.
porque quando o desdobro, como se desdobram

dedos ou braços ou mechas de cabelo
já ele não é mistério
e as coisas que não são mistério
são eu, com meu coração que solta tinta
nas mãos dos outros.

dos seus olhos surgirão as imagens azuis do mundo
e eu, a bem da verdade o que queria
era roubar os seus olhos.
ver se eles soltam tinta nas minhas mãos também.
a bem da verdade preciso dizer
se não se volta com as mãos sujas
não valeu a pena ter saído do lugar.

mira

rasgo dois pedaços do céu sonâmbulo
e todas as noites você flutua sobre os meus abismos
na cama
você também uma série de abismos casa bem
com meu desejo pelo escuro pelos pequenos pontos de luz
na densidade do petróleo

você é todos seus cabelos pelos ombros
seu olhar fixo e extraviado
caminha pelas escuridões de dentro e toda vez

que eu te vejo quando dobro uma esquina
tenho a impressão estranha de estar olhando uma carta de tarô
que me diz tudo e nada
ao mesmo tempo
tenho a impressão estranha de estar olhando pra dentro
pra uma voz e uma luz familiar
não se engane: tudo deixa rastros

o sol deixa rastro na minha pele
se aloja nos meus ombros
como todos os dias
deixa rastro em mim o seu veneno
por isso você cheira meus cabelos como a loucura
me cheira os cabelos já de outras vidas
como a loucura dança em volta de mim leão
que ama seu domador

faço minhas orações na beira dos abismos
onde vou atrás da pérola da pedra do acaso
do aniquilamento
rezo pra que o veneno não seja fatal
ainda
pra apenas acordar do outro lado da cama
com os olhos mudados de cor


Jéssica Martins Costa (Belo Horizonte, 1992). Poeta e tradutora, autora de Bubuia (Editora Patuá, 2017, no prelo).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Jéssica Martins Costa

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