Os que amaram

Conheci você na subtração dos anos.
No auge da época vulgar,
Em que feitiços de amor e afeto
São quebrados imperativamente em algum lado.
O pior não é a permanência se tornar uma palavra absolutamente desmistificada;
Nem os sentimentos, aqueles que sempre sobram, os resistentes,
Defendendo as lembranças muito mais que a si mesmos,
Debaterem entre si até a vaidade os converterem a um possível estado de quase ódio.
Onde mágoas e ressentimentos são inquestionáveis;
E o pior, nem mesmo é virar uma pessoa amarga.
O pior é o contínuo choque do saber irreversível
De que por mais que se passem muitos anos, o passado com as pessoas nunca
Se tornará uma prova convincente
E condizente
Diante da desastrosa condição de nossos desejos desbotados e corroídos
Por épocas vulgares em que aqueles que um dia amaram
Tornam-se vítimas irreversíveis de um destino ostensivamente esquecido.


Leticia Canedo (São Paulo, 1996). Escreve como forma de protesto contra si mesma.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Leticia Canedo

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