I

Toda a tarde, um progressivo desapontamento. A excitação inicial minada de dúvidas, pautada por perguntas surdas, por desconforto velado e uma vergonha teimosa. Um Porto tão desconhecido como aquele dia, tão novo como aquele sentimento. Acho que pensei várias vezes qual a desculpa mais adequada para abrir caminho até ao conforto da minha casa. Mas estava perdida. O sol já ia baixo e a companhia era tão agradável como a dor de cabeça que se me aflorava às têmporas. Que má decisão! Horas antes, soara excitante, temerário, diferente. Teria que haver uma primeira vez para tudo, e não me queria reconhecer na pessoa que tão frequentemente não passava da palavra à ação. Começámos bem. Uma qualquer desculpa para te acompanhar, uma dificuldade em encarar-te e um nervoso miudinho escorregando placidamente pelas minhas vértebras. Tu e eu e um contexto diferente. Eu e tu e uma história do teu passado que me fazia sentir como se possuísse um segredo. Estava ali algo que fora teu; agora nosso; e quanto muito teria aquilo. Engraçado como já nessa altura encontrávamos no mundo as mesmas piadas e eu já te tocava inconscientemente, atraída como a um íman. Verdadeira vontade de te beijar, no entanto. Encostado ao caixote da reciclagem no metro. Demasiado alto para o meu próprio bem. Metias-me medo. Juro que naquela tarde me senti assustada. Poderia tão facilmente ser uma daquelas histórias em que ela acaba violada ou espancada. Ainda me pareces verdadeiramente ameaçador, tosco até, mas a medula dos teus ossos estende-se na direção certa, o sangue das tuas veias conforta com calor autêntico. Uma viagem como tantas outras (sem tópico propriamente dito), mas agora já descodificava a alienação nos teus olhos. Era bom saber que afinal entendias português. Era ainda melhor saber que reparavas mesmo que eu estava na carruagem. Tanta vez fui eu, no meu sítio habitual, perguntando-me porque falarias tu com toda a gente menos comigo, repreendendo-me por sequer olhar para ti. Mais velho, sem nenhuma extraordinária beleza, parecendo completamente deslocado, extraordinariamente aleatório. E eu, pouco mais que uma sombra de mim mesma, isolada por opção (ou por falta dela), a saber que sonharia acordada durante a viagem de autocarro para casa. Mas aquela viagem foi diferente. Aquela tinha um destino que nos levava aos dois. Aquela tinha o formigueiro que as tuas mãos já haviam implantado na minha cintura e a curiosidade que se acentuara com o teu escrito. Só que agora o sol já ia baixo, num vértice da cidade que ainda não era o meu, e o arrependimento latejava por trás dos meus olhos. Ninguém te tirará a razão quando disseres não ter jeito p’as raparigas. Mas a vista era bonita, e senti-me ligeiramente menos objetificada quando a vi da tua varanda. Uma confusão de impulsos, entre explorar atentamente as tuas prateleiras ou dedicar a alma ao rio. No final de tudo, é sempre a luz que leva a melhor de mim. Tenho consciência que o teu meio riso e o teu toque nas minhas omoplatas, que ao de leve impediram o meu próprio relógio de me estrangular, obliteraram os remorsos pelo chocolate que, por hora, ainda não arrancara da tua mão com os dentes. O vento afagava calmamente o céu cinzento e a dor de cabeça cessou enquanto absorvia a paisagem. Será para sempre uma das melhores molduras que o Douro tem para me oferecer. A respiração evadiu-me quando estendeste o braço e ficaste a pairar atrás de mim. Não me tocavas tu, tocava-me a antecipação. Sei que falámos. Rotineira e desinteressadamente, sobre o mais fácil dos temas de entre todos os que temos em comum. Naquele espaço, eu queria apenas prolongar o momento. Deixá-lo invadir-me, preencher-me, até que a sua presença fosse tão intensa que esmagasse o que restava de coerente no meu raciocínio. Em algum momento, te apoiaste no meu ombro, sem dúvida o despontar de um Titanic. Encarar-te foi fruto da pressão, talvez da que o meu coração exercia nos meus pulmões. E lá estavam, outra vez, as tuas mãos e a minha cintura, e as saudades que vou ter da sensação dos teus braços. A minha testa encontrou idioticamente o teu peito por duas vezes, enquanto eu tentava em vão concetualizar o que era um beijo. Mas tu sorrias, e o mar dos teus olhos reluzia, e os meus pulmões precisavam de uma injeção do teu oxigénio, já que desaprenderam a sua autonomia. Acho que me perdi: as sensações eram de mais e em tanto lado; e o único neurónio funcional gritava instruções que não faziam sentido. Deixar-me levar parecia tangivelmente inalcançável. Mas pegaste-me na mão, disseste ‘anda’, e eu fui, fitando o meu reflexo no vidro. Sei que me sentei ao teu lado e que, algures em mim, uma célula velha perguntava às restantes se estavam a delirar. Foi um coro de “sim” e lá estavam as tuas mãos outra vez e a tua boca e o primeiro gesto do teu caráter que vi. Percorreste-me o corpo sobre a roupa, e eu deixei. Percorreste-me o corpo sob a roupa, e eu deixei. Percorreste-me o corpo sem roupa, perguntaste se eu deixava, e eu deixei. Pensei, mais que o que senti, o ato em si. É uma desilusão que não surpreende, honestamente, e não é ofensa a nenhuma das partes. Deixa a expectativa de uma próxima e enfatiza a tua postura. Ainda tenho a vertigem da tua mão na minha coluna e finalmente entendo porque dizes ser um lobo, embora agora saiba que sangue de lobo também conforta. Também cada vez me desaponta menos ser boneca de plástico em vez de porcelana, e não retiro o beijo que a analogia te ganhou. Aliás, não retiro nada do que tu ganhaste de mim.

II

O mundo é uma bola de neve. Os locais sucedem-se, repetem-se, e os mesmos momentos estendem-se por situações que não são unas. Soube há tão pouco… Aquele beijo de despedida soube há pouco. Talvez já aí tudo fosse simplesmente pouco. Os fiapos do meu espírito ainda se debatiam em opiniões e tu conquistavas para Norte de mim o território que perdias para Sul. Não sei como te atreveste a explorar tanto em tão pouco. Eras brusco e engraçado, misteriosamente desajeitado, tão indefinível, tão indeterminável. Foste inominável como as minhas emoções, e guardo aquela noite como símbolo da nossa indefinição. Os vultos vagos que se amontoavam, as vozes indistintas, a liberdade da interação são joanina e o frémito que me possui quando o fogo ilumina os céus. Mas em tudo a noite foi incompleta enquanto não estiveste lá também. Entre as estrelas e as lanternas, o apito foi um ímpeto. Não achei que durássemos, mas queria um pedaço teu. Queria colher mais uma história. Símbolos, frases, fotografias, … eternizar instantes porque não posso assegurar estados. Um carpe diem corporalizado, já que é tão raro ele tocar-me o génio. Há tanto que podia ser dito que os flashes sucedem-se cabisbaixos, lamentando a sua não eternidade. Quero tudo, menos saltar as instâncias do poema que somos, mas tenho que me relembrar que nem todos os versos são citações. Espero que recordes tudo também, pois não quero pesar as memórias sozinha.

III

Venero este momento com a adrenalina e a culpa que a criança que tu um dia foste, deve ter sentido ao devorar os chocolates que, presumo eu, roubaste da árvore de Natal. É nestas analogias que percebo o quão pouco sei de ti, e foi nesta tarde que percebi o quão mais tinha vontade de conhecer. Permiti-me sonhar que a vida era um livro e a tua presença a companhia mais antiga do mundo. Tão simples, tão despreocupado, tão prazeroso, tão novo, tão eu e talvez tão tu. Ainda acredito que nos surpreendi aos dois. Eu, o malfadado prodígio do isolamento físico; eu, o pináculo dos silêncios infinitos, nos quais até a minha garganta se surpreende por conseguir conter metade dos pensamentos que me acometem; eu, que atraí de volta o curto circuito que me provocas de cada vez que te aproximas, qual campo de forças, presente, mas indistinto. Aqueles debates postos à mesa, servidos com uvas e olhares, prelúdio à dança cinemática da culinária; o tempero das minhas expressões no à-vontade dos teus movimentos; as provas da tua pele; o degustar ébrio da minha liberdade; a tentação no sorver do teu desejo; a emancipação do meu Pessoa afetivo. Caricatas perdas, despropositados telefonemas e uma fusão do teu sentido de humor com a minha inusitada felicidade. Serendipidade guardada num frasco, uma pequena sobra para quando faltar a vitalidade à preparação da merenda. Soube, na promessa de futuro que selou aquela noite de luzes, vinho e filosofia, que me seria muito difícil reclamar a hipoderme.

IV

Se me arrependo de algo foi de não ter te fotografado mais. Ai… a parte de mim que não te quer largar anseia por imortalizar-te! Deve ser um curioso instinto de artista. Guardo docemente o primeiro dos três trágicos dias, aquele em que me contemplaste digna do teu caderno de esboços. Guardo a raiva da tua incredulidade, a minha dificuldade de expressão, a frustração desiludida que exauria os meus poros. Não sei repetir o que disseste, mas sei que nessa tarde te vi pela primeira vez. Guardo o choque do carinho no colo daquele abraço e ilumino-me naquela gargalhada solta ao auge da tua irrazoabilidade. Não, não o somos. Nunca o fomos. Valha-me um deus que não existe, se alguma vez fizemos fosse o que fosse com sensatez. Escravos dessa fraqueza humana que é a carne, dirias tu; servos desse alento humano que é o toque, digo eu. Recordo o palpitar nas pontas dos meus dedos, no desejo de te tatear; o pulsar do sangue na minha língua, no desejo de te falar; o incessante discorrer de pensamentos que barrou passagem a estas ações. Sei da parte de mim que se amaldiçoou pela temível incapacidade de me revelar, entregar, confiar, que me fez fundir com a penumbra. Sei do nosso adeus e da primeira vez que me senti incompleta, do fim de noite que passei naquela esplanada que odeias, tentando elencar o que foi que perdera. É por impulso que menciono o quão repetitivo eu não sonhava ainda que se tornariam aqueles telefonemas no percurso até casa, em que as hormonas me inebriavam as consequências das nossas falhas, e a irritação alheia pulsava nas minhas veias febris.

V

Acho que o filho de um pirilampo futurista me avisou que a luz, quando vem de dentro, não se apaga ao botão. Não sei ao certo o que esperava daquela noite, mas lembro-me de me saber bem estar ali contigo. Depois de contida a pontada irritante que me espicaçava o ego, relaxei o suficiente para devanear sobre aquela primeira noite, meses antes, quando me era já impossível não ver a mutualidade das minhas fantasias. Levas sempre a melhor de mim, porque negar-te é negar-me a felicidade, e o meu crivo moral é uma besta ténue. Mas as tuas piadas arrapazadas são confortáveis e ainda me fascina a descoberta de que vives neste século, neste mundo, e não num plano espiritual paralelo onde o passado e o futuro são uma névoa indistinta. Não sei tornar lírica uma noite de copos. Mas sei que me deixei embalar na inconsequência e que apenas considerei vagamente o que seria dizer adeus à noite nos Aliados. Ir para casa comer uma taça de cereais e sentir-me adulta. Sabia a resposta antes de subir metade da rua, antes sequer de atravessar a estrada, e sabia que me iria condenar quando o metro partisse sem mim. Também sabia que não voltaria atrás e que não me negaria uma segunda vez aquele cenário. Tudo se desenrolou com a estupidez que sempre está associada a estes eventos, mas tu sorrias por entre a conversa banal e adivinhaste mancheias dos meus pensamentos. Sou uma louca iludida, mas achei-te detalhes que desconhecia, numa faceta tua que ignorava, e mais uma vez senti-me possuidora dos segredos do universo. Não te perdoo o clique de espírito que me provocaste no entendimento, e agradeço o nascimento de inspiração para a prenda que não sabia ir dar-te, durante aquela caminhada animada nos meandros de um Porto noturno e novamente desconhecido. Marco a primeira vez que afoguei a parte de mim que me dizia que não devia estar ali. Oh, eu sabia bem no meu íntimo que é difícil negar a um passarinho o seu primeiro voo do ninho. Há algo poderoso que vem de saber que influenciamos outrem, que mexemos com essa pessoa, que temos um qualquer impacto. Saber que podemos ser desejados até ao âmago, ser desejados pelo âmago. Parece uma futilidade carnal e, porventura, não transcende isto mesmo, mas é uma refrescante redenção. Naquele momento, eu senti que já não enganávamos ninguém e que não queria combater-me. Havia a desculpa das horas, do álcool, da irrazoabilidade, …, a desculpa do nada porque não eram precisas desculpas. Recordo a calma com que me tocaste, o desejo a ensombrecer-te o azul dos olhos. Recordo o formigueiro na minha pele e o tempo que demorei a deixar-te beijar-me, como se precisasse de ser persuadida a ceder à mais íntima tentação. Há atos teus que me consomem, e a ternura com que me aconchegas o cabelo é um deles. Desde aquela primeira vez, sou viciada na simplicidade desse gesto, e senti esta profusão meiga encher cada suspiro daquela noite. Não sei se sentias que me perderas e que muito ficara por fazer, mas me deste um trono e uma coroa e me elevaste acima de qualquer banalidade. Pergunto-me se chegaste a perceber porque é que me congelas o cérebro, e se tens finalmente a certeza de que é algo indefinivelmente bom. Dormi menos de nada. O teu abraço nunca me sossegou os sentidos. Mas sei os cheiros e os sons da rua matutina, e sei da minha incapacidade de estender a mão para ti e de pronunciar o conteúdo do meu cérebro, agora em ebulição. Tudo o que se sucedeu foi uma mera antecipação à minha oportunidade de meditação, a outro telefonema de fundo até casa, a mais dúvidas a infiltrar as semanas seguintes.

VI

Tudo o que se sucedeu foi um vácuo no meu mundo, o último fôlego antes de colapsar novamente, sabendo que mais uma vez ninguém lá estaria, mas esperando que te oferecesses para o cargo. A tua preocupação foi palpável, a minha dor tangível, e teria dado tudo pela liberdade de um abraço, por poder transferir parte do meu peso para o teu colo. Será que sabias? Será que viste nos meus olhos que nada era em vão? Ou será que até o magma de mim eu sei encobrir? Havia tanto que eu ansiava por dizer, mas as palavras não fluíam, as lágrimas não brotavam. Pensei que me pudesses devolver a capacidade de chorar. Queria ter te olhado pela alma adentro e deixar-te beber dos meus sentimentos, mas nem coragem para me expor mudamente tive. Mas tu ouviste. Não falaste muito, mas disseste o essencial; e ouviste. Se senti que o crepúsculo me roubou o ar e a ti to devo, também tu me deves a mim a faca que te dei liberdade de usar. Acredito piamente que foi um erro não te ter dito logo que magoaste mais que o que eu achava possível, mas eras ainda assim um mero espectro do futuro que não seria. Aquele mês foi um reconquistar e um reaprender. Doeu e saudou, mas me senti capaz de nos equilibrar. Acho que o fiz tão bem que não tardou assim tanto a que nos despenhássemos outra vez.

VII

Somos um ponto de encontro desunido, e não sei se escrevo isto meramente porque as palavras ficam bem juntas, ou se realmente encontrei uma definição que nos é aplicável. É tudo muito tenso. Eu sou muito tensa, os olhares são muito tensos, os devaneios são muito tensos, tu és muito fraco e eu não quero propriamente combater nada. Havia eletricidade no ar, demasiada proximidade, tudo muito condensado num esforço de passar despercebido. Não sei em que ponto do dia é que disseste ‘fuck it’, mas exaspero teres-me levado atrás. Sinto a falta de um retrato como postal desse dia, mas sempre tenho o rio e o percurso e a tua confusão matinal. Ainda sinto uma seringa no coração por não ter juntado aquele instante à coleção, por ter blasfemado na calma do lugar com problemas insolúveis que merecem menos do que o menor grau atencional. Mas estive lá e tu também, com o jovial sol e o paciente rio. Tenho apreço por aquela tarde porque foi agradavelmente descontraída. Natural, embora igualmente irrazoável. Não tinha considerado que voltaria a saborear-te e não sabia que teria oportunidade de relaxar na tua presença. Foi uma conquista saber que me era mais fácil partilhar memórias, que era simples comentar histórias, que era possível ter iniciativa, que não magoava desinibir-me. Foi bom sintonizar e desprender do constante olhar ao futuro, viver aquilo porque sim, à sombra do quão caricato tudo era para mim.

VIII

Tens um modo muito próprio de me assegurar que não sou eu que estou doida, mas sim o mundo à minha volta. Uma forma muito tua de me ancorar a perspetivas que paradoxalmente me libertam. Às vezes penso se não terás as ligações feitas em sentido inverso: um circuito interno quase cego, e um circuito externo que vê amplamente a humanidade, explicando o seu funcionamento globalmente travesso através da transfiguração de uma ínfima peça. É como explicar o mais tecnologicamente complexo LEGO do mundo através do modo como um bloco de seis encaixa num bloco de quatro. Irritante de tão reducionista, mas irrefutável de tão metaforicamente lógico. Peço desculpa se o meu apaixonante discurso crítico tende a testar os alicerces das tuas aceções, e revelo que, efetivamente, já perdi mais batalhas que as que ganhei. Este meu modo alarve de nos conceber como únicos ultrapassa a arrogância dos meus atos, e talvez tenha sido arrogante fazer de ti fonte de consolo. Mas fi-lo e sei que foi uma boa escolha. Já me tinha levantado, faltava só a confiança para voltar a andar em público, e tu amparaste-me bem uma possível queda. E ainda assim não sabias o quanto eu queria depender de ti. Eu ansiava por mais e tu torturaste-me até ao fim, mas o que descobri de ti impulsionou-me para um ponto de não retorno. Deste-me um paraquedas e eu saltei; sei agora que o meu paraquedas nunca se abriu. E tens razão, foi tão intenso que nem sei se foi bom ou mau. Acho que me intimidou a vulnerabilidade que vi nos teus olhos, a necessidade que perpassou nos teus trejeitos. E vi-te saborear cada gesto meu, vi-te sucumbir ao meu toque. Deixei-me explorar cada centímetro teu e senti-me capaz de amar. Não com o fogo de uma noite ou com a imaturidade juvenil. Talvez seja demasiado jovem para saber o que digo, mas não houvera, até aquele dia, um sentimento de ternura mais profundo. Não houve, até aquele dia, nada que me doesse no peito, me tirasse o fôlego, me implorasse ao anseio de confortar e ser confortada. E, naquele momento, quis saber pedir-te que ficasses; quis saber dizer-te para vires ser vulnerável comigo, para ficarmos sozinhos juntos. Vi naquela a última oportunidade para te dar mais de mim. Precisava que soubesses que estava ali, a segurar uma porta aberta enquanto subias as escadas, sólida como o betão que as sustentava. Não sei se fiz tudo o resto ou disse tudo o resto, menos o mais importante, mas sei que fomos infinitos. Sei que somos ilhas gémeas, de levadas complexas, mas cada vez menos confusas. E ainda abismo com os barcos que se amedrontam de atravessar o nosso mar. Somos uma floresta ruim com um coração de ar puro, e temos tanto para aprender sobre o nosso lugar na Terra. E sim, oh sim, definitivamente sim, são momentos como estes que me estão a matar agora.

IX

Pseudo-planos e expectativas multiplicam-se em ansiedades diversas, e o meu Eu desconexo teme a instabilidade com que suponho me perspetivas. Tenho medo de enlouquecer em algum ponto da vida. Vou defender o calor do sol pacato daquela tarde por mitigar a profusão de pensamentos da manhã que o precedeu, e vou dar vivas por ter finalmente apontado corretamente um momento. Tal como naquela primeira exploração em que me inteirei dos teus dotes para as panquecas, mordeu-me na língua “que me poderia facilmente habituar a viver assim”. Foram três dias de densidade variável, como um banho turco que sufoca mais que o que purifica. Desde o mais ordinário ao mais academicamente apetecível, à constante loucura de que a minha sensatez se alimenta e à indefinição do burburinho de medo que me recheava, um turbilhão de ininterruptos estados de espírito. Julgo que me autoavaliei mais vezes naqueles dias do que no último mês e levou-me todas as forças para encerrar a teimosa impulsividade. A indefinição dá cabo de mim. Aquela última vez levou o que restava entregar de mim. Tudo o resto que não conheças não é mais que acessório. Faltava levares-me as lágrimas. Essas fui ainda a tempo de não deixar despontar, não muitos sóis depois. Foste o equilíbrio de humor, revolta e compreensão. Foste, e és, respeito puro, e isso é um bem que poucos me dão. Talvez seja eu que não me fiz merecê-lo, talvez seja a vida que mo tenha conservado para tornar o teu mais especial. Quero saber se soubeste que me tiraste o chão uma vez mais. Quero saber se notaste como o teu corpo cálido aqueceu o meu espírito enregelado. Quero saber se adivinhaste o meu desespero naquele abraço, a minha carência naquele gemido. Quero saber se sentiste que me tiveste como nunca antes tinhas tido, que possuíste cada recôndito canto de mim. Não sei se tencionavas esvaziar-me tão completamente. Se te encheste do que devoraste de mim. Se sofreste a dor que eu sentia ser apaziguada depois de tantos anos. Valeu por todos os regaços que não tive em todos os momentos que os ansiei. Valeu por todos os futuros que não viveremos e por todos os passados em que acabámos sem começar realmente nada.

X

Sinto que deveria recordar com precisão a última vez que os nossos lábios se encontraram, como se recordam as palavras ditas antes do último suspiro dos mortos. Mas a verdade é que não. Não sei como foi, ao que soube e que se lhe sucedeu. Consigo imaginar e recriar as circunstâncias, mas não há um ponto definido no tempo. Sei ao menos que não foi um beijo de despedida. Não foi uma árvore plantada para assinalar a instância de uma tragédia. Vou suprimir a fatalidade lírica, nada disto se presta a lutos. Acho que te disse tudo o que pensara dizer. Acho que fiz tudo o que pensara fazer. Acho que agora sabes tudo o que deves saber. Há uma parte de mim que chora baixinho ao contemplar essas memórias. É um vácuo imenso saber que a pior das dores ainda há de vir, quando o tempo se mostrar infrutífero a ganhar-me a paz. Sabes que trespassa ouvir as tuas razões. É tão batalhado e parece tão fácil de resolver. Apetece-me arrancar a parte de mim que não nos merece enquanto me apetece esmigalhar a minha consciência por se atrever a formular tal pensamento. Foste dos maiores propulsores ontogénicos que alguém algum dia teve, e embora isso seja feio como elogio, acho que apreciarias a metáfora. Tens que cessar as lições de vida e apreciar o pragmatismo da análise social. Ter, não tens, mas seria interessante ver-te fazê-lo. Abandonar o pessimismo causal da potência espiritual dos nossos genes, e provar o mundo pelo conteúdo da asquerosidade das ruas. Essa fé na humanidade, ainda estou para encontrá-la. Para já me mantenho do lado inquisidor. Talvez não por muito tempo. Ou talvez por tempo de mais. Presumo que me tiveste desde aquela tarde de junho, e que nunca abandonarei por completo a alegria que cultivaste em mim. Espalhaste gargalhadas, dando vida a uma satisfeita caça ao tesouro que jogo sem propósito. Fizeste de mim gaiata, abrangeste-me de sapiência e tenho a agradecer teres sido tu. Se fosse para ser alguém, que ao menos fosses tu. Sei que um dia irei partilhar a pessoa que me fez despontar, que desinibiu os grilhões de mim, e sei que terei um sorriso no rosto e carinho no peito.


Daniela Pedro Ferreira (Viseu, Portugal, 1996). Correntemente a frequentar o mestrado em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça, na Universidade do Porto.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Nós vivemos os mesmos momentos, mas aparentemente vivemo-los de modo diferente, por Daniela Pedro Ferreira

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