Roberto é um homem extremamente amedrontado, arredio e retraído. Isso vem desde criança quando, sempre rejeitado, nunca conseguira brincar com as outras crianças, pois fugiam dele. Com um olhar oblíquo de estrábico, coxo da perna esquerda, ele ainda carregava uma protuberante corcunda nas costas. Na escola, que frequentou apenas até a segunda série primária, ganhara o apelido de Frankenstein; mas, na realidade, a sua feiura peculiar lembrava mais a figura de Quasímodo. Obviamente tudo se deve ao fato de a personagem da escritora britânica Mary Shelley haver se tornado mais popular do que a célebre personagem do escritor francês Victor Hugo.
Como todos os dias, com muita dificuldade, após despedir-se da mãe octogenária e cega, que cochilava numa cadeira de rodas, Roberto deixou o barraco paupérrimo. Entrou no ônibus lotado. No canto, totalmente isolado, sentou-se em cima da caixa de engraxar. Olhando torto de um lado para outro, procurou alguns clientes, mas usavam apenas tênis. O veículo balançava em solavancos. Vários passageiros cochilavam, enquanto outros discutiam futebol, novelas e política. Todos, inclusive motorista e cobrador, já conheciam o engraxate.
Na rodoviária, o ônibus estacionou na baia. Roberto foi o último a descer. Em meio aos transeuntes azafamados, com a caixa de engraxar nas costas corcunda, ele caminhou em passos lentos. A maioria das pessoas, num misto de asco, preconceito e medo, evitava passar perto do engraxate de cabelos desgrenhados, corpo esquálido e deformado, que vestia roupas esfarrapadas.
Nas lanchonetes lotadas de fregueses fazendo desjejum, Roberto procurou algum cliente para engraxar o primeiro sapato do dia, enquanto seus olhos tortos observavam as pessoas mastigando avidamente as iguarias gordurosas. Com o estômago doendo de fome, sem nenhum êxito, ele seguiu seu caminho lentamente.
Subindo a escada rolante, no meio da babel de vozes e sons, Roberto dirigiu-se a um bar localizado na plataforma superior. Aproximou-se dos clientes, com a mão em concha, pedindo uma moeda. Um homem com grandes olheiras, de tez vermelha, que bebia cerveja, encostado ao balcão, ofereceu os sapatos para engraxar. Roberto caprichou em seu primeiro trabalho do dia. Ganhou uma nota de cinco reais, sem precisar devolver o troco, e saiu com os olhos estrábicos brilhando.
Roberto seguiu caminho rumo ao “shopping” Conjunto Nacional. Tentou mais alguns clientes do lado de fora, já que não podia entrar no prédio frequentado pela classe mais abastada. Desanimado, sem conseguir nada, observado de perto pelo truculento segurança, seguiu taciturno para o lado oposto. Chegou ao “shopping” Conic. Ali sim, podia andar à vontade em busca de clientes. Frequentado principalmente pelas classes sociais mais baixas, o local abriga igrejas, bares, boates, cabarés, faculdades, livrarias, farmácias, salões de jogatina, bancas de jogo do bicho, além de sedes de partidos políticos. Trata-se de uma verdadeira democracia onde sagrado e profano, riqueza e miséria, luxo e lixo se misturam numa dialética maniqueísta.
No restante do dia, Roberto não conseguiu faturar mais nada. Sentado na caixa de engraxar, voltou à rotina de pedinte. Aliás, na era moderna do tênis, quase todos os engraxates se tornaram mendigos. A caixa de engraxar, carregada nas costas, tornara-se apenas uma espécie de ícone.
A noite, de um luar tênue, cobriu a cidade com um véu negro. Com os poucos trocados que conseguira, esquecendo-se totalmente da fome que corroía seu estômago, Roberto reuniu-se com outros mendigos debaixo de uma árvore. Bebeu cachaça no gargalo da garrafa que passava pelas mãos de unhas negras de sujeira. Fumou algumas pedras de “”crack”” com outros viciados. Filou um cigarro de um transeunte assustado diante da cena horripilante, que mais lembrava um campo de concentração nazista, protagonizada pela horda de seres esquálidos e esfarrapados, exalando um odor forte de sujeira, cachaça, urina e suor. O frio invernal, de vento cortante, castigava a cidade no mês de junho. Prostitutas e travestis, apesar do clima hostil, iniciavam a disputa de clientes ávidos por algumas horas de amor clandestino. Automóveis, entre buzinas, sirenes e fumaça negra, desfilavam pelo trânsito caótico.
Um grupo de rapazes, e algumas moças, berravam, xingavam e gargalhavam alto. Dois deles, com vozes roufenhas, tentavam acompanhar a música que saía do som estridente de um automóvel de luxo. Cigarros de maconha, além de muita bebida, completavam o cenário de loucura. Roberto deixou os companheiros de miséria, passando pelo grupo sinistro de bêbados ricos. Um dos homens, exibindo uma tatuagem da suástica no braço forte, fumando um cigarro de maconha, bastante exaltado, acertou do nada uma tapa na cabeça do engraxate, que quase caiu com o rosto no meio-fio. Os outros membros da confraria aplaudiram a cena tétrica, gargalhando ainda mais alto. O pobre coitado, impotente diante da situação, apenas encarou seu agressor com os olhos tortos, lacrimejantes, ensaiando um sorriso pálido que deixava transparecer os dentes podres. E, sem hesitar, com medo de apanhar mais, saiu coxeando sem olhar para trás.
Em passos trôpegos, longe dos bêbados fascistas, parecendo mancar com mais intensidade, Roberto finalmente chegou à estação do metrô, que se encontrava totalmente deserta. Na escada de granito negro, ele se deitou, ajeitando a cabeça na caixa de engraxar. Minutos depois, com frêmitos de dor, soergueu o corpo com dificuldade. Seu rosto se transformou numa palidez de cera. Os lábios se moveram trêmulos, tentando dizer alguma coisa em vão. Subitamente, diante de uma crise de alucinações, o engraxate inclinou a cabeça para trás e, em seu último estertor, sucumbiu na madrugada gélida de Brasília. Dois pombos, arrulhando assustados, em voos rasantes, abandonaram o corpo solitário estendido sob a noite lúgubre.
Ninguém sentiu falta de Roberto, nem mesmo sua velha mãe, que fora enterrado como indigente numa cova rasa. Ninguém sentiu falta de Roberto como ser humano, e como cidadão, que sempre sofrera preconceito, que sempre fora discriminado. Quantos Robertos ainda existem e vão sofrer o mesmo? Quantos vão apanhar? Quantos vão ser queimados vivos?


Vicente de Melo (De Uberaba para Brasília, 1960), é contista e romancista. Venceu o “Prêmio SESC de Contos Machado de Assis”, edição 2005, realizado pelo SESC-DF. Publicou “A Saga de Um Candango” (romance), “Contos Federais” e “Vidas Vazias” (contos).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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