O saber do professor Luiz era efeito de vários anos de estudos de sua trajetória acadêmica. Podia-se dizer ser um exímio docente, ou até um virtuose no manejo com as palavras. Seus acentos linguísticos eram graves, mas com uma sonata cognitiva in extremis. Amava uma moça do bairro onde morava. Podemos dizer que o local vivia cheio de flores e com vários perfumes. Uma viela que guardava nesse lugar o seu afeto insofismável por Vitória. Saindo um dia de manhã, ele ia para a universidade lecionar. Deve-se dizer que era um professor de retórica e lidava muito bem com os silogismos da lógica – um afortunado. Saía pelo dia raiado com um sorriso entre os lábios, porque encontraria sua amada a alguns passos dali. A jovem Vitória tinha um hábito atraente pelas manhãs: passeava com seu cãozinho para fazê-lo não ser um animal maltrapilho e gordo. Um costume de moça com seu cãozinho adorável. Ah, a sensação que pairou sobre a cabeça do eminente professor estava sendo perfeita. – Vou-me encontrar com a delicada e venturosa Vitória. Até rimou esse meu pensamento! Bem uma rima estranha, mas com um bom recurso mental dar-se-ia um dodecassílabo (riu baixo com a asneira que imaginava). Sou um homem de sorte por amar uma virgem e bela moça. Arrumado impecavelmente, andou com passos ansiosos e ao mesmo tempo contemplativos. Desejos não lhe faltavam, suspiros muito menos. Um jovem senhor se tornara um adolescente frívolo ao olhar de longe o seu querubim. – É ela, sim eu a vejo, é Vitória. O que faço agora? Vou mais devagar, um homem precisa caminhar tranquilo para não demonstrar frestas de seu insidioso coração a palpitar minutos a mais que o normal. Vitória pensava: – Ah! o professor Luiz logo passará por aqui. Será que me cumprimentará novamente? Será que serei privilegiada com o olhar sedento do homem galante? Ah! (inquieta) mas tudo deve ser a seu tempo, controle-se, Vitória! Tome lugar em seu mundo! Seja fria, seja paciente, não demonstre a olhos vistos o seu sentimento! Eles deveriam se encontrar. Era o destino. Que sortudo! Entretanto, algo aconteceria de forma implacável. – Vamos, homem, caminhe mais devagar e tenha uma postura solene! – divagava o professor. – É ela! – É ele! – Olha, o mundo dá voltas e estamos aqui novamente e sem acentos graves para este momento. Apenas a sensação de amor e fartura de amores – elucubrava o honesto professor. Aproximou-se da moçoila e lhe disse: – Perdão, mas está com um lindo semblante hoje. Será que lhe oportuno com este comentário? – Não mesmo, professor Luiz! Sempre é bem-vinda uma frase de lisonja de sua parte. Vai às aulas? – Ah sim, tenho coisas para fazer hoje. Por exemplo, de colocar uma sala de aula cheia de expectativas para um novo tema que escrevi ontem. – Qual será professor? – Sobre a lógica do amor. – Como assim? Há lógica no amor? – Sim. Ele existirá através da lógica do princípio da identidade aristotélica. Bem, esse tema é um tanto feroz para um dia belo e com um cheiro de rosas agradáveis. . – Fala mais, professor, sim, fala sobre esse amor! Ele tem pernas? Tem ancas? Tem fim? – Ah! e tem tentáculos. E tem um beijo! Vitória se ruborizou com aquela doce afirmação de Luiz que vinha a lhe aquecer a boca. – Bem, mocinha, eu preciso continuar o caminho, o acaso me reserva uma boa aula. – Sim, o senhor deve seguir. Ambos ficaram parados olhando um para o outro com uma saudade imensa. Tal como um adeus. Os olhos acinzentados de Vitória e os olhos enevoados de Luiz… Qual cor formaria essa mistura? Despediram-se cordialmente. E o cão latia, pois queria andar um pouco mais. – Essa mulher será minha para sempre. – Esse homem será meu para sempre. O professor, em efusão, deu alguns passos a mais e saiu com um solene semblante de conquista. Eu a amo, sim, como a amo! Que bela moça, que olhos ferinos! Serrarei os meus olhos agora para pensar no amanhã, em nosso casamento, em nossos filhos… De súbito, fechou seus olhos e divagou. Ao abri-los, na esquina da rua florida e suave, ele despediu-se da vida. Um carro em alta velocidade lhe deu um beijo. Um grande beijo! De longe, se ouvia um grito de donzela: – Por quê!?


Yvisson Gomes dos Santos (Maceió, 1977). Especialista em linguística pela UNICID/AAL. É escritor alagoano nascido em 1977, em Maceió (na terra dos índios Caetés).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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