Tínhamos demorado três dias inteiros para esvaziar a casa. Tia Beta nunca jogava nada fora. Antes, cada superfície estava preenchida por jornais de vinte anos atrás, embrulhos de presente dobrados para serem usados outra vez, controles remotos de tevês e aparelhos de som quebrados há muito tempo. Era trabalhoso, não difícil. Quase tudo tinha ido parar nos grandes sacos de lixo pretos, agora alinhados na calçada. Estávamos cansadas, eu e minha prima Juliana. Tia Beta não tinha filhos. Essa era nossa herança: resolver as pendências braçais que os irmãos da morta já não tinham idade para fazer.
Paramos para tomar um copo d´água, contemplando o recém-criado vazio da cozinha. Enfim começava a reconhecer a casa onde brincávamos na infância, que eu não visitava há pelo menos dez anos.
– Você lembra? A gente brincava de caverna debaixo desta escada.
Nós brincávamos em todas as partes da casinha geminada, inseparáveis como apenas crianças da mesma idade podem ser. Fazíamos tudo juntas. Às vezes dormíamos lá, nos sofás que tia Beta disfarçava de cama, conversando noite a fora.  A vida adulta ainda não tinha nos mostrado que não tínhamos nada em comum, que dali a alguns anos ela me faria a mesma pergunta sobre o meu trabalho e eu a mesma pergunta sobre as crianças em toda santa festa de família.
– Será que ainda tem a laranjeira?
Juliana tinha menstruado primeiro. Ela que começou a falar sobre meninos, a roubar o batom da minha tia e a recortar atores de cinema de revistas. Uma vez, Tia Alberta saiu para o quintal com uma faca e colheu duas laranjas, que descascou com cuidado, sentada sobre um degrau, girando a fruta nas mãos, a faca a desenhar uma longa espiral de casca, o cheiro impregnando a pele. Nos deu a casca para brincar. Nunca jogava nada fora. A ponta da casca na mão pendia como uma fita. Fomos uma de cada vez, para não misturar. Rodei a casca sobre minha cabeça como a tia mandou, gotículas caindo no meu cabelo, o sol acentuando o cheiro de laranja. Rodei até romper, um naco da casca voar e cair sobre a lona que cobria a piscina. Nós três de pé, em torno de um pedaço de fruta. Tia Beta sentenciou: é um S, o nome dele começa com S. A brincadeira servia pra adivinhar a inicial do menino que gosta da gente. Não tinha ninguém com S na minha sala. A de Juliana também deu S. Depois descobrimos, sempre dava S. As frutas sabem muito pouco sobre o alfabeto.
Juliana tinha ido fumar um cigarro no quintal e gritou para eu ir lá ver. A piscina não estava mais coberta. Meu coração afundou, se escondeu em algum lugar entre o fígado e os rins. Não acabou. As tralhas preenchiam a piscina até a borda. Cento e cinquenta metros cúbicos de lixo.
Quis xingar tia Beta. Não o fiz. É preciso esperar alguns meses depois do enterro antes de admitir que às vezes temos raiva das pessoas que amávamos. Peguei um novo rolo de sacos de lixo. Ajoelhada perto da borda da piscina, rasguei o picote, violenta, e esfreguei dois dedos na borda do quadrado plástico, tentando achar a abertura. Não abria. Por que essas coisas são tão difíceis de abrir? Grunhi e amassei tudo. Juliana se agachou e abriu o saco em
um movimento simples. Deixou-o ao meu lado e rasgou outro para si. Eu jogava as coisas para dentro do buraco negro de plástico, sem nem olhar. A escada da piscina, de metal carcomido, sumia entre caixas de sapato e torradeiras quebradas.
A superfície era feita de bugigangas recentes. Latas vazias de biscoitos amanteigados, cadeiras de praia, geométricos vidros de perfume.
Conforme eu e Juliana enchemos as barrigas brilhosas dos sacos de lixo (salvando pouco, uma caixa com fotos, um castiçal bonito), atingimos camadas mais antigas de entulho. Um telefone de baquelite, tapetes enrolados e embalados. Agachadas na beirada, não alcançávamos mais os objetos. Desci pela escadinha, tentando firmar os pés naquele chão desigual. Ia passando as coisas para as mãos estendidas de Juliana. Um espelho escurecido, a mesa de dobrar que ela montava aos domingos, o balanço que ela tinha pendurado no quintal para a gente, agora um quadrado de madeira envolvido pela corrente, um carretel. Suada, com as mãos negras de poeira, caminhei para a ponta mais funda da piscina. Alguma coisa cedeu debaixo do meu pé, o tornozelo se dobrando em um rasgo de dor. Caí com o rosto a centímetros de um ventilador desbotado, partículas de sujeira se levantando,
pousando na boca e no nariz. Ao lado dele, nossos nomes riscados a caneta em uma caixa. Exausta, empurrei o pacote para cima. Juliana rasgou a tampa e ia me mostrando, dali de cima, todas as nossas coisas, dobradas, cuidadas, ensacadas.
Pijamas de flanela e as xícaras em formato de bichos. Uma grossa pasta com desenhos. Duas pequenas escovas de dentes. Fomos esmagadas pelo peso do amor da Tia Beta. Chorei o suficiente para encher de novo a piscina.


Nathalie Lourenço (São Paulo, 1984). É redatora publicitária e tem contos publicados nas revistas Philos, Flaubert, Vacatussa, Parênteses, Blecaute! e Quincas. Também é parte do coletivo literário 9s/fora e escreve no blog sabedoriadeimproviso.wordpress.com

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Arqueologia, por Nathalie Lourenço

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