Depois de vinte anos, retorno à minha cidade, em Minas, com meus filhos. Ela tem um nome esquisito – Caxereamuçu – e é um ovo, mas é a minha cidade. Ah! Saudade! Infância, amigos, doces, alegria, brincadeiras… A vida às vezes é cruel em nos permitir relembrar o que passou.
Eu sempre ia ver meus pais quando eles ainda moravam lá. Depois que eles se mudaram e minha irmã os trouxe para morar com ela em São Paulo, nunca mais voltei. Faz vinte anos que meu pai morreu – morreu de desgosto de ter que deixar sua terra. Ninguém me tira isso da cabeça. Sua doença foi mais da alma que do corpo.
Os meninos ainda eram crianças, quando meus pais vieram de lá: o mais novo tinha uns dez ou onze anos e o mais velho uns treze. Foi muito triste e me desanimei. Não sou orgulhoso. Não é isso. A questão é: fazer o que lá, se todos que conheci estão mortos ou se mudaram também? Toda vez que volto sinto-me como uma múmia. Fico lembrando da infância, vendo tudo que mudou e isso só me faz mal. Há coisas do passado que, por melhor que tenham sido… Aliás, justamente por terem sido tão boas, precisam ser esquecidas.
Não viria sozinho. Não faz sentido. Ou melhor, faria todo sentido do mundo. Disso é que tenho medo. Estou na idade para enfrentar o juízo final? Isso é para crianças de catequese: os velhos não têm forças para isso. Por que acha que há tantos velhos nas igrejas? Falta do que fazer, com certeza, mas também medo. Quanto mais velho, mais frágil a gente fica. Aquela historia de sabedoria é conversa para boi dormir; ou então sabedoria é outra coisa; é não se preocupar com as bobeiras e se preocupar apenas com o que importa: seus próprios medos.
Isso lá é vantagem? Preferia ser um moleque aproveitando a vida e pensando que o mundo se resume a jogar bola e comer doce que a Mãe faz. Ah! Os doces que minha mãe fazia: que delicia! Gosto de inocência e de descoberta. O doce de cidra, então… maravilhoso! Nunca comi um doce como aquele. Que saudade! Minha mãe morreu faz onze anos e, até hoje sempre que vejo um doce de cidra de um lugar que ainda não experimentei, compro para saber se acho um tão gostoso quando o da Mãe. Nunca achei e nunca vou achar.
Minha Mulher cozinha muito bem, mas doce de cidra igual o da mãe não existe! Uma vez apanhei tanto! Comi o tabuleiro inteiro, escondido, e era pro meu irmão, Renato, vender O Renato era deficiente e a Mãe fazia doces para ele vender e poder ajudar do seu modo no sustento da casa. O pai me bateu de tirar sangue. Quase quebrou a vara de marmelo nas minhas costas. A Mãe depois veio me dizer com aquela vozinha calma e amorosa para eu não fazer mais, que a gente precisava do dinheiro, que a situação estava difícil… Tadinha! Começou a chorar. Doeu tanto em mim, que chorei a noite toda sem conseguir dormir. Preferia muito mais a vara de marmelo. Eu já tinha doze anos. Não era mais tão criança. Depois disso, trabalhei feito nunca, sem corpo mole ou reclamação, para ajudar em casa, e comia o que tinha, sem fazer cara feia. Aprendi até a gostar de fubá suado.
Isso foi pouco antes de eu ir pra Itu. Mas foi até bom: sempre lembrava disso no colégio interno e, quando sentia saudade e vontade de voltar para casa, pensava: “Não! Eles precisam de mim aqui, para eu aprender, ter uma boa profissão e ganhar dinheiro. Não quero nunca mais ver a Mãe chorar”.
Minha mãe sabia viver: sempre amorosa com a gente, sempre nos defendendo das surras do Pai. Não era fácil pra gente: se batia em algum amigo, apanhava para não bater em filho dos outros; se apanhava do amigo, apanhava de novo para aprender a não apanhar de ninguém, mas ser homem. Rio disso, hoje e é mesmo engraçado. Os tempos eram outros. Não era só meu pai que fazia isso. Todo mundo era assim.
Lembro uma vez quando o Zé da Porca, que era pouco mais novo que eu, amigo do Roberto, meu irmão, brigou com um dos Capetinhas (a gente chamava de “Capetinhas” os filhos do Paulo Capeta): o Zé apanhou feio e chegou em casa e apanhou de novo. No outro dia, na escola, ele foi brigar com o Capetinha mais uma vez porque o pai dele tinha mandado ele nunca abaixar a cabeça ou levar desaforo de ninguém. Apanhou do Capetinha e do pai, pela segunda vez. No terceiro dia, ele chegou todo mansinho pro Capetinha e falou: “vamos ser amigos porque eu não tenho medo de você, mas não quero apanhar do meu pai de novo”. O Capetinha contou para todo mundo e todo mundo deu risada do Zé da Porca e mexeram com ele por um bom tempo, por causa disso. Mas acabou que deu certo e não é que daí os dois se tornaram os melhores amigos um do outro e depois o Zé até casou com uma irmã do capetinha e tudo?! Era assim. Ninguém guardava raiva: a gente era tudo criança.
Eu não briguei muito na rua, pois era o filho mais velho e trabalhava mais que os outros, naturalmente. Tirava leite e depois que o pai abriu o armazém, tomava conta dele, mas não pense que perdi minha infância, ou algo assim. Aproveitei muito mais que meus filhos. Aproveitei muito mais ainda que essa criançada de hoje em dia, que é só televisão, internet e videogame. Trabalhei, sim, mas meu pai nunca me tirou da escola, porque sabia que era importante.
O Pai batia muito, mas queria nosso bem. Também, coitado, não era fácil: imagine aquela filharada, tudo homem – tive uma irmã só e o resto tudo homem: 10 homens! E a gente era pobre e o Pai tinha que se virar para tratar de toda a família. Além disso, o pai era doente: tinha uma úlcera que quase o matava. Às vezes, eu estava em casa e pensava: “cadê o pai?”. Ia pro quarto e estava ele deitado na cama, encolhido, morrendo de dor. Ele tomava um litro de leite para acalmar a dor e não valia de nada. Naquela época, não tinha recurso. O negócio era sofrer. “Gente nasce mesmo é para pagar”, dizia o povo antigo. Talvez estivessem certos. O Pai aguentou isso dois anos antes de conseguir fazer cirurgia. Hoje, eu me pergunto se estou à altura de meu pai e minha mãe.
Quando era rapazinho e fui estudar em Itu, já que na minha cidade só tinha escola de criança, tive vergonha deles, por serem da roça, pobres e ignorantes. Eu só estudava com gente rica, no colégio dos Irmãos e só estava lá porque a Congregação pagava tudo, já que eles esperavam que a gente se tornasse padre. Os meninos que moravam lá eram todos destinados ao seminário, mas havia também os que moravam com suas famílias e iam lá só para estudar. Estes eram os mais ricos. Tinha até filho de fazendeiro! E eu com apenas duas calças e duas camisas que a Mãe fez para eu passar o ano: uma verde limão e uma abóbora. Para passar o ano: veja bem! Coitada da Mãe, costurava de noite, estragando a vista, depois de um dia inteiro de trabalho e ficou toda orgulhosa de me ver experimentando as camisas quando ficaram prontas. Depois,
dobrou com tanto cuidado para por na mala e exigiu que eu tivesse tanto cuidado para transportá-las que parecia que se tratava das roupas de Jesus. Tadinha.
A verdade é que, mesmo com tanto amor e empenho, tive vergonha dela; desta simplicidade. E vergonha do Pai. Meu Deus! Vergonha do Pai que sempre lutou tanto por mim e por todos nós. Via os meninos mais bonitos, mais bem vestidos e mais inteligentes que eu. Meninos que nunca tinham pegado numa enxada e eu não podia dizer que nunca tinha trabalhado pois todo mundo via que eu era pobre tinha as mãos e os pés grossos e calejados. É duro ser adulto quando se ainda é criança, mas isso me fez homem. Depois é que fui perceber o quanto estava errado e quando comecei a trabalhar no banco em São Paulo – e o negócio apertou e tive que comer o pão que o diabo amassou – aí dei valor. E até hoje tenho muito orgulho deles.
Espero que meus filhos um dia tenham a minha idade e ainda tenham esse orgulho que eu tenho de meus pais. Agora, só não sei uma coisa: orgulho do que? Não enfrentei nem um décimo das dificuldades que meus pais enfrentaram; não tive tantos filhos (apenas dois); não vivi numa época sem hospitais, estradas, escolas… a minha cidade ainda não tinha tudo isso, mas saí de lá cedo, para estudar em Itu e quando saí do Colégio, com 18 anos, os Irmãos me arrumaram o emprego no banco, em São Paulo. Não passei o que o Pai e Mãe passaram… Se alguém deveria ter vergonha de seu pai são meus filhos e não eu.
Por isso os trago aqui. Quero que vejam como era tudo, que respeitem meus pais, como eu faço. Quero que conheçam este mundo que se perdeu. Quero mostrar a eles os locais em que aconteceram as coisas engraçadas e felizes de minha infância. E foram tantas! Eles nem devem se lembrar muito bem de tudo que lhes disse sobre os lugares daqui e de quando vinham; faz tanto tempo… É bom estar com eles, aqui. Tudo fica mais leve quando se tem o apoio de quem te respeita e trata bem. Principalmente quando você não merece isso.
Enquanto eles estiverem aqui, comigo, sou eu o foco de tudo e o objeto de interesse deles. Querem saber como se deu esta ou aquela história que lhes contei. Quando estou com eles, recebo o amor que deveria ter dado a meus pais. A gente vai andando e as lembranças me vêm e me assustam, mas o amor deles ajuda a diminuir um pouco este impacto. “Diminuir”. Não “extinguir”. Não adianta: é inevitável viver. Viver
é lembrar: a vida não começa do nada e o presente é dado por quem se não pelo passado?
Cada rua traz em si uma ameaça; cada casa, cada pessoa da minha geração que me aparece e que pode ser alguém que conheço e que traz consigo marcas do passado. Meus filhos me ajudam, porém, a me sentir mais forte. Afinal, eles vêm força em mim. Não sei de onde tiraram isso, mas é assim. Eles me protegem de mim mesmo e me protegem de meus pais, de encontrar com as lembranças que tenho deles. Não sei se funciona, mas acho que é isso: a gente só tem filho é para se proteger de nossos próprios pais.
Só espero que eles não carreguem um dia as mesmas culpas e traumas que eu. “A filiação é bênção ou maldição?”, pergunto-me. Diria que toda bênção é uma maldição. Aprendi isso com a vida. Pena que o oposto não seja verdadeiro.
A vida é mesmo estranha e assustadora: quanto mais te amam e te fazem bem, mais te machucam e atormentam. Não se escapa das cadeias que se aprendeu a amar. Sobretudo se elas te geraram. Talvez seja egoísmo perpetuar essa prática, mas, como na brincadeira da batata quente, não se livra do mal se ele não for passado adiante. Viver é magoar e amar é ferir, mas quem consegue abrir mão disso tudo?! Assim, até mesmo o doce de cidra torna-se veneno. O doce da Mãe.


Rodrigo do Prado Bittencourt (Pouso Alegre, 1984). Doutorando em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra; tem já um conto publicado numa revista da USP e na Revista Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Doce de cidra, por Rodrigo do Prado Bittencourt

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