A cadeira de rodas fazia um ruído maçante, à medida que ela a movimentava: “Nhéc, nhéc, nhéc”. Alguma engrenagem não ia bem. A secura dos rolamentos, encostando um no outro, provocava um rangido agudo e comprido. Em alguma casa vizinha alguém ouvia uma daquelas músicas loucas da moda. Ali da sala de estar ela sentia uns raios de sol entrando pelos vidros da janela e escutava a empregada batendo as louças contra a pia. Não adiantava pedir que lavasse louças gentilmente. Provavelmente aquela ali só conhecia gentileza humanizada, não deveria compreender a utilidade de manusear as coisas com leveza. Os cabelos brancos e ásperos, pela ausência de queratina, lhe caíam pela face. Mal tivera ânimo para prendê-los hoje. Aliás, ultimamente, não tinha mais disposição para realizações. Mas era olhar para as mãos que a deixava mais perplexa. Enquanto completava sua revista Coquetel, olhava para o desenho das rugas em suas mãos, linhas fundas e longas, a pele seca como um papel crepom, as mãos de uma velha. Mãos que completaram muitas Coquetéis, que empurraram as cadeiras de rodas de outras pessoas. Mãos que estão neste mundo há muito tempo viajando pela vida.
Olhando para estas mãos quem imaginaria que ela encontrou o amor? Duas vezes na vida. Ela encontrou duas vezes o amor em sua vida. Quando a maioria das pessoas não o encontra uma vez sequer, nem mesmo de relance. E ela encontrara, por duas vezes, o forte, vívido e intenso amor.
Na primeira vez, foi o amor quem a encontrou. Surgiu como a maré sobe no fim da tarde. Buscou, perseguiu, conquistou, estranhamente permaneceu e, num piscar de olhos, ela se flagrou no meio da história. Aquela história que todas as garotas desejam. Ele estava ao seu lado cotidianamente, mas ela só o percebeu no momento correto. Todo o tempo ele veio assenhorando-se do seu espaço, até o dia de reivindicar o que de modo incansável e leve conquistou. E foi o tempo mais feliz de sua vida, eram dois sorrisos em uníssono, dois olhares na mesma direção, dois corações em mesma cadência, dois seres na mesma frequência, duas vidas em busca de uma só. E foi assim, durante alguns anos, mas, antes mesmo que suas mãos dessem os primeiros sinais de papel crepom, sua maré defrontou-se com a morte e findou.
Uma onda pesada e escura se abateu sobre sua vida. Toda a alegria de peregrinar naquele caminho desvaneceu-se e pela primeira vez ela quis morrer. Ela estava perdida, em meio ao negrume de seus pensamentos, pois já não sabia mais como viver sem ele. Ele estava diligentemente alinhavado em cada canto da alma dela. Estavam separados pelo véu que limita os mundos e que impede que vejamos o lado daqueles que se foram, mas permaneciam unidos pelo fio incorruptível que consubstanciou suas almas. Por esta razão, ela não o via, contudo sentia ao seu lado aquela presença constante, era a existência dele dizendo a ela que permanecia.
E neste tempo, de amargura fúnebre, ela conheceu o amor pela segunda vez. Conheceu o amor na eternidade, na espera silenciosa e paciente pelo reencontro; no toque sutil que recebia em seu rosto todos os dias, quando estava prestes a cair no sono e sabia que era ele; no afago quente das doces memórias que lhe arrancavam um sorriso silencioso, enquanto dirigia; nas histórias que os amigos contavam; nas fotos guardadas com zelo; na lembrança dos longos e íntimos diálogos; na devoção que tinham um pela essência do outro. E ela o amou pela segunda vez, até que suas mãos se tornassem crepom e seus destinos pudessem finalmente se alcançar uma vez mais.
Olhando para aquelas mãos agora, ela sabia que logo seus espíritos se entrelaçariam outra vez. E que esta trama, agora tecida com a força da eternidade, jamais poderia ser desfeita. Aquelas mãos de papel crepom manifestavam silenciosamente a liberdade e o voo conjunto, pelo qual ela tanto aguardou.

In memoriam de R.R.C.F.


Rândyna da Cunha (Brasília, 1983). Graduada em Letras e Direito pela Universidade Católica de Brasília. Colunista na página “A Soma de Todos os Afetos”. Tem contos publicados em revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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