Tínhamos uma promessa silenciosa de pertencer um ao outro para sempre. Se não fosse como jovens namorados, seríamos parceiros na arte. Se não fosse como amantes, seriamos confidentes. Sabíamos que uma vida convencional não nos traria felicidade. Sabíamos que a ideia romântica de uma cerimônia de casamento nunca esteve em nossos planos. Quando imaginávamos nosso futuro, era em volta de uma mesa de um café, bebericando e escrevendo versos, pois sempre soubemos que é a única coisa que sabemos fazer direito é escrever.
A verdade é que éramos individualistas demais para dividir uma só vida. Dividíamos ideias, mas nunca planos. Dividíamos o hoje, mas nunca o ontem ou o amanhã. Porque pintávamos o céu até o amanhecer, mas partíamos antes do sol atingir o topo do céu.
Mas também sabíamos que éramos eternos um para o outro. Nos encontraríamos nesse pequeno mundo dos que morrem por amor. Nos encontraríamos nas estantes das livrarias, nos encontraríamos nos corações daqueles que amam.
E no final sempre nos amaríamos. Não diríamos isso um ao outro, mas saberíamos como um voto secreto. Não tocaríamos um ao outro como tocam os enamorados, mas estaríamos um apaixonado pelo outro. Beijaríamos bocas de outras pessoas e as faríamos nossa inspiração, mas acabaríamos voltando no final da madrugada um para o outro com as histórias da noite que acabariam virando relatos em nossos papéis mofados com as lágrimas que não derrubamos.
E às vezes, só às vezes, quando a saudade batesse na porta, ou a carência, ou depois de algumas taças de vinho em uma noite de deslumbramento, acabaríamos mostrando fisicamente toda nossa admiração pelo outro. E seria só por aquele momento em que nosso individualismo ficaria de lado, nossa forma não-verbal de amar seria posta para fora. E no final sempre acabaríamos questionando porque não escolhíamos o caminho simples e seguro. Porque não nos entregávamos, porque continuávamos caçando pequenas amostras de amor pelas ruelas mal iluminadas da cidade.
Carinho nunca foi sinônimo de afeto. E não confundíamos mais um cafuné com promessas de permanência. Mas reconhecíamos que nossas vidas tinham mudado depois do dia que nos conhecemos, que o que tínhamos era transcendental, grande demais para impor limites de compromisso ou casamento.
E em minhas dedicatórias sempre teriam seu nome. E em suas dedicatórias o meu. E procuraríamos um ao outro por ajuda. E às vezes confundiríamos com paixão. Mas não nos uniríamos de novo, porque sabíamos que sozinhos já pegávamos fogo, e juntos apenas destruiríamos tudo que conhecemos.
Estaríamos eternamente juntos. Nas noites frias de melancolia, dividindo a mesma cama e o mesmo colo. Nos dias claros de conquistas e no consolo. E você me veria de mãos dada com outro alguém e isso não te perturbaria. E eu te veria com seus braços na cintura de uma mulher sensual e mais bonita do que eu poderia sonhar em ser, e seu sorriso me traria alegria. Nascemos para ficarmos juntos, mas nunca para ficarmos presos. Nascemos para não nos acomodarmos e acostumarmos um com o outro. Nascemos para partir e voltar como se fosse a primeira vez. Nascemos para matar a saudade e espantar a dor que nós provocamos em nós mesmos.
A única coisa que dividiríamos seriam nossos nomes iguais e os pensamentos, mas nunca o banheiro.


Marcela Sayuri (Tatuí, 2000). Escreve por necessidade existencial e acredita que a arte e a poesia salva.

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