Vivemos um mundo sem fronteiras, de mercados e deslocamentos que podem, por um lado, favorecer as trocas culturais. A literatura vai de um país a outro, seja pelos livros, seja pela presença dos autores nos eventos, seja pela agilidade das mídias sociais em divulgar as postagens/as notícias.
Por outro lado, o manancial histórico-artesanal de países do continente africano corre o risco de se perder diante das intolerâncias que temos enfrentado, por falta de esclarecimentos e por preconceitos de várias ordens. Da África, herdamos muito das nossas expressões, nas áreas da música, da dança, da literatura, da culinária, do artesanato, da religiosidade. Somos afro-descendentes no uso da língua e na apropriação de expressões artísticas.
Se há tantos livros publicados, autores consagrados, textos reveladores da pluralidade, o que faltaria para ser uma literatura respeitada e conhecida? Por que as escolas não adotam rotineiramente as obras afro-brasileiras? E por que as livrarias não possuem seções especializadas nessa produção? Por que o professores se sentem inseguros e/ou desconhecem autores e livros de matrizes africanas? Caberia um programa de disseminação de livros, textos, escritores e tudo que diz respeito à África. Não bastam livros nas bibliotecas. Nem as pequenas tiragens que raramente entram nas livrarias. A formação dos professores, dos alunos e das famílias precisa ser mantida e fortalecida por cursos e oficinas, resenhas de livros, artigos e estudos. Aqueles que escrevem e produzem literatura devem seguir na resistência.
Vamos acolher a obra de um autor africano e sua rica produção literária. Seus textos são artesania bordada do outro lado do oceano que respinga de cá. Angolano de Huambo (nascido em 1960), Zetho Cunha Gonçalves passou a infância e a adolescência no Cutato, na sua pátria inaugural da poesia (como ele mesmo costuma dizer) – uma povoação da Província do Kuando-Kubango. Isso certamente costurou delicadezas em sua criação literária. A vida no interior, o contato com a terra, a convivência com povos de culturas marcadas pela ancestralidade lhe emprestou um fazer manual aos seus versos.
Poeta, autor de literatura para a infância, organizador de obras e antologias literárias, ele tem dezenas de livros publicados e textos traduzidos em outras línguas. Reside em Lisboa, onde vive de literatura, como um divulgador dos livros de língua portuguesa. É colunista da revista África 21 de Angola e colaborador de inúmeras publicações. Sua obra poética faz um passeio pela oralidade, ao resgatar modos de contar, de cantar das pessoas. Percebemos, logo, a aproximação da poesia com a música, pelos ritmos e melodias dos versos. Da obra Terra: sortilégios:

Canto de nomeação

Oh
djana to djó
djana to djó
//koá
//koá

Tchala kolo djamba
//kae//nalatula bala

//ka kwí kalu
chikie djiha
kwalá nangá

chako tue dui
!nani ta nandi

Kala
Kakolokota
Mugwangwa

!om !oa /nô !koe

Oh
djana to djó
djana to djó
//koá
//koá (p. 37)

Ele revela, em algumas obras, as tradições orais de cada poema, como vemos em Rio sem margem: poesia da tradição oral (2011), publicado aqui no Brasil pela editora Melhoramentos. E Rio sem margem: poesia da tradição oral, livro II (2011). A gênese, a linguagem, a musicalidade dos versos aparecem informadas pela localização geográfica, pelo povo ou pela língua. Uma riqueza de variantes culturais!
De Rio sem margem: poesia da tradição oral, lemos:

O céu, a terra e o mar
[Tradição oral Cabinda, Angola]
Tem uma mulher três filhos:
dois com o juízo perfeito,
o terceiro é demente
– o Ceu, a Terra,
e o Mar. (22.4.2011, p. 22)

O autor tem livros publicados para a infância, belamente ilustrados, a exemplo de: Debaixo do arco-íris não passa ninguém (2006), poesia; Brincando, brincando não tem macaco troglodita (2011), poesia; A caçada real (2011), teatro; e A vassoura do ar encantado (2012), lenda africana.
Ludicidade, jogos de palavras, irreverência e um jeito lírico de escrever sobre e para a criança revelam uma literatura comprometida com a estética (imagens e ritmos) e com a ética (respeito ao leitor e às abordagens).
A obra A palavra exuberante (2004), anuncia um olhar pausado sobre a “Terra”. Alguns poemas são publicados posteriormente em Terra: sortilégios (2013).

Terra? As queimadas da infância,
as velhas árvores ardendo,
castiçais na noite. (p.11)
A natureza, as águas, a terra, as matas, os bichos, o fogo e tudo que faz parte da natureza estão nos versos. E ainda a abordagem metaliterária, em “A escrita será a amnésia criadora”:
A escrita será a amnésia criadora, o pulso animal.
Momento de mil sabores
e nesta mão, a contenção do ar.
Eis aqui os saberes iniciais,
As iniciáticas figuras do fogo.
Oh árvore de todo o horizonte! (p. 17)
E também no já clássico poema “O aparo caligráfico dos sons”:
Para o poema me debruço –
ponto de interrogação, espaço
do espanto. Encantamento, desilusão. (…) (p.19)

No recente livro Noite vertical (2017), Zetho, além de trazer versos plantados na ancestralidade africana, presta tributos a artistas amigos que não estão mais por aqui, a exemplo de Herberto Helder e Eduardo White. E ainda homenageia os que seguem no fazer artístico, como Luandino Vieira e Roberto Chichorro. No prefácio, lemos:
A Poesia é uma coisa demasiado séria e importante, para se confundir com literatura.
Poucas palavras e uma discussão metaliterária sem fim. Um resgate do status da poesia, mãe da literatura na sua origem e grandeza. Se o que enaltece a obra de um poeta é o seu fazer metapoético, Zetho nos brinda com diversos poemas dessa natureza:

No meu ombro
Repousa
no meu ombro
a tua insónia:
– A noite
é o grande poema.
e vai até de Madrugada. (p 44) Que essas palavras salpiquem desejo nos olhos de quem não conhece os livros desse autor angolano. E que sua poesia continue a encantar os de lá e os de cá do oceano.


Ninfa Parreiras (Itaúna, Minas Gerais, 1970). Autora, psicanalista e professora.

______________

Gonçalves, Zetho Cunha. Rio sem margem: poesia da tradição oral. Vila Nova de Cerveira/Portugal: Nóssomos, 2011.
——————–. Rio sem margem: poesia da tradição oral, livro II. Vila Nova de Cerveira/Portugal: Nóssomos, 2011.
——————-. Debaixo do arco-íris não passa ninguém. Ilustrações Chichorro, Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.
——————. Brincando, brincando não tem macaco troglodita. Ilustrações Chichorro, São Paulo: Matrix, 2011.
——————–. A caçada real. Ilustrações Chichorro, São Paulo: Matrix: 2011.
——————. A vassoura do ar encantado. Ilustrações Andrea Ebert, Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
—————–. Terra: sortilégios. Vila Nova de Cerveira/Portugal: Nóssomos, 2013.
—————–. Noite vertical. Lisboa: Língua Morta, 2017.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “De Huambo para o mundo, por Ninfa Parreiras

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