Há cerca de dois anos, fui convidado a produzir, em novembro, mês da consciência negra, um sarau de poesia no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. Pelas razões mais óbvias, preparei um sarau todo de autores negros com poemas que tratassem da negritude sob diversos aspectos. Entre os autores, Nei Lopes, Éle Semog, Salgado Maranhão, Elaine Marcelina, Elisa Lucinda e Conceição Evaristo. Utilizei-me de outros poetas, mas os nomes citados não poderiam faltar à minha seleção.
Conceição Evaristo integra a lista dos imprescindíveis no sarau voltado ao mês da consciência negra porque a sua poética relaciona-se diretamente com todas as discussões que envolvem gênero, cor e memória. No centro dos assuntos da poesia de Conceição Evaristo está a condição socioeconômica da população negra e, mais a fundo, a condição sociocultural da mulher negra numa sociedade machista e racista. O olhar da poeta não perde de foco o seu senso crítico ao versar sobre as tantas lágrimas por sob a pele feminina, geradas pela opressão e pela violência cotidiana a que são submetidas. Se um homem negro sofre uma série de violências causada pelo racismo, a mulher negra sofre a mesma série de violências mais a série de violências causada pelo machismo. Ou seja, sofre o dobro. É bom que tais questões, tão caras à condição de vida das mulheres negras, não sejam esquecidas nem que saiam de foco; tão importante quanto elas, é a preservação da história da população negra. Um povo sem memória, que desconheça a sua história, a história da sua ancestralidade, desconhece os caminhos históricos percorridos para que ele chegasse ao seu momento presente nas condições de vida apresentadas. Um povo sem memória, que desconhece a sua história, não sabe por que lutar nem que armas usar na luta. A poesia de Conceição Evaristo trata de reparar essa questão, poetizando a história da sua ancestralidade, a luta do seu povo negro – e das mulheres negras – para que nunca seja esquecido o que foi preciso fazer a fim de conquistar o respeito e o orgulho por sua condição de mulher negra – ainda que saibamos que há muito a conquistar.
Num momento histórico de tantos retrocessos, de tantas crises, de tantas iminências de guerras, a poesia de Conceição Evaristo nos faz lembrar que arte e resistência política podem e devem unir-se em casamento de igualdade entre os pares, no intuito de que o “discurso político” não fique acima do “fazer poético” e vice-versa.


Paulo Sabino (Rio de Janeiro, Brasil). Poeta, edita o site literário Prosa Em Poema. Coordena o projeto Ocupação Poética, no teatro Cândido Mendes de Ipanema, onde leva ao palco os mais impor-tantes poetas da poesia contem-prânea para a leitura de poemas autorais, inéditos e consagrados, e de outros autores.
Organiza e promove o Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, que acontece na penúltima ou na última quinta-feira de cada mês.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.

Uma resposta para “Mulheres negras: Conceição Evaristo, por Paulo Sabino

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