Ser livre

O que vocês querem que eu fale?
Que cite sabores ou fale de dores?
Tragédia grega ou tragédia brasileira?
Não posso nem fantasiar da minha maneira?

Querem saber se sou delinquente, se sou meliante?
Ah, já sei, querem ver meus passos errantes.
Olhem bem, minha vida é uma comédia,
mas não divina como a de Dante.

Moro no Complexo – perto do mangue.
O que? Você falou sangue?
Ah, sangue é de lamber os beiços!

Fale do tiro de HK na cabeça do menó.
É mais prazeroso, fale de crack, fale de pó.
Quem falou em vícios?
Não te dei indícios de que cheiro loló.

Posso falar de amores?
Amores deixa para os poetas brancos.
Preto tem que expor miséria, putaria, mazela.
Pra quantos você deu hoje?
Ah!… pra toda favela.

Quem é teu pai, garoto?
Não sei.
Não tenho pai.
Meu pai tá preso.
Meu pai tá morto.

Ah!…
quero falar de flores.
Flores não!
Tu é pobre, atraente, mulher…
deve ter muitas orgias em noites de sábado.

Deixe sabores, amores e flores para Vinicius,
Drummond, Jorge Amado.
Tu é preta! É de pica que tu gosta.
Palmatória, mordaça, chibata nas costas.

Fale de abusos, de traumas de infância!
Sem fantasias, sem sonhos, dipirona, doril.
Tu é de ferro, não é mais criança.
Tudo bem, vou me abrir,
Me cortar, me matar, me ferir.

Porque expor minha alma arranhada dói.
Mas sou forte. Eu aguento.
Não tenho mais lágrimas.
Suporto qualquer sofrimento.
Se com as minhas palavras não posso voar,
Aonde meus sonhos e devaneios irão parar?

Não importa a idade, gênero, etnia, nacionalidade.
Chega de estigmas!
O que o negro precisa é de oportunidade, igualdade, liberdade.
Quero ser livre para ser, fazer, escrever o que eu quiser.
Na literatura ou na vida.

Não sou mais escrava, sou deusa africana.
Sou rainha do Egito, do Sudão, da Guiné.
Sou preta, sou livre, sou mulher.

Orgulho negro

Tenho orgulho de mim, deixei de ser prego,
agora sou marreta.
Cansei de sentir o que é ser rejeitada, cuspida,
negada, maltratada.
Somente por ser preta.

Tenho orgulho da minha pele,
da minha carapinha.
Do afro que uso, dos meus traços marcantes.
Minha África!
O início do mundo história, cores, colares, turbantes.

Tenho orgulho dos
guerreiros, dos sábios,
rainhas e reis verdadeiros.
Das minhas tranças, das crenças,
das danças, comidas e extravagâncias.

Tenho orgulho da minha raça,
da luta do meu povo.
Da liberdade conquistada, da briga pela igualdade,
da insistência, resistência.
Do ontem lembrado com tristeza, mas com orgulho.
Por sobreviverem e chegarem vivos ao cais.
Da esperança, força e coragem que tiveram
meus ancestrais.

Tenho orgulho de vir do gueto, da favela, de andar pelo beco.
Porque é o quilombo moderno do preto.
Minhas origens!
Tenho orgulho dos heróis reais que tivemos.
De Zumbi, de Malcolm X, de Biko, Parks e King.

Tenho orgulho de ter o Baobá, o grande embondeiro.
Yorubá é ogbon.
E nunca esquecer que dentro de cada irmão existe um dom.
Tenho orgulho sim!

Orgulho da ayê, do orun, do inã e da omin.
Da terra, do mundo espiritual, do fogo e da água.
Tenho orgulho sim.
Do bangulê, do batuque e do samba.
De todas as lutas de “não à escravidão” e o seu fim.

Tenho orgulho da fé, da negritude, da esperança.
Da alegria, brincadeira e inocência de criança.
Muito orgulho do velho griot, do axé, da xirê e do tambor;
da sabedoria, da força, da festa e do amor.

A voz de Dandara

Ainda revoltada quando me lembro daquelas chibatadas,
das mordaças e das palmatórias.
Dos tempos que o espaço não existia para mim.
Fiquei mais rebelde, mais forte e mais guerreira, pois agora a voz é minha.
Sou livre!
Posso falar, mesmo que não queira me ouvir.
Estou aí para gritar.
SOU NEGRA SIM!!

Tenho a informação meu escudo.
E isso não pode ser roubado por nenhum capitão,
nenhum ladrão.
A minha arma é a educação.
Estou na frente, estou acima de qualquer obstáculo,
qualquer opressão.

Desculpe-me, então, se causei frustração!
Não acreditou que eu podia conquistar,
me libertar, crescer.
Sou forte como um tronco.
PRETA!
Dessas de surpreender.


Alessandra Martins (Duque de Caxias, 1985). É educadora, poeta, escritora, modelo, aprendiz de slammer e feminista negra. Fundou e administra a página poesia pulsante. Escreve sobre arte, cultura, identidade, beleza e estilo no Blog Caviar e Ovo Frito.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia negra contemporânea, por Alessandra Martins

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