Poesia negra

apanhei por ser gorda
menina preta e pobre

cresci ansiando pelo dia
em que minha pele aos poucos
começaria a clarear

deixei de ir à praia
de brincar na rua
usei mangas longas pra esconder os braços do sol

meu cabelo que não tinha gravidade
era crespo e se agarrava nas coisas

alisei

não era bonita
não era magra
não era branca

era gorda menina preta e pobre

ninguém me avisou que apanharia por isso
ninguém me avisou que não seria amada por isso

morri várias vezes e várias vezes sonhei ser mulata
mulher fruta dessas que ao menos é desejada

atrair olhar de homem branco que não me xingasse
que não me batesse a mão na cara

sai daí bombril
cabelo pixain
saci
carne de vaca

era eu
tudo isso era eu
e tinha gente que dizia

eita que essa menina deu sorte
vai sair da senzala
nasceu com nariz afilado e nem é tão escurinha assim
vai clarear quando crescer
é só ter paciência que vai ser parda

parda poderia ser
rainha
deusa
musa de poeta
sereia
poderia ter voz
lugar na mesa da sala

parda poderia ser

parda nada mudou
e eu gorda menina parda e pobre
continuei apanhando
até descobrir que deus
é uma mulher preta
e me aceita.


Luna Vitrolira (Pernambuco, Brasil). É escritora, professora de Literatura Brasileira, pesquisadora de Literatura Popular e idealizadora e produtora dos projetos de circulação nacional Estados em Poesia e De repente uma glosa. Lançará neste ano seu primeiro livro Aquenda.

One thought on “ Neolatina: Mostra de poesia negra contemporânea, por Luna Vitrolira ”

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