Na pele da palavra

Na beleza das histórias, mora o medo da realidade.
A pele arrepia e dança, o medo se instala e brinca.
Nas paredes dessa história, as palavras são ciranda
Nos lábios dessa moça, as histórias são criança
Mas não para por aí, a palavra é semente brotadeira
Na frequência do tempo, amadurece
Não quando queremos, mas quando ela precisa acontecer
As histórias nos escolhem, como na salada mista
A vida vira brincadeira,
Faz sentido e brilha
Quando o som das palavras ecoa
nos ouvidos, cantos e retas
A vida floresce
e voa.

Sentidos

De alguma maneira, a vida ensina a gente boa parte das coisas, as se reconhecer é outro lance.
Sair do próprio corpo e olhar o reflexo da alma,
perceber que é nas linhas tortas da nossa existência
que moram a beleza e a poesia das coisas.
Fluir nas águas transparentes da sinceridade,
alcançar o equilíbrio de aceitar-se.
Entender que o som da voz quando a gente se ouve não é como ele realmente é.
A sensação de confiar em si de olhos fechados e acender por dentro:
Autoconhecimento
é por fim a experiência sinestésica de re-existir.

Sobre-aviso

Você não entende nada,
Ou quase nada do que eu digo
Me quer por perto, se faz de amigo
Exige que eu esteja, me quer numa bandeja
Mas não entende que comigo
É diferente
Presa, ofereço perigo
Livre, é que fico contente
Planto minhas sementes
Nos quatro cantos do mundo
Me prender é não entender que sou feita de camadas,
De pontos profundos
Ignorar minha leveza de ser
Controlar meu querer
Exigir meu calar só produz meu sofrer
Não te faz aprender
Que nasci vida livre pra viver, sonhar e fazer.
Mas se um dia ainda
Você tentar me compreender
Descobrirá em tudo o mais sagrado em mim
Além dos seus achismos
Minha ancestralidade…
Liberdade é meu sobrenome, homem
E meus versos falam por mim, pergunte a eles!

Espelho

Sou ferro, força e fúria
Justiça, equilíbrio e cura
Sou ouro, paixão e pranto
Dividida em preto e branco
Sou guerreira, valente e decidida
Atrevida, encantadora e destemida
Desbravadora de caminhos
Mediadora de conflitos
Posso ser o sim e o não
O belo e o esquisito
Forte como o touro e o aço
Mas feminina
Em sensíveis traços
Na floresta é que me acho
Me conheço e me refaço
A física não me explica,
Tente de novo: sou a convivência harmônica entre
O vento, a tempestade e o fogo.

Papo reto

Brasil, pátria amada, mãe gentil, de janeiro a janeiro
vivemos em meio à sujeira que é jogada pra debaixo do tapete vermelho.
Que cidade maravilhosa!
E aqui tem de tudo: projeto de inclusão, de investimento, de expansão,
mesmo que essa ‘evolução’ seja na base da remoção, da revolta, da repressão…
Nessa reforma urbana, quem ganha é o coronelismo e quem perde é o cidadão.
Ou quem perde é o favelado, o pobre, o abandonado?
E porque não falar do preto? Que até hoje da mesma forma ainda é representado!
Estereótipo de preto é favelado, marginal.
Só se lembram da favela quando é carnaval, aí é legal né?
É pão, circo e bilhete único pro povo!
Samba no pé, mulata, sorriso,
a mesma narrativa ano a ano, tudo de novo.
Que agonia!…
O nosso direito de ir e vir é limitado, planejado, violado.
Quando se é mulher, então aí é que é que tudo cada vez mais controlado.
Nessa batalha travada, eu não mereço ser estuprada,
seja eu homem, mulher ou os dois.
De roupa curta ou de roupa longa, não tem caô não!
Fascismo, racismo e machismo é o que ainda compõe essa maldita representação.
O preto que eu quero ser não é o que eu vejo na TV,
remédio pra favela não é UPP,
o que eu quero é mais respeito, igualdade, democracia,
menos falácia, burocracia, meritocracia,
e já que é pra falar eu não me calo,
nem vem cantar de galo
que eu não me envergonho do meu texto.
Sou preta da periferia e falo mesmo
porque aqui o papo é reto
e o cabelo é crespo!


Viviane Laprovita (São João de Meriti, 1990). Fotógrafa, cineasta, artista visual, grafiteira, poeta e slammer. Seu trabalho é inspirado na cultura e resistência afro-brasileira, no protagonismo negro, na cultura urbana e periférica e na liberdade do feminino. Já teve trabalhos exibidos na Galeria Rio Scenarium (RJ), na Exposição Vinyl Vandals (USA), na Biblioteca Mário de Andrade (SP), no Cine Odeon (RJ) e no Mu-seu de Arte do Rio (MAR -RJ).  Participou das antologias de poetas da periferia Flup de 2016 e 2017. Lançou sua Zine de poesia independente: Versos entre amor e luta e foi campeã do 5º Slam das minas RJ/SP, na Flip 2017.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia negra contemporânea, por Viviane Laprovita

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