Isabel dilui o peso na coragem das mãos impregnadas de vontade. Ao chegar a casa, põe as sacolas sobre a mesa solitária, filhos na escola, o marido partiu numa distância de abandono. Tira do armário a caneca esmaltada, encontrada no lixo, num dia que perambulava pelas ruas, buscando ânimo para tocar a vida com dois filhos, longe da família; foi quando, impelida por força não vista, chega ao objeto, o segura com muito cuidado, leva-o para casa, lava com água e sabão de coco. A caneca lhe abriu uma fenda no tempo: lembrou-se da vida na roça, da avó pilando o grão de café, do cheiro da bebida misturada à fumaça do fogão a lenha. Suspende a lembrança, coloca a chaleira no fogão a gás, coloca pó de café industrializado, bebe o líquido acalmando o desespero. De repente, arrepio no corpo: o cheiro do café já não era o mesmo, ficara igual ao de antigamente, com cheiro da roça; faz tempo não sente esse aconchego! Pega papel, caneta, faz lista de mantimentos; sai para a vizinhança, repartições, bancos, cobrando antes o almoço que faz com sabor do caminho de casa. As pessoas sentem essa saudade impregnada na lembrança: comer comida com gosto de família reunida sob a mangueira, brincadeira com os primos. Corre até o mercado. Em pouco tempo, um banquete está pronto, sem perceber a ajuda da avó, ligeira no fogão e no afago. Prontamente leva as marmitas de comida, voltando com o dinheiro para dia seguinte. Inesperadamente estava sem embaraços de dinheiro, tinha até reserva, para ocasião de importância. Um dia, a avó apareceu visível, nem se assustou; acostumada que estava com sua presença, conversava com ela e escutava a resposta no pensamento. Sabia que precisava deixá-la seguir seu caminho; abraçaram-se sem lágrimas e ela seguiu a luz. Isabel decidiu voltar para casa; os filhos, casados, moravam em outro país. Encontrou a casa da roça empoeirada; limpou, visitou os parentes; juntos prepararam um banquete de celebração à vida sob a mangueira na mesa de muitos anos. A alegria de menina acordou de repente, adormecida por tanto tempo; desde que se fora, aceitara um casamento, a contragosto da avó; queria conhecer outros lugares. Teve alegrias com os filhos; conquistas financeiras lhe deram equilíbrio para viver em segurança. Isso era diferente; rolar pela grama despreocupada das horas, sem pretensões de ir mais além; rir até a barriga doer, sem motivo que merecesse; olhar o amigo de longo tempo, acarinhar seu rosto, esperar as estrelas e procurarem pelas Três Marias como nos velhos tempos.


Aidil Araujo Lima (Bahia, 1958). Contista, com diversos textos premiados e publicados em Antologia. Participou da FLICA em 2016, no Mapa da Palavra pela Fundação Cultural do Estado da Bahia em roda de conversas com outros escritores. Publicação do livro – Mulheres Sagradas, agosto 2017.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Três Marias, por Aidil Araujo Lima

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