Quatro casais da família Anatidae se reuniram para discutir novos rumos do amor, do prazer e da procriação. Quando foi lançada a bomba sobre o fim do sexo, eles se devoraram. De fome, medo ou alívio.
O primeiro tópico discutido no encontro foi a divisão de dois casais monogâmicos e dois poligâmicos na família. Monos até debaixo da água, os gansos lembraram que os cisnes vivem em cima do muro e não são fieis a um único amor. A pintura A Leda e o Cisne, de Leonardo da Vinci, é a prova de um triângulo amoroso entre eles.
A poligâmica pata, tão cheia de amores na vida, defendeu o amor poli. O escritor lábio de mel José de Alencar escreveu Cinco Minutos A Viuvinha para criticar os monos. Quando um deles morre, em cinco minutos a parceira arruma outro.
– Cala a boca, pata! Ocê cai na lábia dos machos e apoia os pais solteiros. É uma traidora do empoderamento feminino, disse a cisne.
A gansa perguntou se patos e marrecos não tinham o desejo milenar de ter um álbum de casamento com fotos felizes. Ou aquele quadro de parede, com a felicidade eterna do casal. Se for de moldura oval, mais lindo ainda. Muita criatura só se casa para ter álbum de casamento.
A marreca prefere selfies. A vida é passageira demais para se casar com papel passado. Já os patos preferem se ver no espelho d´água.
Não deviam ter tocado nesse assunto delicado. O casal de pato começou a chorar. Por séculos, eles tiveram problema de autoestima. A culpa é do livro. No final, O Patinho Feio se transformava em um lindo cisne. Isso criou muito conflito na família Anatidae. O problema foi resolvido depois que um artista holandês criou a grande escultura ambulante e de borracha do Pato Amarelo. Quando alguém se reconhece um animal político, dilemas existenciais perdem a força.
Quem vai pagar o pato pela bomba do fim do sexo é o marreco, que participa do maior e atual estudo científico sobre procriação. Em pouco tempo, ou cinco minutos, poderão ser extintos todos os métodos reprodutivos de animais e gente. Será o fim do sexo e do amorzinho. Qualquer criatura, fêmea ou macho, poderá ter um filho por partenogênese. E assim, acaba de vez a dúvida filosófica sobre quem nasceu primeiro: o ovo ou a botadeira do ovo.
– As fêmeas terão menos poder e os machos vão falar o tempo todo em empoderamento masculino, anunciou a marreca.
– Parece que eu esqueci o que é partenogênese, disse o cisne. É aquela cócora agachada que as galinhas índias fazem pra botar?
– Bico calado, ordenou a cisne. É a coisa mais absurda do mundo um macho botar e chocar os próprios filhos. Essa partenogênese só vai acontecer em ano bissexto ou todo dia?
Não haveria mais maternidade, nem paternidade. Era o fim dos ovos galados. Os filhos de partenogênese serão semelhantes à nectarina, que acreditava ser filha da mistura genética de um pêssego e uma ameixa. Tudo ilusão. É uma fruta órfã, sozinha no mundo, e com cara de pêssego careca.
Falou em fruta, deu fome. Os integrantes da família Anatidae comeram toda a comidinha ortomolecular servida no encontro. Ficaram com mais fome ainda, não sabiam do que.
Nem havia motivo para tanta preocupação, tranquilizou o ganso. Amor é uma coisa diferente de sexo e diferente de procriação. Não são coisas primas entre si. Por outro lado, quem faz partenogênese – e todos vão fazer – nunca mais vai precisar do amor e do prazer de alguém. A criatura se apaixona por si mesma, só tem prazer consigo. Acaba a vida a dois e os triângulos. É a maior tentação até hoje imposta aos animais e pessoas.
Causou surpresa o casal de marrecos estar em processo de separação de corpos a pedido da marreca, que via nesse método a volta da mulher nascida da costela de Adão. Partenogênese era empoderamento feminino. Mais uma vez, os machos vão dominar. E acaba de vez a safra de homens com a inteligência assassina de Cleópatra.
O marreco poligâmico se preparava para uma vida sexual monogamética. Convidou o cisne e o pato para passarem por essa experiência. Imediatamente, a inteligência coletiva Cleópatra foi acionada nas três fêmeas.
A fome ali era de assassinato e fartura de comida. Alguém começou a fazer pato no tucupi e marreco com repolho roxo. Extraíram o fígado dos gansos para o foie gras. Cisne assado relembrou um prato do século 19, adorado pela rainha Vitória.
Sem saberem se seria uma vitória ou uma perda para a humanidade o fim do sexo, do amor e da procriação convencional, os familiares Anatidae saíram saciados e mortos do encontro.
Mortos de curiosidade. Todos passariam por essa experiência.


Sílvio Reis (Minas Gerais, Brasil). É graduado em Jornalismo há 30 anos, com atuação diversificada na área. Atualmente escreve para alguns veículos de comunicação e no blog http://www.vitorioregio.com

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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