Ocioso, andava eu pelas esquecidas trilhas de concreto que abrasavam o centro da cidade. Havia um quê de desolação nos olhos de cada indivíduo passante a cruzar e a esbarrar comigo no mormaço sem vida das calçadas.
Eu era silêncio a demorar os olhos na multidão inquieta com o fascínio de quem se depara com uma atmosfera deliciosamente inédita. Um burburinho me consumia os ouvidos, e eu permanecia no encalço da minha própria sombra, utilizando meus passos para saciar meus tédios.
Agrada-me olhar a feição dos transeuntes disfarçadamente. Trata-se de uma observação de canto de olho que tenta supor emoções ocultas, desvendar destinos traçados, conjecturar intenções impensadas, sondar motivos reprimidos, imaginar ficções inexplicáveis, tudo pela arte de compreender o homem enquanto existência repleta de profundidades imensuráveis.
Decerto, meus olhos são enganosos e minha mente inventa até o que não cria, mas eu insisto em sentir a vibração das vidas.
O céu, em grisalhas massas de chuva delineadas, pintava a noite naquela tarde de fim de verão. Enquanto isso, passavam por mim pessoas de várias idades, mal arrumadas ou engravatadas, mendigas ou milionárias, cada qual percorrendo as ruas com sua pressa, cada uma remoendo em silêncio os compromissos assumidos, as dívidas em aberto, os horários marcados, o incessante toque do celular, a fome que chega ao meio da tarde, as vontades reprimidas, o receio de sofrer qualquer violência no meio da rua, a ânsia por se desfazer em cansaço sobre a própria cama.
A rua tinha suas próprias convicções, memórias, significados, emoções. Por isso, o caminho por onde passamos absorve sempre um fragmento de nossas ilusões, o qual agrega à alma da rua uma direção para os meandros de nossa própria humanidade, multidões internas.
Quando as nuvens começaram a cair sobre as consciências azafamadas que percorriam as ruas, eu já havia me encostado no banco desconfortável de uma cafeteria. Ainda era possível assistir aos passantes misturando-se em turbas do lado de fora, o que fiz com a reflexão irremediável sobre o fato de o homem se recusar à solidão de quando em quando. A própria companhia nunca basta, o tédio desassossega. É necessário à espécie sentir as ruas ecoarem palavras de fugacidade por onde corre a realidade; deixar-se levar pelo calor e pelo vento e pela chuva que não levam a lugar nenhum; dar liberdade à multidão que nos faz espírito e imensidão.


Ronaldo Junior (Rio de Janeiro, 1996) é estudante de Direito e escritor membro da Academia Pedralva Letras e Artes (Campos-RJ), tendo publicado seu primeiro livro, “O verso sou eu” no ano de 2016. Atualmente, mantém o projeto de poesia virtual “Estrofes de mim” em suas redes sociais.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “No homem, uma multidão, por Ronaldo Junior

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