Há quem já tenha ouvido algo sobre Convencido. Há quem, inclusive, simpatize muito com ele. Outros o olham com certa desconfiança. No fundo, porém, todos têm dele um pouco em si. E ele, por si, leva a sua vida como quem merece saber mais.
Dia desses, Convencido andava pelas ruas de sua cidade (sim, sua!), todas adornadas pelos ares natalinos de dezembro. Estava, agora, na Rua do Comércio. Eram pinheiros artificiais, guirlandas, luzes, roupas vermelhas e brancas. Ele se irritava um pouco com a vista, pois se lembrava do tom comercial a que tudo aquilo remetia. Todo aquele frenesi de pessoas em busca das melhores roupas e dos melhores presentes, todas aquelas encenações do bom velhinho, todas aquelas lindas mensagens finalizadas com um “compre!”. Tudo aquilo era tanto para ele, que simplesmente ignorou, como se abstraísse a vil intenção por detrás das belezas daquela paisagem. Passou, porém, por uma rua chamada Rua das Igrejas, e ali, como sugere o nome, havia várias igrejas, das mais distintas denominações e ritos. Em frente a algumas delas, podiam-se ler mensagens muito bonitas, cheias de esperança, boa vontade e bem-querer, cristãs. Outras igrejas, cujas denominações não reconheciam Cristo como o Redentor, tinham em suas fachadas mensagens não menos lindas do que as das primeiras. Outras, ainda, ao som de batuques e pessoas dançando, entoavam cantos que faziam o corpo se mexer involuntariamente e a alma estremecer de bem com a vida. Aquela rua alegrava o coração de Convencido, mas também o desapontava. Ali, alguns sorriam, outros apontavam-se os dedos. Era como uma caótica representação do paraíso. Sabemos que Convencido não se dá com essas coisas e, portanto, voltou à Rua do Comércio para fazer as suas compras de Natal.
De loja em loja, Convencido gastou mais do que deveria (ou do que queria). Porém, uma leve sensação de contentamento lhe tomava, e aquilo fazia lhe contorcerem alguns neurônios. Deixa, Convencido, que ainda há tempo! Finalizadas as compras, cansado, o homem pôs-se a sentar em um banco ao lado de dois senhores muito distintos entre si na vestimenta, mas muito parecidos na fisionomia. Estavam discutindo política. O senhor que usava chapéu dizia ao outro o quão importante era que se mantivessem alguns costumes e que o governo deveria incitar um pouco de patriotismo na população, além de fornecer aos cidadãos o direito ao bem privado. Convencido ouvia e não discordava. O outro senhor, vestindo uma camisa xadrez, disse, porém, que o conservadorismo deixava algumas sequelas na população, e que o governo deveria era criar programas em que as pessoas se abrissem mais ao bem comum, ao convívio real em uma comunidade. Convencido, ainda ouvindo, mantinha-se sem discordar. Percebendo a presença de Convencido ao lado deles, os dois senhores, muito simpáticos, perguntaram a ele qual era a sua opinião.
Convencido, muito assertivo, disse que concordava com ambos. Eles, no entanto, disseram que isso não era muito opinativo, que era necessário que ele definisse melhor seu posicionamento. O nosso amigo, por sua vez, emitiu um sincero sorriso aos dois senhores e disse que pensaria melhor sobre aquilo, mas que precisava ir embora, pois tinha ainda sua casa para limpar e seus trabalhos a fazer na horta comunitária do bairro. Ele também precisava fazer sua oração, sempre pontual, às seis da tarde. Além disso, sairia naquela sexta-feira à noite com alguns poucos amigos, queria encher a cara. Levantou-se e apertou as mãos dos dois senhores, dizendo em um bom e brasileiro português “Até logo. Tenham um bom dia!”.
Convencido gostava de caminhar, e por isso ia sempre a pé para casa. No caminho, cruzou com diferentes casais que andavam juntos, uns de mãos dadas, outros apenas caminhando na mesma direção. Não gostava nem desgostava daquilo, não preferia a uns nem a outros, mas via neles beleza. Viu, ainda, outros casais se beijando: homens beijando mulheres, mulheres beijando mulheres, homens beijando homens, além de outros casais que se beijavam, mas que lhe era difícil definir o gênero. Convencido não gostava da visão desses beijoqueiros casais. Sabia que o amor era público, mas lhe incomodava tamanha afetuosidade gratuita. Lembrou-se, porém, dos calorosos beijos que dera em sua última namorada em público. Prometeu a si mesmo não repeti-los, mas sabia que era uma promessa que nunca seria cumprida.
Ao chegar a casa, Convencido guardou os presentes que havia comprado para sua família e seus amigos [apenas os mais próximos, tanto dos amigos quanto da família]. Planejou escrever no final de semana uma mensagem para cada um deles, pois o presente era só a representação de todo o bem-querer. Pensou no porquê dos presentes, então. Não encontrou em si coisa que fosse resposta. Fez a sua oração. Limpou a casa. Junto de outros três vizinhos, cuidou da horta de todos. Retornou à sua casa e tomou um longo banho, pensando no que poderia fazer para economizar água. Fez sua janta e comeu, jogando fora a comida que sobrou. Lembrou-se que deveria levar um pacote de arroz à caridade no domingo de manhã. Lembrou-se, também, que odiava acordar no domingo de manhã, e que lhe era difícil ser simpático com aquelas pessoas tão matutinamente. Mas já estava habituado àquilo. Abriu seu Facebook e riu-se daquelas pessoas que postavam coisas desnecessárias sobre suas vidas em rede e, antes de fechar a tela do computador, postou uma foto de si com a legenda “Dia cansativo, mas proveitoso. #esperança”. Sentiu-se um pouco ridículo logo que o fizera, mas, vá lá, a besteira já estava feita. Quinze curtidas em menos de um minuto e um ego que, embora ridículo, estava inflado. Iria dormir um pouco antes de sair à noite, afinal, estava de férias – muito merecidas pelo seu esforço durante todo o ano. E, antes de se deitar para o cochilo, ele que odiava drogas, serviu-se uma dose de uísque e acendeu um cigarro, pensando em todas as coisas das quais ainda não havia se convencido.
Aquele foi um dos dias em que Convencido se sentia deveras humano, nada mais, nada menos do que humano. Tinha saudades de alguns membros da família e de alguns amigos, mas estava muito cansado para visitá-los; ligaria em outro momento, faria visita em qualquer outro dia. Pensou em todos eles com carinho, fechou os olhos… e quase dormiu. Assustou-lhe um pensamento que lhe viera em um rompante: “Devo ser muito hipócrita!”. Segundos, porém, bastaram para que outro pensamento lhe viesse e acalantasse a alma: “Deixa, Convencido, que ainda há tempo! Hipocrisia seria não assumir a sua própria hipocrisia. Dorme, humano!”.
E, mais uma vez, naquele dia para um cochilo, Convencido dormiu, sem nunca se convencer de nada. Ah, a ceia de Natal seria na casa de sua avó. E foi.


David Edson de Camargo Junior (Votorantim, 1989). Professor e escritor.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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