Quando ela entra no trem e olha para todas aquelas pessoas, não consegue fazer nada além de imaginar suas histórias. Aquele senhor sentado no acento preferencial, ele parece ser viúvo. Todos os dias, quando entra no trem, ela o vê, sentado no mesmo lugar, sempre vestido de preto e, eventualmente, rodando a aliança que jaz em seu dedo. Seu semblante parece tristonho, distante. É como se tivesse perdido algo que nunca vai ser capaz de recuperar.
A moça de azul sentada no final do vagão parece estar sempre em busca de mais, olhando para longe, vagando nos próprios pensamentos e sorrindo vez ou outra com qualquer coisa que pensa. E como pensa! Toda vez que ela olha para a moça de azul, a vê encostada na janela, pensando, e pensando, e pensando.
Enquanto arruma os fones de ouvido, ela se lembra da vez em que estava triste e estressada, mas foi só olhar para a moça no final do vagão e a ver tão tranquila e serena que isso passou. Foi como um lembrete de que a vida é curta e o que hoje lhe aflige, amanhã já não importa mais.
Se pudesse, ela agradeceria cada um dos desconhecidos com quem cruza na rua, os encheria de abraços e sorrisos e diria mil vezes obrigada, porque ela sabe que nada em sua vida seria como é hoje se, lá atrás, não tivesse esbarrado naquele fulano e acabado por se atrasar, ou então se não tivesse se perdido pelo caminho por ter recebido informação errônea (ou havia sido ela a interpretar de forma errada?).
Nós, seres humanos, não fazemos ideia do impacto que temos na vida de outrem por meramente existir e estar em um determinado lugar em uma determinada hora. E essa é a beleza da vida. Todo esse caos que parece tão perfeito, esse choque entre caminhos que acontece todos os dias. A beleza da vida é ser. Ser sem saber que é; ser sem dever ser; ser puramente por ser.
Efeito borboleta, a teoria do caos. O jeito mais bonito de o universo dizer que estamos sozinhos e nossa vida pertence apenas a nós, por mais que o controle dela não seja inteiramente nosso.


Yasmin Brussulo (Barueri, 2001). Aspirante a autora, estudante de publicidade, sonhadora e futura viajante.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Uma palavrinha sobre a beleza da vida, por Yasmin Brussulo

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